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Freud
e a Parapsicologia
Por Paulo Urban
Texto
publicado na Pulsional, Revista de Psicanálise em Circuito
Nacional, do Centro de Psicanálise, ano IX, nº 85, maio
de 1996.
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Resumo
Com base em textos escritos pelo próprio Sigmund Freud e
relatos sobre sua vida apontados por Ernest Jones, um de seus maiores
discípulos e biógrafos, o autor apresenta a evolução
do pensamento freudiano no tocante aos fenômenos parapsicológicos,
sobre os quais Freud deitou seu interesse e que o levaram a analisar
mais detidamente o fenômeno telepático.
Neste trabalho, o autor evidencia fundamentalmente as dificuldades
que enfrenta a parapsicologia em nossos dias, por um lado impropriamente
usada pelos místicos que dela tentam servir-se para fundamentar
suas crenças, a modo do que tentaram fazer com a psicanálise
na época de Freud; e por outro, alvo de todo um preconceito
acadêmico, no mínimo desatento a certos aspectos de relevância
existentes na obra freudiana.
Abstract
Based
on texts written by Sigmund Freud and some reports on his life that
were made by Ernest Jones, one of his greatest followers and biographer,
the author of this paper presents the evolution of freudian ideas
about parapsychological phenomena, over which Freud led his interest,
especially the telephatic phenomena.
In this paper, the author has mainly evidenced the difficulties
that parapsychology faces nowadays; by one hand inadequately used
by mysticals to support their beliefs, as they tried to do with
psychoanalisis in the past, by the other matter of an acadhemic
prejudice, which is at least negligent to certain relevant aspects
that can be found in Freuds work.
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Unitermos:
Parapsicologia, Psicanálise.
"Se fosse viver de novo, eu me dedicaria à pesquisa
psíquica em vez da psicanálise".(1) Foi esta
a surpreendente declaração de Freud a Hereward Carrington,
no verão de 1921, ao desculpar-se por não aceitar
o seu convite para ser co-editor de um periódico sobre o
ocultismo.
Em que pese sua precavida recusa, não só a
Carrington mas também a outras duas semelhantes propostas
que lhe foram feitas em mesma época, é de se notar
o grau de importância com que o mestre valorizava a parapsicologia,
dita metapsíquica ou pesquisa psíquica em sua época.
Se vivesse outra vez, exploraria o desconhecido campo dos fenômenos
parapsicológicos!
Mas se aceitar não pôde estas propostas, quer
por presumir fosse escasso o tempo de vida que lhe restava, ou mais
obviamente pelo desejo de preservar a mal compreendida psicanálise,
objeto de tantas contendas injustas; o fato é que Freud parece
ter sido instigado pela idéia, à qual seu texto "Psicanálise
e Telepatia" ofereceu pronta resposta.
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Sigmund
Freud
Arte
de Monica Facó
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Embora
nunca editado durante sua vida, o trabalho tornou-se público
vinte anos após ter sido especialmente escrito para ser lido numa
conferência no Hartz, em setembro daquele mesmo ano de 1921.
O que se presumia fosse uma justificativa de Freud para sua recusa
em publicar artigos nos periódicos voltados para a divulgação
do ocultismo, acabou por revelar o surpreendente interesse do mestre por
questões um tanto nebulosas para a época, sobre as quais
focalizava sua mente aberta e esclarecida, a fazer frente tanto a uma
base supersticiosa, invariavelmente presente no cerne de todo o ocultismo,
quanto aos corriqueiros preconceitos por trás dos quais se protegem
as "Academias de Ciências".
Ao introduzir o assunto, Freud procura claramente preservar a psicanálise
frisando que, se por um lado, inadvertidamente, os místicos o convidavam
a escrever, talvez por "considerarem a psicanálise como quase
pertencente a eles e como ponto comum de apoio contra a autoridade da
ciência exata",(2) por outro, a própria "noção
de inconsciente estava incluída entre aquelas coisas que estão
entre o céu e a terra, sobre as quais a sabedoria acadêmica
nem sequer conseguia sonhar".(3)
Freud comparava a psicanálise aos cidadãos que durante
a Grande Guerra estivessem vivendo naturalizados em nação
estrangeira contingencialmente adversária, e que, sendo mal vistos
no país onde escolheram residir, ao lograrem suas fugas para o
país de origem acabavam recebendo tratamento igualmente hostil,
posto que eram tidos como representantes do inimigo.
