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| Crepúsculo
e Aurora
Por Paulo Urban
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Comecemos
por uma tarefa aparentemente muito simples: peço ao leitor
que aponte com rigor absoluto o instante em que rompe a aurora no horizonte,
anunciadora da presença iminente do astro-rei. Feito isso, que
indique o exato momento em que o crepúsculo se instala na paisagem,
preparando nosso espírito para a chegada da noite que se avizinha.
Quem dentre nós já viu cair esse grão de areia da
ampulheta cósmica que determina a guinada do dia, que faz descer
sobre nós completamente o manto da noite? Qual mortal já
foi igualmente testemunha do titular microssegundo em que a noite se transmuta,
em que as trevas viram luz?
Eternamente jovem, em todas as civilizações,
a aurora é símbolo do alegre despertar, do renascimento
na luz reencontrada. Já o crepúsculo, invariavelmente associado
ao Ocidente, abre as portas rubro-negras do misterioso mundo no qual o
Sol descamba peremptoriamente além da linha do horizonte. Aurora
e crepúsculo são arautos do novo tempo, de uma nova condição,
e anunciam-se reciprocamente, ainda que entre eles se intercalem noite
e dia, visto que a morte de um é condição necessária
para o advento do outro. A ocorrência desses estados singulares
construídos por matizes mutantes, por lusco-fuscos especiais indefinidos,
inspiradores de tanta arte e poesia, demarca com beleza indescritível
o caráter cíclico da vida que noturna e diariamente se renova,
manifestando-se misteriosamente sempre bela.
Eos, a Aurora, é irmã de Hélios,
o Sol, e de Selene, a Lua; deuses gregos que compõem a tríade
fundamental das divindades celestiais. Etimologicamente, o nome grego
Eós está preso à raiz aues, que significa
“brilhar”. Homero descreve Aurora como a deusa de róseos
dedos, aquela que abre o portal da madrugada pelo qual irá passar
o Sol em magnânima carruagem. Aurora acha-se personificada entre
todos os povos indo-europeus; em sânscrito o termo que a designa
é usas, de onde se originou o dórico auós,
do qual o latim extraiu aur-ôra, mesma fonte de onde os germânicos
leram Ost e os saxôes east, ao batizarem o ponto leste.
Além de descerrar as pálpebras do dia,
Aurora é deusa refrescante, portadora das brisas matinais, também
aquela que esparge o orvalho pelos campos e que acorda as criaturas dando
ao mundo as primeiras luzes que guiarão os trabalhos humanos. Aurora
surge numa biga cor púrpura, puxada por dois resplandecentes cavalos
guiados por rédeas multicoloridas: Lampo e Faetonte. Seus nomes
respectivamente significam “aquele que brilha” e “aquele
que reluz”. Aurora é filha de do titã Hipérion,
que em grego quer dizer “aquele que se move nas alturas”,
e de Téia, a mais velha das titânias, entidade matriarcal
cujo nome, correlato de téos, significa “a divina”.
A poesia clássica descreve Aurora como mulher encantadora, de cabelos
soltos e esvoaçantes, ora com asas nos ombros ou nos tornozelos,
que lhe conferem leveza e agilidade, e capaz de causar a admiração
dos que a vêem romper envolta em brumas luminescentes. Por seu caráter
caprichoso e determinação efêmera, Aurora sempre se
apaixona de modo intenso, mas volúvel. De um de seus casamentos,
com Astreu, o céu estrelado, tem como filhos dois ventos, Zéfiro
e Bóreas, e dois astros, Noto e Heósforo.
Ainda que de beleza inefável, Aurora dá
passagem a seu irmão Hélios, que a segue num carro de muito
maior brilho, todo feito de ouro. A carruagem, forjada pelo artífice
deus Hefesto, vem puxada por quatro majestosos cavalos brancos dourados
que cospem labaredas pelas ventas: Eôo, Flégon, Éton
e Pírois, cujos nomes, nessa ordem, traduzem-se por “Oriente”,
“Brilho”, “Chama” e “Fogo”.
Análogo à divindade mesopotâmica Samas,
Hélios tem por missão iluminar e orientar os homens; é
ele também quem faz brotar a flora e dá vida a tudo. Homero
registra que “viver é ver a luz do sol”. Todos os dias,
em sua regrada existência, Hélios, jovem de excelsa beleza,
de cuja cabeleira cor de fogo emanam seus raios, percorre a mesma trajetória.
