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O Apocalipse Escondido
Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 339 / dezembro 2000

Vivemos o tempo insólito em que
a humanidade ousou enfrentar seus deuses,
e aprendeu segredos terríveis que, pouco a pouco,
foram sendo subtraídos da mãe-natureza.
Aonde chegaremos?
Há de fato uma data apocalíptica,
destinada a interromper a volúpia desenfreada
da evolução da espécie humana?

Estamos presenciando a austera batida do cerrar das portas do milênio. Assistimos de camarote ao cair do pano de pleno século XX. Vivemos o tempo insólito em que a humanidade ousou enfrentar seus deuses, e aprendeu segredos terríveis que, pouco a pouco, foram sendo subtraídos da mãe-natureza. Aonde chegaremos? Há de fato uma data apocalíptica, destinada a interromper a volúpia desenfreada da evolução da espécie humana?

O leitor bem se lembra de que muitos esperavam o fim do mundo para 11 de agosto de 1999. E coitado de Nostradamus, injustamente acusado de charlatanice por conta da frustração geral que se abateu sobre o planeta quando não houve fim algum! Analistas incautos das Profecias puseram na boca do sábio o vaticínio de que nesta data o mundo sofreria profundo abalo. Elegeram a fatídica quadra 72 de sua décima centúria como anúncio de inevitável cataclismo; astrólogos frisaram o perigo de certas conjunções para o momento, e toda a civilização ocidental foi instigada a preparar-se para o fim dos tempos. Outros intérpretes foram buscar no Apocalipse a confirmação para suas funestas teorias. Por fim, para eximirem-se da responsabilidade de ter sido aquele 11 de agosto menos grave que quaisquer das mais simples sextas-feiras 13, fizeram de Nostradamus bode expiatório para o erro de previsão; afinal, quem mandou ser ele assim tão hermético e complicado ao escrever?

Verdade é que prever o apocalipse já é tradição na humanidade, não importando época nem lugar para que o medo do fim sobrevenha, geralmente atrelado ao arquétipo das transformações súbitas, da renovação pela morte intempestiva. Nenhum exegeta bíblico, entretanto, por mais que se aprofunde no tema, consegue distinguir a raiz original destes mitos que pregam uma data para o descansar definitivo dos relógios, para o dia do Juízo Final, quando a humanidade será então julgada por suas atitudes.

As fontes bíblicas desta concepção apocalíptica são incertas. Sabe-se que na antigüidade, quando o Antigo Testamento foi escrito, os profetas eram vistos como personificações do divino, o que lhes conferia poderes, por exemplo o de guiar espiritualmente seus povos e o de prever os seus desígnios. Suas palavras eram sempre revelações, e suas mensagens advertências de Deus do gênero "arrependei-vos ou sereis punidos", o que contribuiu para criar o mito da compensação divina para as injustiças praticadas entre os homens, em caráter individual e coletivo, ocasião em que o joio pode ser separado do trigo e almas puras encontram a salvação.

Há três apocalipses bíblicos. Os dois primeiros encontram-se no Antigo Testamento, são os livros de Ezequiel e Daniel, que respectivamente datam dos séc. VI e II a.C., o que historicamente os situa em época de dominação dos judeus por povos inimigos, razão esta que fundamenta o sentido libertário destes textos, a prometer às almas dos subjugados o advento do messias portador da paz e da justiça que em toda vida nunca puderam experimentar. A passagem em Ezequiel aceita como uma antevisão do Armagedon (a batalha final entre Deus e o demônio, a luta derradeira entre o bem e o mal), possivelmente referia-se à tomada de Israel pelas hordas dos cifemos, considerados ímpios e cruéis, violadores dos mandamentos de Deus, que nunca souberam honrar seus pais nem seus casamentos.