Lamento não seja outro senão este o destino ao qual
se encontra fadada a parapsicologia em nossos dias, que, lutando para
desvencilhar-se das redes que o misticismo insiste em jogar sobre ela,
agora de modo ainda mais desesperador, visto não ter podido se
apropriar da psicanálise no passado, e ainda com a esperança
de que algum fundamento científico possa vir a embasar suas crenças;
conforme vai conseguindo libertar-se da referida malha, acaba tendo de
enfrentar o preconceito leonino da ciência estabelecida, disposto
a devorar qualquer novo paradigma que se lhe faça frente.
Curiosamente, vamos encontrar no seio da própria psicologia
hoje instituída, a bem dizer dentro da psicanálise mais
especificamente, as maiores barreiras ao reconhecimento da parapsicologia
como ciência, lamentavelmente confirmando a existência do
já apontado preconceito científico, bem como uma lavrada
ignorância no que concerne à natureza da ciência parapsicológica
e seu respectivo objeto de estudo. Chega a ser comum observar pessoas
de formação científica tratando a parapsicologia
como o faria qualquer leigo que opinasse sobre o tema, com o agravante
do qual estes últimos se acham naturalmente redimidos, posto que
podem expressar livremente suas idéias sem a presunção
de serem cientistas.
Embora Freud vivesse numa época em que a parapsicologia
ainda engatinhava, mal sabendo pronunciar seu próprio nome, sendo
ainda conhecida pela alcunha de metapsíquica ou pesquisa psíquica,
não encontramos por parte dele em nenhum momento de sua vida qualquer
espécie de desprezo pelos fenômenos parapsicológicos,
que aliás sempre mereceram a seriedade de sua atenção.
Ao lado de outros cientistas e intelectuais de sua época, como
Sir William Crookes e Sir Arthur Conan Doyle da Inglaterra, Charles Richet,
Lombroso e Flournoy da Europa Continental, e William James dos E.U.A,
Freud voltou seu espírito investigador para os então chamados
fenômenos parapsíquicos, dedicando alguns textos de seus
estudos à interpretação dos ditos fenômenos,
objetos da mais nova ciência que surgia, contemporânea da
psicanálise.
Em 1911, Freud filiou-se a S.P.R. (Society for Psychical Research),
Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, com a qual
travou fértil correspondência e que durante alguns anos a
partir de 1922 esteve sob a direção do psicanalista T. W.
Mitchell. Quatro anos mais tarde tornar-se-ia Sócio Honorário
da Sociedade Americana de Pesquisa Psíquica, vindo a receber
semelhante título da Sociedade Grega de Pesquisa Psíquica,
nos fins de 1923.
Numa de suas cartas a Eitingon, datada de 4 de fevereiro de 1921,
Freud dizia textualmente ao discípulo referindo-se aos "fenômenos
ocultos", que "pensar nesta maçã verde o fazia
estremecer, mas não havia como deixar de mordê-la".(4)
Ainda que tal registro denote o interesse e a abertura do pai da psicanálise
ao tratar o assunto, a mesma postura não é comumente encontrada
entre seus filhos ideológicos, os psicanalistas de hoje que, embora
tenham suas vidas acadêmicas favorecidas por uma parapsicologia
já razoavelmente desenvolvida - normatizada que está pela
P.A.(Parapsychological Association), associação esta
que reúne os parapsicólogos universitários, aceita
desde 1969 como órgão membro da A.A.A.S. (American Association
for Advance of Science), - não tomam sequer conhecimento destas
importantes conquistas e insistem em lançar num mesmo saco a parapsicologia
e o ocultismo ou espiritismo, sistemas estes de crenças dos quais
a primeira faz questão de prescindir, não por considerá-los
totalmente inválidos, mas obviamente descabidos como fundamentação
para qualquer pensamento que se pretenda científico. Também
a parapsicologia não se presta para embasar crenças espiritualistas,
e quando as últimas indevidamente dela se apropriam, luta por manter
a dignidade de sua identidade como método de estudo científico,
assim como se empenhava Freud para amadurecer e desvencilhar a "personalidade"
da psicanálise do obscuro campo do ocultismo.
