|
|
|
|
Psicologia
dos Contos de Fadas
Por Paulo Urban
|
Publicado
na Revista Planeta nº 345 / junho 2001
|
|
"ERA
UMA VEZ uma criança que adorava ouvir histórias...
ela nada mais esperava que viver cada momento,
mas a cada passo dado neste seu mundo de sonhos e fantasia,
pouco a pouco, sem o perceber,
ia encontrando um sentido para a vida..."
|
Infelizmente,
muitos pais desejam ver seus filhos com as cabeças funcionando
racionalmente como as suas, e acreditam que a maturidade deles dependa
exclusivamente do ensinamento lógico oferecido pela maioria das
escolas que, via de regra, em nossa sociedade moderna, nada mais fazem
que repassar um conteúdo pedagógico desprovido de maiores
significados para a vida. Esquecem-se de explorar os sentimentos como
fundamental ingrediente para a formação do caráter
e, ainda que bem alfabetizem, desconsideram os contos de fadas como se
estes só gerassem confusões quanto aos conceitos sólidos
de realidade que devem ser ensinados às crianças. Pecam
gravemente por isso.
Afinal, a sabedoria não é coisa que nasça pronta
como a deusa Palas Atena, que, inteiramente formada, pulou fora da
cabeça de Zeus; é antes algo delicado, que se constrói
desde os tenros anos da infância, e que passa necessariamente por
um estágio primevo, irracional, de extraordinário potencial
que só se desdobrará convenientemente num bem explorado
e maduro psiquismo. Obrigatoriamente, isto nos leva à necessidade
de lidar com nossos sentimentos. O mundo interior, desconhecido pela consciência
intelectualizada, encerra segredos legítimos, guarda metade de
nós mesmos, e sua assimilação é imprescindível
para todo aquele que deseje conhecer-se melhor ou que esteja buscando
respostas honestas para os enigmas da existência.
Neste particular, os contos de fada cumprem relevante papel. São
expressão cristalina e simples de nosso mundo psicológico
profundo. De estrutura mais simples que os mitos e as lendas, mas de conteúdo
muito mais rico que o mero teor moral encontrado na maioria das fábulas,
são os contos de fada a fórmula mágica capaz de envolver
a atenção das crianças, despertando-lhes (idem nos
adultos sensíveis) sentimentos e valores intuitivos que clamam
por um desenvolvimento justo, tão pleno quanto possa vir a ser
o do prestigiado intelecto.
Em essência, os contos de fada podem ser vistos como pequenas
obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu enredo, de
nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam
impacto em nosso psiquismo porque tratam das experiências cotidianas,
e permitem que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus
heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição
humana frente às provações da vida. Não fossem
assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento,
apresentando-nos as situações críticas de escolha
que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o
interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão,
um aprendizado apropriado à sua segurança. Neste processo,
cada criança depreende suas próprias lições
dos contos de fadas que ouve, sempre consoante seu momento de vida, e
extrai das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa
aproveitar para aí ser aplicado. Oportunamente, pede que seus pais
lhes contem de novo esta ou aquela história, quando revive sentimentos
que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama,
ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros
mais eficientes, conforme as necessidades do momento.
Desde a remotíssima antigüidade (especialistas apontam para
uma tradição oral que começa há mais de 25.000
anos), a relação de qualquer criança com o mundo
sempre dependeu dos relatos míticos e religiosos, cujos elementos
básicos constituintes encontram-se espalhados por uma miríade
de células narrativas de caráter mágico, as quais
denominamos contos de fadas.
Platão, século V a.C., no Livro III da República,
propunha educar seus cidadãos por um mito próprio que lhes
explicasse a origem de suas castas; em outros escritos informa que em
seu tempo era função das mulheres narrar às crianças
as alegorias, às quais chamou de mythoi. Data histórica
mais antiga nos leva diretamente à fonte do popular tema dos "Dois
Irmãos", um dos quais geralmente é bom, o outro nem
tanto, encontrado em quase todos os folclores. Ela se acha escrita no
papiro egípcio Orbiney (nome de seu antigo possuidor) datado de
1210a.C., que se encontra completo e preservado no Museu Britânico.
Relata as desavenças entre dois irmãos, projetadas na dupla
de deuses Anúbis e Bata, que vivem brigando entre si, mas dependem
mutuamente um do outro. Entretanto, a ocorrência desta história
parece ser ainda mais arcaica.
