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Pessoa
Oculta em Pessoa
Por Paulo Urban
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Publicado
na Revista Planeta nº 381 / junho 2004
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Quando
morreu no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa,
vitimado por cirrose hepática, em 30 de novembro de 1935, Fernando
Antônio Nogueira Pessoa era um nome quase por todos desconhecido.
"I know not what tomorrow will bring" (Eu não sei o que
o amanhã irá trazer); foi a última frase do poeta,
escrita num pedaço de papel abandonado à beira do leito
em que sofreu sua derradeira noite. Não tendo alcançado
o sucesso financeiro nem abraçado carreira alguma de destaque,
o familiar que na véspera o entregara ao médico, a ele se
referiu como "um inútil".
Pessoa editara até então apenas um livro em português,
Mensagem (dezembro, 1934), que lhe rendera um modesto segundo prêmio
do Secretariado de Propaganda Nacional. Em que pese a publicação
de Antinous and 33 Sonnets (1918), reeditado às custas do
autor em três fascículos, em 1921, sob o título English
Poems I, II e III, e algumas centenas de poemas e ensaios que o poeta
fez circular em diversos jornais e revistas literárias de sua época,
o fato é que por ocasião de sua morte, a grande maior parte
dos exatos 27.543 textos em prosa e verso, também as milhares de
cartas que compõem sua Obra, estavam inéditos. O espólio,
à moda dos grandes tesouros, permaneceu durante décadas
numa arca de madeira, cuja guarda foi confiada à Fundação
Gulbenkian, e hoje encontra-se todo catalogado em pastas na Biblioteca
Nacional de Lisboa.
Nascido aos 13 de junho de 1888, num simples apartado de Lisboa
(4º andar - esquerdo, no Largo de São Carlos, nº 4),
aos 6 anos o menino perderia o pai, o crítico musical Joaquim Seabra
Pessoa. Sua mãe, Mª Madalena N. Pessoa, contrairia novas núpcias
com João Miguel Rosa, que, nomeado cônsul em Durban (África
do Sul) mudar-se-ia em 1896 para lá com a família, onde
Pessoa, dos 7 aos 16 anos receberia a mais britânica educação.
Quando, em 1905, retornou sozinho à cidade natal para cursar Letras
(curso que abandonaria dali a dois anos) o poeta já havia lido
Sheakespeare, Milton, Byron, Shelley, Keats, Carlyle e Poe. Em Lisboa
dedica-se ao estudo da filosofia clássica e contemporânea,
encanta-se com a torrente de poetas portugueses desde Camões até
Antônio Nobre, e passa a escrever prosa e poesia em português,
inglês e francês, inicialmente sob influência baudeleriana
e de todo o movimento simbolista. Pessoa sobrevive fazendo traduções
literárias e assume a correspondência comercial de várias
firmas estrangeiras, a constituir o ganha pão ao longo de sua modesta
existência.
Sabidamente imenso foi seu interesse pelo ocultismo que, a propósito,
é uma das chaves mestras sem a qual mal podemos acercar-nos dos
intrincados enigmas e paradoxos que se encerram por toda sua Obra. "Há
três caminhos para o oculto, diz Pessoa, o caminho mágico
(...), extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico,
que não tem perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama
o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de
todos, porque envolve a transmutação da própria personalidade
que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os demais
caminhos não têm".
A cosmovisão esotérica está tão presentemente
perpassada pela Obra pessoana, e (re)vela-se por quase todos seus heterônimos,
72 ao todo, que resta impossível interpretar o poeta sem levarmos
em conta sua afinidade visceral e filosófica com as questões
fulcrais do hermetismo, incluindo aqui sua atração pelo
movimento rosa-cruz, pela maçonaria (pela qual não somente
se interessou como a defendeu publicamente) pela teosofia, pela alquimia
e, sobretudo, pela astrologia, arte na qual foi profundamente versado.
Curiosidade, raros sabem que Pessoa foi o responsável pela introdução
do planeta Plutão, descoberto em 1930, nas cartas astrológicas.
Santa sincronicidade! Plutão, deus do mundo inferior, é
astro regente do ocultismo e de tudo aquilo que é velado, incluindo
os conteúdos inconscientes; e é dotado de um caráter
revolucionário profundo; nada mais justo, portanto, que entrasse
para os anais da astrologia pela pena de um gênio poético
que, adepto do mais sábio conhecimento esotérico, cumpriu
a sina de revolucionar mais que a literatura inteira, toda uma época.
Em 1916, Pessoa pensava seriamente em estabelecer-se como astrólogo
em Lisboa. Embora desistisse da idéia, seus estudos permitiram-lhe
fazer considerações messiânicas a respeito do futuro
literário e político de sua pátria, e uma de suas
notáveis proezas foi prever acertadamente a Revolução
dos Cravos, que se deu 4 décadas após sua morte. Pessoa
legou-nos ainda um Tratado de Astrologia, assinado pelo sub-heterônimo
Raphael Baldaya, que durante anos repousou intocado no citado baú,
aguardando pelo oportuno momento em que foi descoberto.
