Fim dos mais curiosos, entretanto, foi previsto por Mary
Bateman, taverneira em Leeds, Inglaterra. Em 1806 mostrou a seus
clientes um ovo de galinha cuja casca trazia a inscrição:
"Cristo voltará". Logo sua galinha botou outro
ovo com igual inscrição, o que causou rebuliço
no local. Mary disse então ter recebido uma revelação
de Deus e cobrou 1 penny dos presentes para que pudessem ouvi-la.
Todos pagaram. Contou então que tão logo o 12o ovo
igual aqueles fosse botado, o mundo acabaria. Até lá,
somente os que comprassem por 1 xelim um papel timbrado que ela
preparava com as iniciais J.C. entrariam no reino de Deus. De
novo pagaram pelo documento, e a notícia se espalhou pela
cidade. Mary vendeu centenas de passaportes para o céu.
No dia em que o último ovo seria botado, autoridades religiosas
a flagraram fraudando previamente a mágica que se repetiria.
Mary Bateman acabou sendo presa e enforcada.
Nomes de peso também se entretiveram com o tema
do Juízo. O filósofo alquimista John Dee (1527-1608),
por exemplo, acreditava piamente que o fim da Europa se daria
no ano de 1842. No final do século XIX, intérpretes
matemáticos juravam ler as profecias veladas nas medidas
da Pirâmide de Queóps, e atestaram que o mundo terminaria
em 1881. A data foi depois corrigida para 1936, e quando de novo
não se deu o vaticínio, o fim do mundo ficou postergado
para 1953. Antes disso, em 1910, registrara-se o pandemônio
da passagem do cometa de Halley, quando boatos científicos
afirmavam que os gases tóxicos da cauda do cometa matariam
por asfixia a população do planeta. Tal idéia
fora lançada em 1839 pelo escritor norte-americano Edgar
Allan Poe num romance de ficção intitulado Conversa
de Eiros com Charmion, que alcançou grande repercussão.
Nosso século igualmente assistiu a inúmeras
promessas apocalípticas afiançadas por várias
seitas fatalistas. Exemplo ainda recente são os 911 mortos
do suicídio em massa ocorrido em novembro de 1978 em Jonestown,
Guiana Inglesa, onde o reverendo Jim Jones, 47 anos, suicidou-se
com um tiro na testa após servir veneno a seus seguidores,
que o sorveram certos de que assim estariam encontrando o Paraíso.
Em 1997, a seita Portal do Paraíso promoveu suicídio
coletivo semelhante numa mansão da Califórnia. Os
fanáticos religiosos propuseram-se a morrer em momento
precisamente oportuno, durante a passagem de um cometa pela órbita
da Terra, de modo que suas almas pegassem carona na cauda do astro
errante, rumo ao Paraíso.
Além do que pregam as seitas apocalípticas,
certezas científicas fazem ver que, como tudo no universo,
também nosso sistema solar tem seu ciclo de nascimento,
desenvolvimento, e envelhecimento seguido de morte. Ora, o sol,
crêem os cientistas, tem 5 bilhões de anos de existência,
e deverá queimar ainda por outro tanto. Muito antes disso,
porém, a vida no planeta Terra já não mais
será possível, já que o astro-rei, desgastado,
não poderá aquecer a Terra a ponto de garantir a
vida orgânica em sua superfície. Também sabemos
que, paradoxalmente, o último bilhão de anos de
vida do sol será o seu período de maiores explosões,
gerador de um calor devastador, capaz de cozinhar nosso planeta
e evaporar os oceanos. Além disso, pode o sol a qualquer
momento expelir uma protuberância gigante capaz de varrer
a Terra com seus raios cósmicos. Uma explosão solar
extraordinária poderia ser intensa a ponto de produzir
radiações nocivas à vida, e induzir a mutações
genéticas capazes de decretar o fim de nossa espécie.
Chances de colisão com algum bólido que penetre
em nossa órbita também existem. Embora remota esta
chance, acredita-se que fenômeno semelhante tenha extinguido
os dinossauros há 65 milhões de anos, já
que o impacto teria levantado por anos a fio uma nuvem de poeira
em torno da Terra, obstruindo a luz do sol e resfriando o planeta.
Ainda que a possibilidade de isso se repetir seja a de uma em
400 milhões, a NASA prefere manter um programa com astrônomos
amadores distribuídos pelo mundo todo na tarefa de patrulhar
o céu. Nossa tecnologia já permite explodir tais
corpos a uma distância segura.
Mas o Apocalipse poderia simplesmente ser um buraco negro,
como são chamadas as grandes estrelas "mortas"
que, contraídas, passam a capturar com seu intenso campo
gravitacional tudo à sua volta, aprisionando até
mesmo a luz que viaja a 300 mil km/s. O sistema solar inteiro
desapareceria do mapa cósmico conhecido se viesse a ser
atraído por um destes campos. Seríamos engolidos,
não sabemos para onde. Admite-se, entretanto, que o buraco
negro mais próximo esteja a uns 10 quatrilhões de
km, o que nos tranqüiliza um pouco já que torna infinitesimal
a chance de desaparecermos desse modo.