Assim como os mitos e as lendas, os contos de fada e as fábulas
provêm do alvorecer da cultura humana e acham-se espalhados por
todas as civilizações. Os registros ocidentais mais antigos
nos levam a Esopo, herói popular da Trácia, a quem se reputa
o ofício de ter sido no século VI a.C. um proeminente contador
de fábulas. Aristóteles, em 330 a.C., relata que Esopo,
certa feita, como advogado de defesa de um político corrupto teria
se valido de uma de suas histórias, "A raposa e o ouriço",
para defender o seu cliente. A raposa estava tomada por pulgas, e o ouriço
propôs-se a lhe tratar. Com receio de se machucar ainda mais, ela
argumenta: "Sr. Ouriço, deixe estar, se me retira estas pulgas
já gordinhas, que nem me chupar podem mais, logo outras sedentas
por sangue ocuparão seu lugar". Ao que completava dizendo
aos juízes que se condenassem à morte o réu já
enriquecido, outros não tão ricos, mas ávidos para
roubar, viriam a ocupar sua cadeira!
Esopo
não escrevia suas fábulas.
Até surgirem as duas coletâneas mais antigas deste gênero,
datadas do ano 1 d.C., sua transmissão era exclusivamente oral.
A primeira delas foi escrita em latim por Fedro, que traduziu Esopo para
os romanos; a outra, em grego, é da autoria de Babrius.
A primeira coleção de contos, porém, com motivos
do folclore europeu, denominada Gesta Romanorum, só surgiria
no século XIV, escrita em latim. Precedeu em poucos anos As
Mil e uma Noites, famosos contos árabes de magia e aventura,
de origem persa, que datam dos séculos XIV a XVI. Tudo começa
com a desilusão do califa Shahryar ao descobrir que seu irmão
Shazeman era traído pela esposa. Resolve então que nunca
deixaria que consigo acontecesse tamanha desonra, e decide dormir com
mulheres sempre virgens para no dia seguinte entregá-las a seus
soldados para a morte. Até que a corajosa Sherazade, filha de seu
principal vizir, contrariando os conselhos de seu pai, oferece-se para
o califa. Propondo-se a evitar maior matança, passa a contar-lhe
todas as noites, após se amarem, uma história que ela sempre
interrompia em seu ponto culminante, fazendo com que seu amo a poupasse
até a noite seguinte, quando então, continuava a narrativa.
As Mil e uma Noites têm por pano de fundo o apogeu do mundo
árabe alcançado durante o reinado de Harum-el-Raschid, quinto
califa da dinastia dos Abácidas, século VIII d.C. Aladim
e o gênio da lâmpada, Simbá, o marujo, e Ali Babá
são alguns dos personagens que por três anos mantiveram viva
Sherazade, até que, por fim, estando o califa completamente apaixonado
por ela e transformado interiormente pela beleza de suas histórias,
liberta-se de sua depressão, suspende a pena, e a pede em casamento.
Os contos das "Noites Árabes" haviam servido a el-Raschid
como verdadeira terapia! A propósito, este é o procedimento
adotado desde a antigüidade pela medicina hindu, chamada Ayurveda,
na qual os pacientes são convidados a meditar sobre contos de fadas
para que suas mentes se purifiquem, condição prévia
para que qualquer cura seja alcançada.
O título dado às histórias de Sherazade, assim
como o modelo adotado por Bocaccio (1313-1375) no Decameron, bem
serviram ao italiano Giovanni Straparola (1480-1557) que imaginou uma
reunião de jovens, isolados do mundo, entretidos em suas narrativas
de fadas. O conjunto, batizado por Piacevoli Notti (Noites de Prazer),
foi publicado de 1550 a 1553. Muitas de suas idéias seriam depois
adaptadas pelo francês Charles Perrault (1628-1703), até
nossos dias lembrado por seus Contos da Mamãe Gansa, que
vieram a público em 1697 trazendo uma versão de "Chapeuzinho
Vermelho" em que o lobo sai vitorioso da história, após
haver jantado a vovó e comido em seguida a menina de sobremesa.