Tal era a fama do poeta nessa área, que o mago inglês
Aleister Crowley, ao receber das mãos de um editor londrino certas
correções feitas por Pessoa em seu mapa astral, que vinham
acompanhadas de uma cópia dos English Poems, não
hesitou em alardear ao mundo que iria a Lisboa visitar o "maior astrólogo
do mundo". A entrevista, a causar visível desconforto no poeta,
que sempre preferiu a misantropia aos encontros sociais, deu-se em 2 de
setembro de 1930. Um denso nevoeiro, porém, havia retido a embarcação
Alcântara, atrasando em mais de um dia o desembarque de Crowley,
que, tão logo viu Pessoa em terra, exprimiu-se mesclando o humor
inglês a um tom de respeito: "Mas que idéia foi essa
a sua de me mandar um nevoeiro lá de cima?".
Desse contato surgiria a versão para o português do
Hino a Pã, poema de Crowley, que seria publicado na revista
Presença em 1931, texto que serviu de inspiração
para O Último Sortilégio, poesia ortônima pertencente
ao Cancioneiro, cuja estranha particularidade, despercebida pelos
críticos, é a de ser expressão de uma voz feminina,
a própria anima do poeta, uma alma bruxa iniciada, que se revela
essencialmente mística, enquanto se lamenta de si mesma ao ver
diminuído seu dom de fazer imprecações e exortar
os elementais da natureza. Acompanhemos partes do texto:
"Já
repeti o antigo encantamento,
E a grande Deusa aos olhos se negou.
Já repeti, nas pausas do amplo vento,
As orações cuja alma é um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
Só o vento volta onde estou toda e só,
E tudo dorme no confuso mundo.
Outrora
meu condão fadava as sarças
E a minha evocação do solo erguia
Presenças concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via,
E as folhas da floresta eram lustrosas".
A
sacerdotisa desses versos, nas estrofes seguintes mostra-se perplexa,
posto que sua varinha já não fala às existências
essenciais, e queixa-se também de que uma vez traçado o
círculo, nada acontece, em franca alusão às práticas
de magia ritualística que o poeta bem devia conhecer e possivelmente
praticar. Numa seqüência de imagens metafóricas, a protagonista
ainda se assombra: "A música partiu-se de meu hino./Já
meu furor não é divino/nem meu corpo pensado é já
um deus". E mais adiante, admitindo sua impossibilidade de ora alcançar
a transmutação que antes sabia operar, implora ao casal
alquímico, ícones da transcendência que lhe escapa,
a fim de que lhe dividam o corpo carnal, do qual seu ser essencial possa
pleno libertar-se:
"Tu,
porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tua, Lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza
Que tantas vezes tive por querer,
Ao menos meu ser findo dividi -
Meu ser essencial se perca em si,
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!"
Também
a disposição dos versos decassílabos heróicos,
agrupados 7 a 7, a perfazer 70 sílabas poéticas por estrofe,
permitem-nos suspeitar do não acaso desse requinte obsessivo de
Pessoa, a insinuar aqui uma correspondência entre a seqüência
de percepções que a bucólica feiticeira tem de seu
tíbio estado anímico e os degraus da alquimia que devem
ser galgados, passo a passo em direção à revelação
que irá surgir, por meio de uma reviravolta de paradoxos (característica
fundamental de toda a Obra pessoana) sobre vida e morte, ser e existência,
que encerram com "nós de ouro" este poema:
"Converta-me
a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija,
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo,
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"
Estudos
recentes têm se debruçado sobre questões que envolvem
Pessoa, sua intrínseca relação com o ocultismo e
suas possíveis aproximações com as chamadas Sociedades
Secretas. "Não sou maçom, nem pertenço a qualquer
outra Ordem semelhante ou diferente"; escrevera o poeta em sua citada
defesa da maçonaria, no Diário de Lisboa, de 4 de fevereiro
de 1935. Ainda que a afirmação seja de todo verdadeira àquela
altura, o fato é que Pessoa e Crowley haviam sido confrades da
Golden Dawn, representante do rosacrucianismo britânico, "única
filiação externa à qual Pessoa esteve ligado entre
os anos 20 e 30, na qual conquistou todos os seus graus esotéricos,
dela afastando-se em seguida por incompatibilidade mental e espírito
de independência", segundo nos relata a historiadora Yvette
Centeno, em seu Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética,
ed. Presença, Lisboa, 1985.
Outro historiador português, Vítor Manuel Adrião,
autor de História Oculta de Portugal, ed. Madras, 2000;
num de seus capítulos dedicados a destrinchar aspectos ocultos
do grande gênio literário, apresenta-nos uma prova cabal
ainda pouco conhecida: trata-se do Bilhete de Identidade de Fernando
Pessoa, escrito pelo próprio, de 30 de março de 1935,
há poucos anos catalogado. Nessa espécie de currículo
mínimo com o qual o poeta pretendia apresentar-se e dar a conhecer
em curtas linhas seu posicionamento filosófico, político
e esotérico, diz de si mesmo: "Posição Iniciática:
Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo,
nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária
de Portugal". Pessoa termina assim o documento: "Resumo de Estas
Últimas Considerações: Ter sempre na memória
o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários,
e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos: a
Ignorância, o Fanatismo e a Tirania".
