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Bestiário Alquímico
Por Paulo Urban
Publicado
na Revista Planeta nº 363 / dezembro 2002
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A visão profana sempre colocou em dúvida o
fundamento da alquimia, alegando ser impossível a transformação
dos metais comuns em ouro, e enxergou os alquimistas como indivíduos
exóticos que, obcecados por essa ambição, deixaram-se
perder num caminho pseudo-científico.
As recentes descobertas da física quântica,
entretanto, mostram ser eivados de preconceito os juízos
que a ciência sempre professou contra os saberes mágicos
e ocultos que, mesmos quando distantes das verdades científicas,
em última análise, muitas vezes revelam uma acurada
intuição acerca das leis da natureza. O físico
alemão Max Planck (1858-1947), cuja "Teoria Quântica"
lhe rendeu o Nobel de Física de 1918, escreveu: "Atualmente,
após o advento da radioatividade artificial, não nos
parece mais impossível a invenção de um processo
que afaste um próton do núcleo do átomo de
mercúrio, e um elétron de seu último nível
orbital, o que transmutaria esse átomo num átomo de
ouro". Terminantemente, Planck encerrou a celeuma revelando
não ser a questão alquímica um falso problema.
Para transmutar metais em ouro, todavia, seriam necessários
gastos exorbitantes com experimentos a envolver um acelerador de
partículas, que nem de longe seriam compensados pelo ouro
produzido.
Não
nos preocupa nesse artigo, entretanto, a reabilitação
da alquimia no campo da física. Interessa-nos, sobretudo,
a simbologia alquímica que, situada no plano cosmológico,
oferece uma interpretação possível, ainda que
hermética, aos fenômenos da natureza como um todo.
Sobretudo, importa-nos o conteúdo psicológico de seu
complexo simbolismo.
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Os
antigos místicos, atentos às experiências íntimas
reveladoras, sempre compreenderam que o verdadeiro laboratório
alquímico fosse o próprio homem. Analogamente, viam nas
operações e no trabalho projetado sobre a matéria
a possibilidade de cada ser transformar-se interiormente. Crendo-se essencialmente
unidos ao cosmos, os alquimistas entendiam que, mediante uma paciente
busca pela perfeição, poderiam realizar a Grande Obra,
cujo resultado último, a contribuir com os desígnios da
Criação, seria a redenção de toda a humanidade
através da espiritualidade despertada em cada ser vivente. Para
tanto, um dos caminhos alquímicos propõe que se encontre
ou se fabrique a Pedra Filosofal, agente catalisador das transmutações,
capaz de fazer do vil metal um metal nobre, igualmente o elemento propiciador
da transformação de cada um de nossos aspectos pesados e
brutos em algo que, intrinsecamente depurado, pode nos transpor a uma
nova realidade anímica, transcendente e nobre.
Para
designar a matéria a ser tratada no laboratório, os
alquimistas servem-se de uma profunda simbologia e a expressam sob diversas
formas. Muito comum, por exemplo, no imaginário alquímico,
são as figuras de animais conhecidos ou fabulosos, cujas propriedades
e características dizem respeito às diferentes fases e degraus
por que passa o alquimista em sua perene busca pela grande transformação.
Há uma variedade quase infinita de imagens bestiais distribuídas
pelos textos alquímicos clássicos, e vale dizer que seu
conjunto guarda a sete chaves as intrincadas verdades que os alquimistas
devem decifrar em sua senda pessoal. Impossível tratar aqui de
todos os animais que assumem valores alquímicos; falemos pois,
dos principais.
Comecemos pelo coelho, que representa o conhecimento vulgar e profano.
Ele é rápido, saltitante e esperto. Sua companhia, os contos
de fadas não desmentem, é inconveniente dado a seu comportamento
desorganizado e imaturo. O coelho é o não iniciado, aquele
que fala de si contando vantagens, e que mente bastante por ser oportunista;
de cartola na cabeça, chega a apresentar-se como mago ou alquimista,
mas, por ser superficial, não passa do embusteiro que dificilmente
sabe mesmo do que é que está falando. Visto nas gravuras
alquímicas quase sempre entrando em buracos ou cavernas, ele serve,
entretanto, para nos indicar a passagem para o ambiente inacessível,
para os mundos escondidos. Por ser um animal fraco, seu sacrifício
simboliza a morte do caráter infantil em prol do amadurecimento
futuro.
