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Integrando-se aos Quatro Elementos
-  Uma receita possível para a paz

Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 368 / maio 2003


  

Todas as milenares culturas que procuram preservar suas características e manter vivas suas tradições, valorizam a terra como berço e palco da vida, concebem-na sagrada e a reverenciam com máximo respeito. Povos indígenas e sociedades pré-industriais de todos os continentes sabem que a natureza é generosa, e que nos devolve em abundante proporção todo ato de amor humildemente praticado em seu nome.

Na outra face da moeda, porém, deparamo-nos assombrados com a crescente urbanização de nossos meios de vida, decorrente do progresso tecnológico capaz paradoxalmente de promover grandes conquistas científicas tanto quanto a desenfreada industrialização associada à corrida armamentista.

 

  

Tal antítese, de alcance apocalíptico, revela à sociedade contemporânea o desconfortável drama que é este, o de estar em cheque, e força a humanidade a olhar para trás na esperança de recuperar sua inocência, de reencontrar a inspiração e a simplicidade perdidas em algum ponto do caminho. De mesmo modo, obriga-nos a pensar e a escolher quais valores desejamos ver preservados e entregues com carinho às gerações vindouras.

Podemos, entretanto, permanecer cegos aos já visíveis "sinais dos tempos" sob pena de, pecando por omissão, deixarmos que os recursos naturais e vitais do planeta se esgotem ou se tornem poluídos a ponto de não prestarem sequer ao propósito de nossa sobrevivência.

Bem sabemos que todo o manancial potável corresponde a raros 3% de toda a água planetária, e que nossas condições climáticas, cada vez mais críticas devido ao insidioso efeito estufa, mantêm nosso mundo protegido por uma redoma atmosférica tão resistente em termos astronômicos quanto uma bolha de sabão.


Não fossem apenas essas as preocupações mais graves
, assistimos hoje de camarote ao desdobrar da tragédia clássica em que se resume a estupidez humana, que ora escolhe por protagonista um governante celerado de uma nação visivelmente decadente e paranóide, cujo regime democrático, já caduco, nem mesmo sabe contar votos e até hoje desconhece se foi esse mesmo o presidente que elegeu. Decididamente está caída a máscara do império estadunidense que, julgando ser seu way of life um modelo de virtude, propõe-se historicamente a declarar suas guerras sob qualquer pretexto imbecil, desde lutar contra o mal do comunismo intervindo militarmente nas Américas durante a guerra fria, ou culpar os países andinos pelas drogas que atravessam suas fronteiras, ou mesmo pôr fim ao terrorismo internacional quando em verdade quer apenas apropriar-se de mananciais de água ou de petróleo, ou quaisquer outras riquezas que abundem por solos que lhe são alheios, com a mesma ignomínia com que se declara contra o protocolo de Kyoto, ou se revela racista na conferência de Durban.

Impossível para mim, neste momento absolutamente crítico em que nossas vidas se encontram direta ou indiretamente ameaçadas pela infâmia de um louco, passar incólume por cima da triste realidade, esquivando-me de tecer este meu comentário a respeito desse reiterado equívoco da espécie humana. Obviamente, não defendo o regime de Sadam Hussein nem qualquer outro que seja desumano e totalitário, mas evidentemente, não tenho dúvidas de que o primeiro nome que deve ser entregue ao Tribunal Internacional de Haia é o de George W. Bush, cujo caráter de perseguidor insano, historicamente, iguala-se somente ao de Adolf Hitler e ao da Santa Inquisição.

Carente de paz, incoerente em suas próprias atitudes, o mundo inteiro assiste atônito às últimas matanças e precisa urgentemente, antes que o processo de auto extinção seja irreversível, recuperar o equilíbrio mágico e atemporal, capaz de preservar a vida por meio da verdadeira amizade entre o homem e seu planeta, entre nós e todos os demais seres vivos que compartilham dessa frágil morada, friável grão de areia a ocupar um diminuto ponto da galáxia.

Mais do que um protesto, proponho que este texto seja um exercício pela paz universal, e peço a meu leitor nesse momento que, em nome da consciência planetária, permita-se entregar e integrar-se à natureza por meio de um ciclo de interação ritualística a envolver seus quatro elementos arcaicos e fundamentais: ar, terra, água e fogo, segundo roga a tradição do esoterismo ocidental.

