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Paulo Urban
  


Hipócrates e a Medicina Chinesa
Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 355/ abril 2002
  

Passa despercebido por quase a totalidade dos médicos e historiadores, que o grego Hipócrates (460-370 a.C.), pai da medicina ocidental, tenha professado sua arte e fundamentado seu conhecimento científico em axiomas que guardam profunda semelhança com a filosofia oriental, mais especificamente o taoísmo, base do pensamento médico chinês.

A medicina tem raízes perdidas num passado longínquo. Evidências de práticas ritualísticas combinando o pensamento mágico a técnicas primitivas de cura datam de meio milhão de anos, e o instinto de medicar pode ser encontrado mesmo nas espécies inferiores. Animais silvestres, por exemplo, chegam a viajar grandes distâncias em busca de plantas que contenham princípios ativos capazes de tratar suas afecções; as corujas livram suas penas dos piolhos tomando banhos de areia; e o ato de lamber as próprias feridas, a promover assepsia local pelas propriedades germicidas da saliva, é traço comum do comportamento animal, encontrado também entre as crianças.

Desde o alvorecer das civilizações, a preocupação com a saúde é inerente à condição humana que, testemunha do próprio sofrimento, procura prevenir-se das doenças e curar seus males. Universalmente presente nas culturas primitivas está a figura do xamã, ou sacerdote feiticeiro, dotado de poderes mágicos endossados pelo mundo espiritual que o orienta em sua prática de cura. Seu saber ancestral perpetua-se ao longo das gerações por meio da tradição oral e pelos ritos de iniciação destinados a selecionar esses raros indivíduos.

Crânios pré-históricos coletados em várias regiões do mundo, incluindo o Peru, revelam a prática da trepanação, cirurgia pela qual se chega ao cérebro através de aberturas feitas na calota craniana por instrumento cortante de pedra. Espanta-nos saber que tais intervenções eram praticadas em pacientes vivos; mais incrível é a evidência de que parte deles sobrevivia, como nos mostram achados arqueológicos de crânios trepanados nos quais há margens arredondadas de calcificação óssea, crescidas após a cirurgia. Impressionante também é a imagem rupestre do feiticeiro-cervo gravada a cinco metros do chão na câmara subterrânea da caverna de Trois Frères, sul da França, datada do Paleolítico Superior (30.000 a 10.000 mil a.C.). É o retrato do mais antigo médico até hoje revelado. O xamã de Trois Frères tem barba e pernas de homem, patas dianteiras de urso, cobre-lhe o rosto uma máscara de veado com chifres, e está dançando, como se executasse um ritual misto de caça e cura.

Escavações realizadas pelo inglês Sir Leonard Wooley, em 1929, em tumbas reais na Mesopotâmia, revelaram que os sumérios, por volta de 5.000 a.C., valiam-se de bebidas depressoras do sistema respiratório, com as quais sacerdotes de ambos os sexos sacrificavam voluntariamente suas vidas. Uma vez dormentes, eram enterrados vivos ao lado dos corpos de seus reis mortos. Além disso, instrumental de cobre, de 4.200 a.C., escavado nas cidades de Ur, Kish, e Lagash, sugere que os sumérios também dominavam a técnica do escalpo.

Também os egípcios detinham uma pródiga medicina. O que dela sabemos provém de dois grandes fragmentos de escrita hierática, os papiros Ebers e Smith. Ambos são datados de 1.600a.C., mas o segundo, descoberto em Tebas, em 1862, copia textos médicos que datam de 2.500a.C. O Papiro Ebers traz desde fórmulas mágicas para debelar pestes e curar doenças até imprecações para o rejuvenescimento. O papiro Smith, por outro lado, inclui condutas cirúrgicas até hoje válidas, como o uso de compressas nas hemorragias; apresenta seções dedicadas a oftalmologia e aos órgãos internos, e comenta casos clínicos, prognósticos e tratamento. Um dos maiores médicos da antigüidade egípcia foi Imhotep, sacerdote e arquiteto que serviu ao faráo Djoser (2.630a.C.) da terceira dinastia, construtor da primeira pirâmide, em degraus, em Saqara. Imhotep, cujo nome significa "aquele que veio em paz", devido a seus extraordinários dotes, foi divinizado após a sua morte. Sua figura mesclou-se à imagem de Thot, deus da sabedoria, o mesmo que devolveu a Hórus seu olho perdido na luta empreendida contra Seth, assassino de seu pai, Osiris. Thot seria ainda assimilado pelos gregos, sob o nome de Asclépio.