O literato justificava-se dizendo que sua narrativa era de valor eminentemente
moral, e que as crianças bem deviam saber o preço da desobediência
aos pais. Foi seu contemporâneo Jean de La Fontaine (1621-1695),
imortalizado por suas Fábulas, publicadas entre 1668 e 1694,
de cunho igualmente moral, que passaram a ser contadas nas escolas da
época e permanecem populares até hoje. O alemão Gotthold
Lessing, por considerar as sátiras de La Fontaine muito leves,
em 1759 edita seu Fabels (Fábulas), cujo teor trazia lições
bem mais severas que as da moral francesa.
Somente no século seguinte, porém, é que o
jardim da infância floresceria definitivamente com a paciente pesquisa
feita pelos irmãos Grimm na Alemanha. Os filólogos Jacob
Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), lingüistas e folcloristas,
colecionaram contos de encantamento por toda parte da Europa, e lançaram
de 1812 a 1815, em dois tomos, Os Contos de Fadas dos Irmãos
Grimm, que, desde então, vêm sendo adaptados em quase
todos os idiomas, e transformados em elemento essencial da literatura
infantil. Jacob era o mais intelectualizado dos irmãos, mas Wilhelm
era quem detinha a verve da poesia; juntos chegaram a editar 210 histórias,
maior parte delas encontrada nos dois volumes originais. Em 1983, descobriu-se
um manuscrito com conto inédito na coleção dos Grimm.
Outro autor de novelas, peças de teatro, roteiros de viagens,
memórias e poesias, consagrado por seus contos de fada, foi o dinamarquês
Hans Christian Andersen (1802-1875), filho de um humilde sapateiro e de
uma iletrada mãe, mulher supersticiosa que o influenciou bastante
por passar-lhe a tradição oral do campo. Em 1835 publicou
Histórias Contadas às Crianças, com seus quatro
primeiros contos. Até 1872, produziu 168 histórias, logo
traduzidas em diversos países, comumente publicadas em séries
de quatro narrativas por livro. Combinando à fantasia infantil
sua aguçada sabedoria, encantou igualmente o público adulto,
repetindo a mística do fenômeno provocado pelos irmãos
Grimm; hoje sua obra acha-se traduzida em mais de 100 línguas.
Ainda no século XIX, os românticos alemães
Goethe e Ernst Hoffman , e o inglês Oscar Wilde são exemplos
dos que também se dedicaram à literatura infantil. E citemos
com orgulho Monteiro Lobato (1882-1948) que, preocupado em edificar os
jovens, produziu extensa literatura infanto-juvenil de cunho pedagógico,
adaptando para as crianças brasileiras as Fábulas de Esopo.
Mas por que nos impressionam tanto os contos de fada? Por certo,
não apenas pelos expoentes citados que se dedicaram à sua
compilação, visto que tais contos sempre foram populares
como tradição oral, mas, antes, porque suas histórias
são instigantes. Não há como alcançar completamente
seu sentido em termos puramente intelectuais, fato que nos desperta a
percepção intuitiva.
A fantasia, irracional a ponto de permitir que a vovó engolida
pelo lobo mau permaneça viva em sua barriga até ser salva,
ou que Bela Adormecida durma enfeitiçada um sono de cem anos, e
João suba num pé de feijão até alcançar
no céu o castelo de um gigante, justamente pelo inverossímil
que expõe, provoca uma reviravolta em nosso mundo psíquico
que, estimulado, aguça-se na tentativa de compreendê-la.
E não há como explicá-la pelos padrões da
razão metódica. A história de fadas é per
si sua melhor explicação, do mesmo modo que as obras de
arte encerram aspectos que fogem do alcance do intelecto, já que
suscitam emoções capazes de comover os que diante delas
se colocam. O significado desses contos está guardado na totalidade
de seu conjunto, perpassado pelos fios invisíveis de sua trama
narrativa. Claro que, diante desse mistério, muitas formas de abordá-lo
são possíveis e igualmente válidas, posto que acrescentam
luz à sua compreensão.
O psicanalista austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990), por
exemplo, em seu precioso estudo Usos do encantamento: significado e
importância dos contos de fadas (em Português, A Psicanálise
dos Contos de Fada, ed. Paz e Terra), argumenta: "Os psicanalistas
freudianos se preocupam em mostrar que tipo de material reprimido ou inconsciente
está subjacente nos mitos e contos de fada, e como estes se relacionam
aos sonhos e devaneios. Já os junguianos, ele continua, frisam
em acréscimo que as figuras e os acontecimentos destas histórias
estão de acordo com fenômenos arquetípicos, e simbolicamente
sugerem a necessidade de se atingir um estado mais elevado de autoconfiança,
uma renovação interna conseguida à custa de forças
inconscientes que se tornam disponíveis ao indivíduo".