Emerge de um longínquo pântano situado nos extremos do Oceano
e sobe impetuosamente até alcançar o zênite. Por enxergar
das alturas a humanidade em seus afazeres, conferindo com o mito de Samas,
Hélios tem a função de ser juiz do mundo e dos homens;
ele é o “olho que tudo vê”, correlato do “olho
de Hórus” dos egípcios. Uma vez tendo cumprido a primeira
metade de sua aventura celeste, Hélios inclina-se em direção
ao poente, buscando atingir em sua descida um ponto situado no extremo
oposto do mesmo Oceano do qual surgiu, num lugar chamado de País
das Hespérides - o Ocidente (de onde se originou o nome Vésper,
a denominar o planeta Vênus, ou astro vespertino). Lá, deus
Sol banha seus cavalos fatigados e repousa durante o início da
noite num palácio de ouro, até que tome carona numa taça
ou num barco (também feitos de ouro), que cumprem infalivelmente
levá-lo outra vez à superfície do Oceano, ao pé
da porta de entrada do seguinte dia.
O Oceano grego (okeanós),
cujo termo dá o sentido de algo “circular e envolvente”,
por influência sumeriana, a princípio era imaginado como
um rio-serpente que circundava a Terra. Oceano, portanto, é a água
que rodeia o mundo; em razão de sua imensidão e de suas
potencialidades, simboliza a indeterminação primordial,
a fonte sem limites de onde nasce a vida. Igualmente, a mitologia egípcia
encara a Terra como um mundo emergente das águas primordiais.
Ao aproximar-se do horizonte, estando o Sol prestes a
mergulhar vertiginosamente no Ocidente, descreve-se o segundo incrível
cenário do dia, complementar àquele do alvorecer, de nuances
igualmente indescritíveis, a inspirar tantos sentimentos, temores
e poesia. É chegada a hora do crepúsculo, período
suspenso de estranha beleza, com ares de nostalgia obscura, de tez carmim-venosa,
prenunciador da escuridão que se abate inexoravelmente sobre cada
um de nós. O crepúsculo, visto assim, é um convite
à introspecção; ele ocorre para nos dar a chance
de avaliar nosso caminho, força-nos a olhar um tanto mais para
dentro de nós mesmos, lembrando-nos de que somos sóis ou
juízes diários de nossos próprios atos, já
que o mundo externo estará dali a pouco dominado pelos seres tenebrosos,
quando a vida, paralisada, será entregue a um período de
auto-análise e recolhimento.
Nesse sentido, o ocaso sempre esteve associado à idéia da
morte. A antiga sociedade egípcia, por exemplo, para a qual a vida
nada mais era do que uma cotidiana preparação para a Grande
Iniciação, ou viagem da morte, regrava-se completamente
tomando por referência o rio Nilo, equivalente geográfico
das águas míticas primordiais. À sua margem oriental
situavam-se as chamadas Casas da Vida, ou escolas de medicina; do lado
ocidental do Nilo, onde o Sol sempre morre, situavam-se as necrópoles.
Perto destas, estavam as Casas da Morte, tendas ou construções
nas quais os sacerdotes consagrados a Anúbis praticavam a arte
da mumificação, esmerando-se em preservar, por meio da conservação
indeterminada dos corpos, a eternidade das almas que deles migravam para
apresentar-se ao tribunal de Osíris. O Livro dos Mortos
egípcio, cujo título melhor se traduziria por “livro
da vida”, compunha-se de uma série de hinos e orações
destinados a orientar as almas a empreender com sucesso todas as etapas
da Grande Viagem, desde que o julgamento póstumo as absolvesse.