Uma vez que brote o trabalho alquímico, deparamo-nos com
os répteis e batráquios, animais que rastejam ou que têm
pele viscosa e escorregadia, que chegam a assustar ou inspirar certo medo,
muitas vezes infundado. Tal classe representa a matéria em seu
estado virginal e bruto, caótica e ameaçadora, exigindo
do alquimista que a conheça, que domine seus instintos. Notáveis
neste particular são as salamandras e os lagartos; miticamente
associados ao elemento fogo, representam o primeiro degrau da transmutação
alquímica, a calcinação, que se traduz pela
queima da matéria bruta no atanor (forno dos alquimistas) ou no
cadinho, recipiente que recebe o material a ser inicialmente transformado.
Já os sapos e as rãs, animais crepusculares, terrestres
e aquáticos, assumem aqui a contraparte da experiência ígnea,
e simbolizam a dissolução, segundo degrau da Grande Obra.
Por preferirem os recantos úmidos e sombrios, e por passarem por
metamorfoses em sua vida anfíbia, sapos e rãs, ligados ao
elemento água, psicologicamente revestem-se dos valores guardados
no interior do alquimista, que lhe servem de complemento anímico,
isto porque está no mundo das sombras a real possibilidade de integração
entre o ego e as forças latentes do inconsciente. Sapos e rãs,
por isso mesmo, relacionam-se ainda à matéria informe, ora
queimada e diluída, que requer moldagem e lapidação.
Os peixes, que submersos vivem, também simbolizam o psiquismo profundo
que oculta valores a serem despertados. A indiferenciação
entre cabeça e corpo desses animais faz deles um símbolo
integrador entre os extremos, capaz de inspirar e fazer vir à tona
as potencialidades guardadas nas regiões abissais da alma.
O próximo degrau, coagulação, encontra-se
bem representado por vários animais, especialmente o lobo. É
necessário agora retirar das águas em que se dissolveu parte
do ego um extrato a ser trabalhado; isto é, é oportuno que
se valorize este ou aquele aspecto, visando passo a passo à transformação
completa, exercício para uma vida inteira. O lobo é um animal
terrestre e noturno. Por enxergar bem à noite, encarna o protótipo
do herói guerreiro que adentra nas cavernas para delas sair mais
tarde, revigorado e forte. Hades, por exemplo, veste-se com uma capa de
pele de lobo, a fazer dele um animal ctônico, morador do mundo inferior.
Agressivo e selvagem, ligado ao elemento terra, o lobo faz sangrar a consciência
e engole os corações, vide deus Anúbis da mitologia
egípcia, que no tribunal dos mortos devora os corações
impuros que não merecem renascer.
Essas duas operações, dissolução e
coagulação, sintetizam o dinamismo presente por todo o processo
alquímico, e estão firmadas pela máxima Solve
et Coagula, encontrada em vários manuscritos e gravuras.
O quarto degrau é a sublimação. Em
termos químicos seria a passagem direta do estado sólido
ao gasoso. Psicologicamente, longe aqui do conceito psicanalítico,
sublimar é saltar etapas na transformação pessoal
por meio de experiências diretas que propiciam ao ego a sua ascese.
Isto é, depois de calcinar, dissolver e coagular repetidas e infinitas
vezes, há momento em que o extrato se volatiliza, quando o ego
atinge um estado anímico superior, propício às primeiras
grandes revelações. O Pégasus é o melhor representante
dessa etapa. Ligado aos elementos ar e água (embora provido de
asas, seu nome provém do grego pege, fonte), esse cavalo
alado mitológico, nascido nas fontes do Oceano, traduz a relação
entre profundidade e elevação. É ainda símbolo
da inspiração poética e, nos céus, mistura-se
às nuvens portadoras de água fecunda que sempre regam a
terra. Suas patas são ferradas com ouro, suas rédeas são
colares de pérola, e sua figura fantástica é signo
do estado de pureza alcançado pela sublimação do
ego que, ora volátil, pode finalmente se inspirar e vislumbrar
das alturas a sua exata dimensão. Outras imagens bestiais do processo
de sublimação costumam mostrar aves de rapina derrotando
o leão ou mesmo carregando um sapo em suas garras a significar
a vitória do estado sutil sobre o denso, do espírito sobre
a matéria.
Isto nos lança ao quinto degrau, o da mortificação.
Nesta fase da Opus Magna surge o leão, besta solar, complemento
e primo irmão do lobo. Ele devora e transforma a "nova consciência",
ora sensivelmente tocada pela experiência vivenciada no nível
anterior. O leão, muitas vezes alado, feito esfinge, encerra os
enigmas da espiritualidade aflorada à luz da consciência
a partir da semente de materialidade que vem sendo desde o início
trabalhada. Rei dos animais, o leão é símbolo de
força, de autoridade e inteligência. Mas ele está
aqui para nos engolir por inteiro, para fazer morrer o ego inflado de
modo a vomitá-lo mais tarde, após tê-lo digerido num
processo metafórico de morte, dor e renascimento.