Outra raridade pessoana é sua tradução de
A Voz do Silêncio, de Mme. Blavatsky, fundadora da Sociedade
Teosófica, texto este de orientação budista, que
a maga russa afirma ter recebido e decorado quando de sua peregrinação
pelo Tibete, em cujos mistérios teria sido iniciada em 1870. Mas
não pára aí a afinidade do poeta com o pensamento
teosofista, visto que se preocupou em traduzir diversos volumes para a
Coleção Teosófica e Esotérica, ed. Livraria
Clássica, a partir de 1915. Compêndio de Teosofia,
de C.W. Leadbeater e Annie Beasant, faz parte desta série.
A propósito, há quem veja em Iniciação,
um dos mais conhecidos poemas do Cancioneiro, nítida alusão
à concepção de Leadbeater de que o homem, antes de
ser um corpo dotado de alma, é uma alma revestida por sete corpos,
a saber: o físico, o emocional, o mental, o intuicional, o espiritual,
o monádico e o divino. Complexidade da doutrina teosófica
à parte, transcrevamos o hermético trabalho, escrito em
redondilha maior:
Não
dorme sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..................................................
O corpo é sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem
a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas
na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Não
tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por
fim, na funda Caverna,
Os deuses despem-te mais,
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
..................................................
A
sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não 'stás morto, entre ciprestes.
....................................................
Neófito,
não há morte.
Então
Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Segundo
a teosofia, aos não iniciados, caberia no máximo atingir
a consciência do 3º corpo, nada podendo ser-lhes revelado a
respeito dos demais corpos que, embora igualmente nos revistam, somente
seriam alcançados por uma consciência evoluída, capaz
de experimentar estados de alma mais profundos.
Numa leitura esotérica, plenamente aceitável, a imagem
poética parte do momento em que o neófito, aguardando entre
ciprestes (alegoria da vida e de nossa natureza simples e terrena), é
levado a sofrer gradativas mortes simbólicas, correspondentes ao
sucessivo despojamento de suas vestes, até que, atingindo uma consciência
mais profunda de si mesmo, possa reconhecer-se pleno entres seus pares
iniciados.
Desde a morte física, anunciada nas estrofes de abertura,
até a percepção última de que a morte é,
sobretudo uma ilusão, passa o neófito pela Estalagem do
Assombro, metáfora do transitório, onde os anjos retiram-lhe
a capa emocional. Aprofundando-se, são os Arcanjos, superiores
aos anjos na hierarquia celeste, que o deixam todo nu, isto é,
despem-no do corpo mental, para que siga adiante, envolto pelo corpo intuicional,
que será retirado na Caverna. Lá os deuses o obrigarão
a despir-se mais, até ser-lhe possível, quando o corpo cessa,
enxergar sua alma externa, de natureza espiritual ou monádica.
O poema culmina quando o neófito se descobre iniciado, mesmo sem
nunca ter deixado para trás o ponto de partida, entre ciprestes,
do qual partiu. Dá-se conta então, porque já lhe
caíram todas as vestes, de ser essencialmente divino, sem necessidade
de temer a morte.
Particularmente, ao debruçar-me sobre o enigma da Obra pessoana,
percebo que a leitura existencialista que os críticos reiteradamente
insistem em fazer dos heterônimos todos, e particularmente do Cancioneiro,
tal qual o gradativo despojar das vestes, fica muito aquém do que
se pode vislumbrar por uma perspectiva esotérica, e não
ultrapassa muitas vezes sequer a porta da Estalagem do Assombro. Esta,
se nos assombra, cumpre fazê-lo porque a dimensão da poesia
pessoana não cabe na palma da mão acadêmica. É
preciso ter olhos iniciados para perscrutar o transcendente, elemento
esse de verdades que Pessoa enuncia por seus paradoxos, e que intencionalmente
deixa que escapem pelas frestas da imponderabilidade poética.
"Desejo ser um criador de mitos", exprimiu-se certa vez,
"que é o mistério mais alto que pode obrar alguém
da humanidade". Pessoa o conseguiu; curvo-me, pois, diante da complexidade
mitológica dos heterônimos, que têm realidade tanto
quanto os deuses gregos. Neles se projeta a alma plural de Pessoa, a refratar
sua identidade última, comum a todas as pessoas. "Porque há
um mistério maior que Deus em tudo", e eu sou incapaz de compreendê-lo,
embora os heterônimos nos falem sempre disso.
Ademais, nunca saberei outras coisas, nem mesmo sei o que o amanhã
irá trazer...
Paulo
Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento.
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