Os gregos, por sua vez, destinavam às almas dos
mortos uma pós-existência no reino de Hades, mundo subterrâneo
onde permaneciam à espera da chance do renascimento. Deus Hermes,
passando seu caduceu de ouro enredado por duas serpentes entrelaçadas
sobre os olhos dos que morriam, dá a estes seu aspecto vítreo
opaco, próprio dos cadáveres. Isto porque uma das serpentes
tem função hipnopômpica, (hipnos = sono;
pompéim = conduzir em triunfo) ou seja, a de fazer adormecer
a alma, para que Hermes possa acompanhá-la até as margens
do Estige, e aí entregá-la ao barqueiro Caronte que, recebendo
sua moeda, leva o recém-chegado à margem oposta do rio,
decretando assim o recolhimento da alma ao mundo de Hades. Hermes, igualmente,
recebe de Caronte as almas que se apresentam para renascer, e passando
sobre elas seu cajado, a segunda serpente, de função hipnagógica
(agós = aquele que conduz, que leva à luz), devolve
o brilho aos olhos dos que serão recém-nascidos. A psicopatologia,
inclusive diferencia as alucinações quanto a este aspecto;
se estas ocorrem quando estamos adormecendo, em momentos que precedem
o sono profundo, são ditas alucinações hipnopômpicas;
se o fenômeno se dá ao despertar da consciência, ou
nos momentos leves de sono, são chamadas de percepções
ou alucinações hipnagógicas.
Voltemos então à nossa questão: pode
agora o leitor indicar com exatidão o fugaz momento em que o crepúsculo
ou a aurora se iniciam, o preciso segundo em que as trevas começam
se dissipar, ou ainda aquele em que a noite vira dia? Para resolver o
impasse, peçamos ajuda ao símbolo chinês do Tao, que
é o de um círculo fechado, metade branco, metade preto,
dividido ao meio por uma senóide (traço curvo em forma de
“s”) a dar idéia de movimento e interação
entre as partes. Em meio à parte clara da figura, há um
ponto negro; em sua metade escura, está um ponto branco. Abstrai-se
daí que ambas as metades carregam em si aquilo que lhes falta,
cuja natureza lhes é oposta e ao mesmo tempo complementar. Os antigos
chineses depreendiam desse simples desenho a noção do dia
e da noite, que indefinidamente se sucedem de modo a manter sempre viva
a perenal dança da vida. Com base nisso, admitiam que o dia, potencialmente,
já trouxesse em si a essência da noite, e vice-versa, haja
vista como um no outro se transforma sem que possamos de fato precisar
o instante em que a transmutação ocorre. A aurora não
seria menos este momento do que o crepúsculo, e ambos não
servem como bons exemplos da guinada, posto que a transformação
está dotada de um dinamismo constante, a preservar o movimento
sempiterno. Meio-dia ou meia-noite, pouco importa, também não
são momentos estanques, pois trazem em seu âmago a essência
de seu mundo contrário, seja de luz ou de trevas, que irá
brotar em oportuno tempo. Como diria Blaise Pascal, filófoso do
século XVII, Nossa natureza está no movimento, o inteiro
repouso é a morte.(Pensamentos, 129).
Nesse aspecto, convém lembrar: inúmeras
são as civilizações que fazem do Sol uma divindade
principal que a cada dia nasce das águas, viaja sobre a Terra vendo
e julgando toda a humanidade, para daí morrer no mar profundo,
onde descansará até que renasça o novo ciclo. Dia
e noite se sucedem para manter a harmonia de um cosmos paradoxalmente
nascido de águas caóticas e abissais. Por conta desse caráter
cíclico segundo o qual a natureza se comporta, surgem as concepções
reencarnacionistas que creditam à alma uma continuidade após
sua existência terrena. Uma vez dissolutas e imersas nas águas
da morte, após o crepúsculo da existência terrena,
as almas, várias mitologias o atestam, esperam por um possível
retorno para um novo “dia” de afazeres e aprendizado, quando
nosso barco solar despontará no horizonte leste, anunciado pelos
alaridos da aurora.
Crepúsculo e aurora, dia e noite, oriente e ocidente,
roda da vida, viagem da morte, mar infinito... Ainda que não compreendamos
os mistérios da existência, ainda que não saibamos
de onde vimos e para onde vamos, nossos olhos contemplam as maravilhas
que nos cercam e nossas almas encantadas ficam com a marcha do Sol, com
a travessia da Lua e com as estrelas que nos tocam.
Vejamos como esse fascinante tema é tratado pela
pena do poeta português Fernando Pessoa, ele próprio (1888-1935):
“Ó
curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou ‘star.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó
mar, sê símbolo da vida toda -
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.”
(11-jan-1922).
Paulo
Urban é médico psiquiatra, Psicoterapeuta do Encantamento,
e
Coordenador Editorial da Revista Nova Consciência
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