O mestre interessou-se sobremaneira pela questão da telepatia
e estava consciente das possíveis consequências em admitir
a realidade deste fenômeno.
Conforme escreve Ernest Jones, um de seus principais discípulos
e biógrafos, "alguns anos depois da Guerra, o interesse de
Freud pela telepatia renasceu. Sua mente estivera refletindo sobre os
mais profundos problemas da vida e da morte e sobre a possibilidade da
imortalidade, temas que podem passar prontamente para os problemas do
ocultismo."(5)
Se "Psicanálise e Telepatia", conforme
já dissemos, apenas fora lido no Congresso do Hartz em 1921, para
ser publicado postumamente, apesar de Freud ter expresso seu desejo de
reapresentá-lo para o "Comitê" no Congresso do
ano seguinte e ter sido aconselhado a não fazê-lo por Jones
e Eitingon, o mestre "não seria dissuadido de todo e em 1922
publica "Sonhos e Telepatia", redigido com mais precaução".(6)
"Proponho-me a bem modesta tarefa de investigar as relações
entre os fenômenos telepáticos, pouco importando sua origem,
e o fenômeno onírico, ou mais precisamente nossa teoria do
sonho"(7), diria Freud ao introduzir o assunto, ressaltando que "ainda
que se estabelecesse com certeza a existência de sonhos telepáticos,
isto não obrigaria a modificar em absoluto nossa concepção
do sonho".(8)
Após analisar dois interessantes casos presumivelmente de
natureza telepática, oferece a ambos uma interpretação
psicanalítica, questionando se os mesmos seriam de fato bons exemplos
desta espécie de fenômeno. Acaba por considerar que "a
telepatia nada tem a ver com a essência do sonho, nem pode contribuir
para aprofundar nossa compreensão analítica do mesmo"(9);
mas já antecipando sua futura conversão pública frente
à constatação da realidade deste fenômeno,
completa: "Pelo contrário, é a psicanálise quem
pode alimentar o estudo da telepatia, aproximando-nos, com a ajuda de
suas interpretações, ao entendimento de muitos elementos
incompreensíveis que apresentam os fenômenos telepáticos,
ou demonstrando que outros fenômenos, ainda duvidosos, são,
com efeito, de natureza telepática".(10) E na seqüência
de sua argumentação conclui: "Quanto à vinculação
entre telepatia e o sonho, aparentemente tão íntima, só
resta a inegável facilitação da primeira causada
pelo estado de repouso, ainda que esta não seja uma condição
imprescindível para que se dêem os processos telepáticos,
mesmo porque estes consistem em mensagens ou produções inconscientes".(11)
Embora Jones tivesse sido arguto em observar a maior precaução
de Freud ao redigir este texto no intuito de não conturbar ainda
mais a já mal compreendida psicanálise, o fato é
que as palavras acima referidas já não fazem restar dúvidas
quanto à tendência de Freud em aceitar o fenômeno em
questão como real, visto que o mestre faz até afirmações
já com grau de propriedade quanto à natureza inconsciente
do fenômeno.
Neste mesmo texto, concluiria que, "sem dúvida, devemos
reconhecer que não se pode desacreditar das observações
telepáticas simplesmente porque o acontecimento e seu pressentimento
(ou a mensagem que o anuncia) não tenham sucedido no mesmo momento
astronômico. É facilmente aceitável que a mensagem
telepática seja recebida no instante em que ocorre o fato provocador,
sendo percebido pela consciência ao dormir na noite seguinte, ou
ainda durante a vigília, mas tão somente ao cabo de certo
tempo, durante uma pausa de atividade psíquica. ...Pois se o fenômeno
telepático não é mais que uma produção
do inconsciente, então não nos encontramos diante de nada
novo. Neste caso seria natural e imprescindível aplicar à
telepatia as mesmas leis da atividade psíquica inconsciente".(12)
Mas o que havia em "Psicanálise e Telepatia"
que teria feito Jones haver demovido o mestre de sua publicação?
Ora, Freud analisa três casos contundentes de transmissão
de pensamento; e para maior temor de seu discípulo, propõe
uma interpretação psicanalítica para o fenômeno.
Veremos aqui os dois primeiros, mais interessantes.
Continua...
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