O próprio Jung disse certa vez que "nos contos de fadas
melhor podemos estudar a anatomia comparada da psique". Quis
dizer com isso, explica-nos sua discípula Marie Louise von Franz
em Interpretação dos Contos de Fadas (ed. Paulus)
que os contos de fadas espelham a estrutura mais simples, ou o "esqueleto"
da psique, e que suas muitas peças acabam por fundir-se, compondo
os grandes mitos que expressam toda uma produção cultural
mais elaborada. O estudioso clássico E. Schwizer demonstra como,
por exemplo, o mito de Hércules foi sendo aos poucos espontaneamente
"montado" a partir de histórias separadas, todas temas
centrais de seus respectivos contos de fadas.
Fenômeno semelhante ocorre, aponta-o o historiador Homero
Pimentel, no campo da literatura clássica, onde se registra a corriqueira
absorção de temas arquetípicos encontráveis
nos contos de fadas, como a figura típica da madrasta má
que ordena a seu servo que mate Branca de Neve, bem aproveitada por Shakespeare
em sua peça Péricles, Príncipe de Tiro. E
talvez o literato britânico não alcançasse tanto sucesso
não fosse seu costume de ler contos de fadas.
Branca de Neve, a propósito, cuja narrativa remonta há
mais de mil anos, permite inúmeras interpretações
à luz da psicanálise ou da psicologia junguiana. Prefiro
ver neste conto, contudo, uma das jóias raras produzidas pelo saber
dos alquimistas. Na alegoria de "Branca de Neve" estão
depositados inúmeros segredos do ocultismo. A rainha, que morre
ao parir, fora bem clara em seu desejo: "Quero ter uma filha de
pele alva como a neve, lábios vermelhos como o sangue, e cabelos
tão negros quanto a noite!" É como começam
as versões originais deste fabuloso conto. Implícita está,
desde o início, a alusão às três grandes fases
da transmutação alquímica: albedo (o branco), rubedo
(o vermelho) e nigredo (o negro). Expulsa de seu castelo aos 7 anos, a
menina é abandonada pelo servo na floresta; miticamente, este é
o lugar desconhecido onde primeiro nos perdemos na busca da verdade. A
casa dos 7 anões representa o núcleo orientador capaz de
nos levar de volta ao caminho iniciático dos alquimistas. E os
anões, todos mineradores da caverna, representam a necessidade
de trabalharmos nossas entranhas em busca do ouro filosofal. Na alegoria
do 7 acham-se velados os 7 metais alquímicos, bem como seus 7 planetas
regentes, também os 7 degraus para o preparo da Pedra Filosofal.
A madrasta, por sua vez, traduz arquetipicamente os perigos do caminho
de provações, revelando-se como bruxa perdida (por estar
presa à vaidade) na busca da beleza eterna, enganada quanto à
natureza do "Elixir da Longa Vida". Ela morrerá em desgraça,
e Branca de Neve, após pagar o preço de sua ingenuidade,
acabará por renascer de sua morte simbólica nos braços
de seu príncipe encantado, a representar a coroação
dos ideais da alma. Mas a complexidade desta análise alquímica
nos levaria a outra matéria; paremos por aqui. Parafraseando Michael
Ende, autor da saga A História sem Fim: "Esta é
uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião..."
| |
"E
quanto àquela criança que adorava ouvir histórias?
O mais importante que resta disso tudo é que nunca esqueçamos
a lição... crianças, jovens ou adultos, no
mundo das fadas todos seguimos encantados e... FELIZES PARA SEMPRE
!"
|
P.S:
Tão logo termino de escrever este texto, a um mês da publicação,
recebo nota do falecimento de Maria Clara Machado. Agradeço a ela;
felizes das crianças que, como eu, sabem brincar de Fantasminha
Pluft... 
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento
e acupunturista.
Comentários:
fale com Paulo Urban
Este
artigo não pode ser publicado ou distribuído sem
autorização do autor
ou citado sem referência ao mesmo. Todos os direitos reservados.
|
| |
|