Mas se estas teorias parecem remotas demais para trazer
à tona a realidade de nossa breve existência, por
que não falarmos um pouco acerca das possibilidades reais,
que estão ao nosso alcance, capazes de acabar com a vida
no planeta? É por estupidez de nossa parte que a Terra
corre seus maiores riscos! Isto porque o planeta sobre o qual
vivemos é também efêmero. Da mesma forma que
tudo no universo se transforma, tudo no sistema solar é
finito. E vivemos nos esquecendo de que a Terra ela própria
não passa de friável grão de poeira galáctica,
um pontinho virtual do universo, que durante bilhões de
anos se esfriou a ponto de permitir agasalhar a vida orgânica.
Entretanto, quanto mais segue inconsciente de si mesma, menos
a humanidade presume que seu fim possa estar próximo, e
comete atos impensados, vergonhosos, capazes de comprometer as
gerações vindouras. Citemos três dados de
relevância:
1º A região Ártica tem recebido violentos
golpes devido ao processo de degelo. Barreiras polares vêm
se soltando e produzindo novos icebergues. Tais plataformas polares
são imprescindíveis, servem como sorvedouro do calor
terrestre, e colaboram para o equilíbrio térmico
atmosférico.
2º O salmão está morrendo no Pacífico
Norte. Na Baía de Bristol, uma de suas maiores áreas
pesqueiras, sua pesca foi metade do esperado em 1998, a menor
nos últimos 20 anos.
3º Os recifes de coral do Oceano Índico estão
se desfazendo; 90% deles já foram branqueados devido à
morte das algas que lhes servem de alimento e lhes conferem sua
cor.
O que está por trás de tudo isso? Evidentemente
é o processo de aquecimento gradativo de nossa temperatura,
o chamado efeito estufa. O 1º trimestre de 1998 foi o mais
quente já registrado no mundo, confirma o Centro Hadley
de Londres, que desde 1860 faz estas medições. Conclui
que desde 1983 ocorreram 9 dos 10 anos mais quentes, e que a temperatura
média do planeta tende a subir mais 1,5º C até
2050.
Em 1997 realizou-se a Conferência Mundial do Clima de Kyoto,
Japão, para que os 169 países participantes se comprometessem
a controlar suas emissões de CO2,
gás implicado no aquecimento da atmosfera. Paradoxalmente,
o mesmo carbono que se constitui em matéria-prima para
a vida orgânica é o elemento capaz de se comportar
feito cavaleiro do apocalipse, já que traz em si o potencial
para o extermínio completo da vida no planeta, bastando
para tanto que se rompa seu equilíbrio em proporção
aos demais gases existentes em nossa atmosfera. Isto quer dizer:
somos habitantes de um grãozinho de areia, e vivemos protegidos
por fina redoma de gases, tão resistente em termos astronômicos
quanto uma bolha de sabão! Para mantermos o CO2
em níveis aceitáveis na atmosfera, sem prejuízo
para o planeta, seria preciso diminuir imediatamente sua emissão
em 60%! Mas as nações não estão dando
ouvidos a isso. Com o aquecimento da atmosfera e o degelo disto
decorrente, vários países litorâneos correm
risco de invasão pelas águas do mar, e algumas nações
podem mesmo desaparecer submersas. Espera-se ainda que ocorra
a salinização de grande parte da água do
planeta, contaminando-a, tornando este recurso vital ainda mais
escasso do que já é.
Fiquemos por aqui! Poderíamos citar inúmeros
outros riscos que nos assombram nesta virada de milênio,
mas o desequilíbrio ecológico decorrente do efeito
estufa é o melhor exemplo de como a humanidade segue levianamente
seu caminho, não pensando no amanhã. Tecnologicamente,
vamos avançando brilhantemente a cada dia, mas insistimos
em esquecer o mais simples, que é cuidar da própria
casa.
A propósito, a palavra apocalipse vem do
grego e significa "revelar, descobrir". Algo bem distante
da idéia de fim dos tempos ou fatalidade. Por isso o Apocalipse
é também chamado de "Livro das Revelações".
Fica uma lição: caso não aprendamos a nos
conhecer melhor e mais profundamente a cada dia, corremos o risco
de manter nosso apocalipse escondido, guardado feito potência
não aproveitada. Não deveríamos estar responsabilizando
Nostradamus pelos excessos de nosso comportamento. Se há
salvação, ela é fruto de uma conscientização
ecológica associada à busca por uma espiritualidade
compromissada com os destinos do planeta. E se as futuras gerações
pudessem ser incluídas em nossos pensamentos tudo seria
bem melhor. A pequenez humana, porém, não está
acostumada a pensar no tempo que ultrapasse a brevidade de uma
existência.
É possível sobreviver em meio a tantos sinais
concretos de fins dos tempos? Tudo depende; afinal, de nossa harmonia
pessoal resulta a harmonia ecológica do planeta. Decerto
há um apocalipse escondido dentro de nós mesmos.
Nossa missão é desvendá-lo! 
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta
do encantamento
e acupunturista.
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| Arte:
Monica Facó |