Similarmente, o Apocalipse de João, no Novo Testamento, datado do 1o século d.C., foi compilado durante o período em que os cristãos da Ásia Menor sofriam torturas impostas pelos romanos. Em nossos dias, praticamente é consenso que o anticristo descrito por João seja uma alusão a Nero, imperador romano que incendiou Roma aos 35 anos, e que terminou por suicidar-se, enlouquecido, atirando-se sobre a lâmina de sua própria espada. Vários mitos narram a volta de Nero, ressurgido do mundo dos mortos com a missão de perseguir seus inimigos.

Cumpre dizer aqui que os primeiros discípulos de Jesus estavam seguros de que o Mestre voltaria após a ressurreição para a redenção final. Tal expectativa tanto garantiu a sobrevivência dos cristãos em tempos adversos de perseguição romana, como fez gerar toda uma teologia a alimentar a crença na salvação final das almas. Embora o próprio Cristo houvesse dito que ninguém saberia nem o dia nem a hora de seu retorno, nada impediu que a Igreja interpretasse os sinais para prever quando o advento se daria. Com base nisso foi que Montanus, profeta da Frígia, Ásia Menor, em 172 d.C., dizendo-se o Espírito Santo encarnado, anunciou que o Dia do Juízo estava próximo. Hipólito, teólogo romano, na passagem para o terceiro século previu, com base nas medidas da arca de Noé, que Jesus voltaria no ano 500 de nossa era!

Já no século IV, com a conversão de Constantino, a Igreja ficou melhor assentada sobre o Império Romano, e as profecias apocalípticas perderam um pouco sua função. O monge cristão Augustino, desta época, ainda que esperasse ele próprio pela volta do Cristo, advertia contra a fé cega em profecias que vulgarizavam a idéia do fim do mundo. Suas teses foram aceitas pela Igreja no Concílio de Éfeso, em 431, a partir do que as crenças apocalípticas arrefeceram-se um pouco.

Mas no ano de 960, Bernardo da Turíngia, antigo Estado germânico, afirmaria que no ano em que o dia da Anunciação da Virgem coincidisse com a Sexta-feira da Paixão, o mundo acabaria. A profecia perturbou de modo crescente a Europa até o ano de 992, quando ocorreu sem qualquer prejuízo o tal cruzamento. Já a passagem para o ano 1000 não causou maiores temores. Embora livros apócrifos tivessem espalhado a crença de que o Juízo ocorreria mil anos após o nascimento do Cristo, o fato é que a passagem de milênio se deu despercebidamente.

O milésimo ano, representado pelos romanos por um simples M, não parecia guardar qualquer significado cabalístico. Aliás, datas numéricas do calendário eram o que menos importava; a sociedade àquela época era regrada pelos dias santos, ritos e jejuns da Igreja, festas como a Páscoa, Pentecostes, Natal, etc... A idéia de que no 31 de dezembro de 999 a humanidade tenha temido histericamente por seu fim nada mais é que outra lenda, desta vez criada pelos escritores da França iluminista que tudo faziam para criticar a Igreja e seus costumes medievais.

No século XVI, novamente ganharam força algumas profecias fatalistas. Astrólogos ingleses previam a tragédia final para 1o de fevereiro de 1524. Milhares de londrinos abandonaram seus lares, mudando-se em polvorosa para terras mais altas, procurando assim escapar do fim do mundo. Como nada ocorreu, os videntes admitiram ter cometido pequeno erro de cálculo: o fim seria em 1624!

A Europa, dentre tantas profecias, aguardaria ainda pelo fim dos tempos em 1528 por conta de um dilúvio; esperaria pelo Cristo em 1533 conforme crença dos anabatistas; e deveria ter sido destruída por um impacto em 19 de maio de 1719, segundo previsão do francês Jacques Bernoilli em seu Tratado dos Cometas.

Cristóvão Colombo também acreditava, conforme sua formação cabalista e templária, que o mundo acabaria em 1650. Delirantemente, dizia que a descoberta do Novo Mundo era peça de um plano maior destinado a nos levar às portas do Paraíso: "Deus fez de mim um mensageiro do novo céu e da nova Terra, dos quais Ele falou no Apocalipse de São João", registrou em seu diário.

 

   

   

 

 

 

   

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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