Para começarmos, e para que nosso exercício seja realmente interativo, peço ao leitor que antes de prosseguir com a leitura, pegue papel e lápis para compor um desenho simples qualquer que possa ser intitulado Natureza. Faça-o agora, por favor, para que nossa mágica tenha boas chances de dar certo.

Cumprida essa pequena tarefa preliminar, guarde o desenho para que seja retomado ao final dessa leitura, cujo propósito é o de instruir-lhe para a realização de quatro experimentos relativamente simples. Peço ao leitor que por ventura se interesse por eles, uma gentileza a mais: que neles mergulhe de alma e coração, sentindo e vivenciando o que eles pedem, procurando não os obstruir com o pensamento crítico racional.

ELEMENTO AR

Todos hão de concordar: a respiração é o exercício responsável pela manutenção de nossa vida. Podemos melhor viver se soubermos bem respirar. Antes de iniciarmos nossa prática, observe o leitor por alguns instantes como é que costuma respirar. Procure manter-se o mais tranqüilo possível e respire normalmente. Mente serena, pulmões livres e desimpedidos... respire naturalmente e concentre-se a fim de perceber seu ritmo, se sua respiração é suave ou ruidosa, calma ou agitada, plena ou muito curta, contínua ou intermitente.

Independentemente do constatado, procure fazer o seguinte exercício em quatro tempos:
1°. Inspire profundamente
2°. Segure o mais que puder
3°. Esvazie os pulmões plenamente
4°. Retenha a respiração pelo tempo que puder (agora com os pulmões vazios) até sentir o primeiro desconforto

Repita indefinidamente este ciclo de quatro tempos até encontrar um ritmo que lhe seja confortável, adequado às suas capacidades respiratórias.

Mentalize:
A cada inspiração: recebo o sopro divino.
Com os pulmões cheios: a consciência divina revitaliza-se e me renova inteiramente o espírito
Ao expirar: envio a todos a paz universal
Com os pulmões vazios: sacrifico-me nesse instante pelo bem comum.

Tal exercício pode ser realizado por alguns minutos diariamente até que a prática permita fazê-lo por períodos cada vez maiores. Constitui-se em atividade saudável tanto para o corpo quanto para a mente.

 

ELEMENTO TERRA 

1. Escolha uma árvore, seja a do jardim de sua casa ou qualquer uma de algum bosque ou parque público; dê preferência às mais antigas, que inspirem ancestralidade. Se for impraticável fazê-lo, então visualize uma árvore, de modo que tal experimento possa ser feito mesmo dentro de um recinto fechado.
2. Encoste suas mãos espalmadas no tronco da árvore e procure senti-la; tente perceber suas qualidades. Capte as vibrações deste ser vivo enraizado à terra e busque identificar-se com o reino vegetal. Constate sua familiaridade com ele, afinal, somos também feitos de mesma matéria orgânica. Se possível, fique descalço e pise rente às raízes ou mesmo sobre elas.
3. Tão logo se sinta íntimo da árvore escolhida ou visualizada, abrace-a e declare a ela de viva voz sua amizade. Apresente-se e lhe diga tudo que mandar seu coração. Permita-se emocionar.
4. Procure agora sentir o que a árvore tem a lhe dizer, esteja atento àquilo que ela lhe pede ou ensina.
5. Agradeça à árvore pela interação mútua, pela troca de experiências e por sua integração ao elemento terra.
6. Tão logo lhe seja oportuno, plante uma árvore (mesmo flores servem) e ao fazê-lo expresse em viva voz o desejo de que seu ato floresça em nome da paz e do bem comum.

Este exercício nos remete às nossas origens ao permitir nosso encontro com um ser vivo terreno e preferencialmente de caráter ancestral. Lembra-nos de que somos meras centelhas passageiras pela vida e que, para além de nossa existência, as galáxias são perenes em sua dança cósmica orquestrada. Humus, termo do latim, relativo a terra, é também radical da palavra humildade, a mesma com que nos curvamos tanto para reverenciar os nomes de nosso passado quanto para cavar a terra do instante presente onde podemos plantar as sementes das gerações seguintes.


ELEMENTO ÁGUA 

1. Tome um copo d'água em suas duas mãos, dedos entrelaçados, e o coloque junto ao abdômen (diante do plexo solar).
2. Respire por alguns minutos conforme o exercício ensinado no "elemento ar" enquanto mantém o copo d'água preso junto ao corpo.
3. Beba a água mentalizando que esse fluido vital purifica seu organismo e seus pensamentos.

