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Passa
despercebido por quase a totalidade dos médicos e historiadores,
que o grego Hipócrates (460-370 a.C.), pai da medicina ocidental,
tenha professado sua arte e fundamentado seu conhecimento científico
em axiomas que guardam profunda semelhança com a filosofia oriental,
mais especificamente o taoísmo, base do pensamento médico
chinês. Crânios pré-históricos coletados em várias regiões do mundo, incluindo o Peru, revelam a prática da trepanação, cirurgia pela qual se chega ao cérebro através de aberturas feitas na calota craniana por instrumento cortante de pedra. Espanta-nos saber que tais intervenções eram praticadas em pacientes vivos; mais incrível é a evidência de que parte deles sobrevivia, como nos mostram achados arqueológicos de crânios trepanados nos quais há margens arredondadas de calcificação óssea, crescidas após a cirurgia. Impressionante também é a imagem rupestre do feiticeiro-cervo gravada a cinco metros do chão na câmara subterrânea da caverna de Trois Frères, sul da França, datada do Paleolítico Superior (30.000 a 10.000 mil a.C.). É o retrato do mais antigo médico até hoje revelado. O xamã de Trois Frères tem barba e pernas de homem, patas dianteiras de urso, cobre-lhe o rosto uma máscara de veado com chifres, e está dançando, como se executasse um ritual misto de caça e cura. Escavações realizadas pelo inglês Sir Leonard Wooley, em 1929, em tumbas reais na Mesopotâmia, revelaram que os sumérios, por volta de 5.000 a.C., valiam-se de bebidas depressoras do sistema respiratório, com as quais sacerdotes de ambos os sexos sacrificavam voluntariamente suas vidas. Uma vez dormentes, eram enterrados vivos ao lado dos corpos de seus reis mortos. Além disso, instrumental de cobre, de 4.200 a.C., escavado nas cidades de Ur, Kish, e Lagash, sugere que os sumérios também dominavam a técnica do escalpo. Também
os egípcios detinham uma pródiga medicina. O que dela
sabemos provém de dois grandes fragmentos de escrita hierática,
os papiros Ebers e Smith. Ambos são datados de 1.600a.C., mas o
segundo, descoberto em Tebas, em 1862, copia textos médicos que
datam de 2.500a.C. O Papiro Ebers traz desde fórmulas mágicas
para debelar pestes e curar doenças até imprecações
para o rejuvenescimento. O papiro Smith, por outro lado, inclui condutas
cirúrgicas até hoje válidas, como o uso de compressas
nas hemorragias; apresenta seções dedicadas a oftalmologia
e aos órgãos internos, e comenta casos clínicos,
prognósticos e tratamento. Um dos maiores médicos da antigüidade
egípcia foi Imhotep, sacerdote e arquiteto que serviu ao faráo
Djoser (2.630a.C.) da terceira dinastia, construtor da primeira pirâmide,
em degraus, em Saqara. Imhotep, cujo nome significa "aquele que veio
em paz", devido a seus extraordinários dotes, foi divinizado
após a sua morte. Sua figura mesclou-se à imagem de Thot,
deus da sabedoria, o mesmo que devolveu a Hórus seu olho perdido
na luta empreendida contra Seth, assassino de seu pai, Osiris. Thot seria
ainda assimilado pelos gregos, sob o nome de Asclépio. O
personagem mítico aqui também se confunde com a histórica,
visto que Asclépio, cujo nome significa "o bom e o simples",
deva de fato ter vivido por volta do século 13a.C, até porque
o vemos na expedição dos argonautas ao lado de heróis
como Jasão, Héracles, Peleu e outros. Insuperável
em sua arte, o bom médico teria até mesmo conseguido ressuscitar
alguns de seus amigos mortos nessa viagem. O feito lhe rendeu a ira de
Hades, rei dos mortos, que o acusava de sonegar almas aos infernos, e
assim perverter o cosmos, razão pela qual foi fulminado pelos raios
de Zeus. Desde então, Asclépio encontra-se divinizado.
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