De acordo com a versão mais aceita, Asclépio era filho de Apolo e da ninfa Corônis, filha de Flégias, rei dos Lápitas. Seu nascimento dera-se por parto cesariana, procedimento que os gregos registram desde 1.200a.C. Originalmente, era Apolo quem afastava as epidemias com suas flechas, até confiar seu filho ao cuidados do centauro Quíron, médico formado no saber de Apolo, cujo nome grego Kheíron provém de kheirurgós (aquele que trabalha com as mãos), de onde saiu o nome "cirurgião".

O personagem mítico aqui também se confunde com a histórica, visto que Asclépio, cujo nome significa "o bom e o simples", deva de fato ter vivido por volta do século 13a.C, até porque o vemos na expedição dos argonautas ao lado de heróis como Jasão, Héracles, Peleu e outros. Insuperável em sua arte, o bom médico teria até mesmo conseguido ressuscitar alguns de seus amigos mortos nessa viagem. O feito lhe rendeu a ira de Hades, rei dos mortos, que o acusava de sonegar almas aos infernos, e assim perverter o cosmos, razão pela qual foi fulminado pelos raios de Zeus. Desde então, Asclépio encontra-se divinizado.

Fixando-se em Epidauro, domínio de Apolo, o sábio fundou uma Escola de medicina, também hospital; na verdade um templo destinado a receber doentes de toda a parte que vinham se submeter a tratamentos mágicos. Com a cotidiana observação dos casos e mediante larga prática clínica, a arte médica dos gregos pôde dar seu primeiro passo no universo do "espírito científico", base de toda a medicina acadêmica do mundo ocidental.

Asclépio era chefe de uma família dedicada à medicina. Tinha um verdadeiro corpo clínico em sua casa. Seus filhos, Podalírio e Macaón, surgem como médicos da Ilíada, além de Higéia e Panacéia, que cuidavam das serpentes no templo; a primeira, dedicada à higiêne (medicina preventiva); a segunda, à cura das doenças.

Com os séculos a Escola alcançou fama desmedida. Os discípulos de Asclépio migraram por toda a Grécia, fundando novas Escolas, as Asclepíades, sendo famosas a de Pérgamo, a de Cós, e a de Cnido, esta a mais antiga, do séc. 7a.C.. Nelas se praticava, além das preces e oferendas aos deuses, a ausculta dos pulmões com os ouvidos colados ao tórax, incisões renais e outros feitos, longe, porém, do rigor científico. Nelas moravam também os escribas, cuja função era registrar em "tábuas votivas" o que lhes contavam os pacientes curados.

Hipócrates nasceu em Cós; seu pai, um médico, mandou-o estudar em Atenas. Ao regressar, funda a Asclepíade de Cós. Imprimindo seu gênio, cria o método de observação ao pé do leito, descrevendo cada um dos casos, sentindo o operar tênue ou abrupto dos sintomas. Hipócrates formaliza assim uma extensa obra, maior parte dela escrita por seus alunos, que cristalizava o saber empírico das tábuas votivas num pensamento sistematizado e notável, desligando a medicina das crenças mágicas. Nascia assim a ciência médica ocidental, marcada pelo rompimento de Cós com a medicina religiosa praticada pela Escola rival de Cnido, bem como por todo o restante da Grécia.