Sexto degrau: a separação. O pelicano, ave
cuja lenda conta que se fere e se mutila com seu bico para alimentar com
o próprio sangue seus filhotes, expressa a idéia de auto
sacrifício como etapa necessária para se atingir a perfeição
(que, a bem da verdade, nunca se alcança). Neste particular, assemelha-se
à fênix, pássaro mítico que se deixa consumir
no fogo para depois renascer das próprias cinzas. A presença
de ambos os pássaros bem indica que a morte anunciada aqui, da
qual devem ser separados os elementos que serão transformados e
reunidos, é uma experiência transcendente. Tanto o pelicano
quanto a fênix são emblemas que, através da morte,
anunciam a ressurreição, sugerindo a imortalidade da alma
em seu eterno caminho de doloroso aprendizado.
A águia, rainha das aves, de natureza solar, coroa os estados
anímicos superiores e traduz a experiência do sétimo
degrau: a síntese. A águia é símbolo
da ascese, da percepção direta e arguta que nos faz perceber
a divindade em nossas almas; muitas vezes é vista como um pássaro
bicéfalo a representar a união dos opostos complementares,
ou a sizígia alquímica, fusão perfeita entre prata
e ouro alcançada por meio da Pedra.
Mas
os manuscritos alquímicos não fazem mesmo questão
de ser simples. A evocação dos aspectos da Obra podem
assumir múltiplas formas, bizarras e inauditas. Não nos
esqueçamos da figura dos dragões. Mitologicamente, são
monstros-répteis alados capazes de soltar fogo (calcinar) pelas
ventas, que invariavelmente guardam tesouros ocultos e segredos filosofais,
como por exemplo, a fonte do rio Estige no alto das montanhas, cujas águas,
se bebidas na nascente, conferem a imortalidade. Representam ainda as
bestiais aberrações que trazemos latentes e que devem ser
dominadas em nosso mundo interior. Por vezes, manuscritos alquímicos
nos mostram um duelo entre dois dragões, um alado e outro áptero,
a designar a luta entre os princípios fixo e volátil, entre
o mercúrio e o enxofre, por exemplo. Dragões são
ainda o elo entre os planos superiores e inferiores da escalada alquímica,
e perpassam, da cabeça à cauda, todos os seus níveis.
Há ainda no bestiário da alquimia situações
em que os animais não representam degrau algum, senão outros
processos ou ainda uma de suas três fases maiores, dentro das quais
os sete degraus se reapresentam. A primeira delas é o nigredo,
condição em que a matéria-prima a ser transmutada
está perdida e indiferenciada, sendo preciso que o alquimista resgate
de seu mundo sombrio os potenciais a serem transmutados. O corvo negro,
também o lobo preto, bem nos indicam essa fase. Seguem-se os trâmites
que envolvem lavagens, filtragens, decocções, queimas, reações
etc, até que se atinja o albedo, quando a alma se esclarece na
aurora da iluminação psíquica, processo este representado
pela brancura do cisne, ou ainda por meio de uma águia branca.
O albedo, em termos psicológicos, expressa nosso confronto
com a ânima, ou seja, com o princípio feminino e intuitivo
subjacente ao psiquismo como um todo. A natureza dessa etapa é
lunar e ela nos guiará por meandros obscuros (também por
seus sete degraus) à terceira e última fase, de caráter
solar, conhecida por rubedo. Geralmente, uma águia branca
e outra vermelha, ou um rei vermelho e uma rainha branca, surgem juntos
para simbolizar esse momento. Isto porque somente pela união dos
opostos complementares é que se pode encontrar a Pedra, para com
ela alcançar a síntese da Grande Obra.
Neste sentido, o bestiário alquímico constitui-se num
extraordinário roteiro para a investigação da matéria
alquímica. Expõe toda a "arte de transmutar" por
meio de alegorias e pictografias de animais, cujas qualidades, uma vez
dominadas, conferem ao alquimista os ensinamentos que seus elementos representam,
bem como os poderes necessários para operar com maestria a verdadeira
transmutação interior. Mais uma vez, os bichos se alegram
por ajudar os homens, ainda que, infelizmente, nem sempre estes saibam
compreendê-los.
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento
e acupunturista.
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