Realize este exercício sempre que possível antes de dormir refletindo acerca do dia vivido, avaliando seus resultados e suas atitudes nas últimas 24 horas. Faça-o também pelas manhãs, em jejum, logo ao acordar, transformando-o numa prece em nome da paz universal e em agradecimento pelo retorno de nossa consciência que se abre ao novo dia que a natureza franquia em nossas mãos.

Aos que têm facilidade para banhos de mar, em lagos, rios ou cachoeiras, mesmo em piscinas, sempre que possível, em contato com a água, procurem sentir sua energia encarando cada imersão como um renovado autobatismo, visando à paz pessoal e universal por meio da limpeza profunda de nossas almas.


ELEMENTO FOGO

O ideal para esse experimento é que você possa acender uma fogueira em local seguro ou valer-se de uma lareira. Na falta destas condições, poderá servir-se de várias velas de diferentes cores, formas e tamanhos, que devem ser colocadas de forma aleatória e bem distribuídas sobre uma mesa (ou altar) que seja posicionada próxima a uma parede.

1. Procure concentrar-se e bem visualizar a dança do fogo; mantenha-se absorto e passivo o mais possível.
2. Execute por alguns minutos o exercício ensinado no "elemento ar".
3. Quando estiver introspectivo, tente valer-se do fogo para a prática da piromancia segundo roga a tradição oracular: tenha em mente uma pergunta ou algo que deseje saber ou descobrir; escolha algo acerca do que necessita de iluminação e esclarecimento, preferencialmente alguma situação de sua vida que esteja exigindo de você alguma decisão. Tenha em mente de forma muito clara esta questão.
4. Se estiver sozinho, diga em voz alta, numa frase sucinta, o que deseja perscrutar.
5. Observe em silêncio e sempre atentamente o progredir do fogo e tente perceber as figuras e imagens que se insinuam ou se formam em meio à brasa. Procure interpretá-las em acordo com sua questão.

Para o caso de estar usando as velas, certifique-se de que seu arranjo é seguro e torne-se igualmente absorto diante de seu altar. Use música inspiradora de fundo, se possível, e observe atentamente a dança das chamas, sobretudo das sombras projetadas sobre a parede, posto que a disposição das velas deve ser tal que favoreça esse efeito. Procure abstrair das imagens percebidas uma orientação oracular para a questão previamente formulada.

A linguagem do fogo é feita de cores, de crepitações, de danças, escaramuças, estalidos e sussurros. Esteja sensível e mantenha os canais de percepção abertos à intuição e às imagens que surjam em sua mente. Procure dar atenção principalmente aos sonhos que tiver nas noites em que realizar tal exercício. Ao fim do trabalho, antes de apagar o fogo, diga mentalmente o seguinte: ao extinguir do fogo, as chamas da verdadeira luz divina se acendem em minha alma e acrescentam calor e paz ao coração dos homens.

Terminada a leitura deste roteiro de exercícios de integração à natureza por meio dos quatro elementos, peço ao leitor que observe então o desenho que fez há pouco. Desenhou o quê, sob o título Natureza? Desenhou árvores, pássaros, sol ou lua, céu estrelado, fontes ou rios, campo verdejante, animais pastando, casinha com chaminé, cercada de bichos e tendo ao lado um laguinho com patos?

Pergunto-lhe se por acaso desenhou de tudo um pouco e se esqueceu de desenhar-se a si mesmo. Se ao menos desenhou algo que de fato o represente em seu desenho, parabéns! Mas se você, caro leitor, não está lá, talvez esteja esquecendo-se de que a natureza somos nós essencialmente; que ela se expressa por nós, inclusivamente. Ora, mas nada está perdido se seu desenho tem de tudo menos você mesmo; maior razão para integrar-se à natureza e percebê-la operando maravilhas por meio de seus braços, vibrando em ressonância com seus melhores sentimentos.

Humildemente, cada um de nós está sendo diariamente convocado à responsabilidade de manter a paz e o equilíbrio do planeta. Descobrir-se parte integrante e essencial do todo é tudo o que precisamos para bem querer preservá-lo por meio de cada simples gesto, de cada simples palavra, também por meio de nossos pensamentos. A vida pede passagem, e a paz é condição para preservá-la sempre bela!


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento e acupunturista.

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  Arte: Monica Facó

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