O
livre arbítrio existe? Somos de fato seres
livres? Temos realmente permissão para fazer
tudo aquilo que queremos, já guardado o respeito
pela liberdade alheia? E quanto ao destino? Nascemos predeterminados,
destinados a experimentar a sensação de
que agimos "livremente" dentro de certas possibilidades
já previstas desde o início? Tudo o que
fazemos na vida então nada mais é do que
cumprir um risco já traçado, ou escolhemos,
passo a passo, o caminho por onde seguir, imprimindo ao
longo dele nosso rastro pessoal ao qual chamamos liberdade?
De fato, sempre que assumimos um comportamento ético
frente à vida, obrigamo-nos a certas atitudes
que bem nos revelam quão relativa é nossa
liberdade diante dos conflitos que nos são impostos,
dilemas estes aos quais chamamos destino. Então,
escolhemos sofrer ou a dor é atributo inerente
à existência? "Sofrer é o destino
dos mortais", diria Eurípedes (485-406a.C.),
poeta trágico, máxima esta à qual
o filósofo existencialista Jean Paul Sartre (1905-1980)
traria o contraponto: "Estamos condenados a ser livres".
Uma angustiante verdade! Afinal, toda ação
humana pressupõe dor, não só a imediata,
que nos força a optar por algo em detrimento de
todo o resto que deixamos, como a dor seguinte, previsível
ou não, acarretada pelas conseqüências
que advêm de tais escolhas.
É, o destino parece aquele irmão ciumento,
invejoso da capacidade humana de ser livre. E não
raro ele é cruel, capaz de enredar em suas malhas
as nossas frágeis liberdades diferenciadas, dignas
de compaixão.
Ora, os gregos, em época bem anterior a Homero
(séc. 9a.C.) já admitiam que nossas
existências, desde o instante do nascimento, estivessem
predestinadas. Imaginavam no Olimpo, morada dos deuses,
a presença das três Moiras (Parcas, entre
os romanos) a decidir tudo por nós. Sem personificação
no princípio, depois representadas por figuras
femininas, foram batizadas de Cloto, "aquela que
fia"; Láquesis, "aquela que mede ou lança
a sorte"; e Átropos (a, sem; e tropein, voltar)
que, inflexível, corta com sua tesoura o fio de
nossas vidas, sem jamais retroceder em suas decisões.
O termo Moira vem do verbo meiresthai, a designar aquilo
que se obtém por sorte ou partilha. Literalmente
traduz-se por "pedaço, quinhão, aquilo
que nos cabe por destino". Homero as denominava,
em seu dialeto árcade-cipriota de Aîsas,
cujo sentido é "fiar".
Segundo Hesíodo, poeta beócio do século
VIII a.C., as Moiras são filhas de Nix, a Noite,
esta por sua vez filha do Caos, o espaço aberto
primordial, do qual se originou o Cosmos. E as Moiras
pairam soberanas sobre os homens e os deuses. Estão
elevadas a uma categoria distinta e intocável.
Expressam leis que nem mesmo Zeus ou outras divindades
podem transgredir, sob pena de que a ordem natural do
Universo seja posta em risco, vezes estas em que Nêmesis,
a deusa da Vingança, levanta-se perturbada de seu
sono para agir severamente no sentido de restabelecer
o equilíbrio no Cosmos. Vejamos como isto se deu
em dois clássicos exemplos.
Ao primeiro deles podemos chamar "Julgamento de
Páris". Nossa história começa
em dia de festa; casavam-se Peleu e Tétis, disputada
nereida (ninfa dos mares internos) que havia sido descartada
por Zeus quando dela ouvira falar que de seu ventre nasceria
aquele que destronaria o pai. Desistindo de possuí-la,
fez-se presente ao casamento para abençoar os noivos.
Éris, deusa da Discórdia, que por motivos
óbvios não fora convidada para a cerimônia,
tomou um dos pomos de ouro do jardim das Hespérides,
e o lançou entre os presentes ofertados aos noivos,
havendo antes gravado na maçã: "Para
a mais bela". Foi o bastante! Gerou-se enorme mal
estar; ninguém se arriscava a endereçar
o fruto. Seria para a noiva? Ou para a mais bela deusa
convidada? Hera, esposa de Zeus, queria o presente para
si; Zeus preferia entregar o fruto a Palas Atena, sua
bela filha, e os convivas julgavam justo que o pomo fosse
dado a Afrodite, deusa da Beleza e do Amor. O impasse
estava armado. Éris ria deles todos...
Para ser imparcial, Zeus ordenou a Hermes que levasse
a incumbência de julgar qual a mais bela àquele
dentre os mortais que melhor tivesse noção
de estética. Hermes, que conhecia a fundo os homens,
escolheu Páris, filho de Príamo, rei de
Tróia, para a ingrata tarefa. O moço, elegante
e forte, vivia tranqüilo aos pés do monte
Ida, a guardar os rebanhos de seu pai, e estava bem casado
com a ninfa Enone, filha do deus dos rios. Evidentemente,
temendo ferir as suscetibilidades desta ou daquela, e
atrair para si o ódio ou rancor das deusas não
contempladas, negou-se a proferir sentença declarando-se
incapaz para a missão. Hermes levou a Zeus sua
recusa. E do Olimpo retornou com a ameaça: Zeus
fulminaria Tróia com seus raios caso Páris
não escolhesse dentre as três deusas qual
a mais bela. E note o leitor quantas vezes não
exercemos este papel em nossas vidas, o de optar para
evitar maior desgraça caso nos furtássemos
à obrigação.
A situação de Páris, porém,
trazia uma agravante. Ele sabia, por intermédio
de seu pai, que sua mãe, Hécuba, por ocasião
de seu parto, tivera um pesadelo no qual punha as mãos
numa tocha acesa para ver se encontrava nela um corpo
de criança, momento este em que a chama se expandia
e saltava pela janela de seu quarto, incendiando Tróia,
cujas casas e muralhas logo se transformavam em ruínas
tomadas por imensas labaredas. O sonho de sua mãe
viera-lhe à mente como terrível vaticínio
- se não aceitasse a imposição de
Zeus, Tróia arderia em chamas, tal qual a profecia,
por causa da ira divina. Para evitar o trágico
destino, viu-se obrigado a aceitar o desafio.
Neste ínterim, Hera já estava oferecendo-lhe
o domínio sobre a Ásia inteira caso fosse
ela a escolhida; Palas Atena garantia-lhe a vitória
em todas as batalhas, e Afrodite prometia-lhe a paixão
da mais bela mortal em troca de seu voto. Por quem se
dobraria o leitor num caso assim?