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Paulo Urban
  


André Carneiro,
Mago Quântico
da Palavra.
Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 348 / setembro 2001

"Combino mecânica quântica e a gravidade.
Sigo a partícula do espaço-tempo,
descubro a hora imaginária.
Heisenberg me olha cheio de incertezas.
Que barro foi usado na fabricação da carne?
Jogo o tarô das palavras molhadas em suor e lágrimas.
A alma respira oxigênio.
Vírus e micróbios
sonham com sangue e a carne do homem."

São versos do poema "Heisenberg me olha", de André Carneiro, dedicado ao físico alemão Werner Heisenberg, um dos pais da teoria quântica que, desde a década de 1920, vem revolucionando absurdamente com seus modelos e perguntas a visão da ciência clássica, ainda persistente, acerca do universo.

Heisenberg, admirado diante dos paradoxos alcançados pela nova física, percebeu que se mirasse o telescópio no átomo, compreenderia o segredo das estrelas. Ele enuncia o Princípio da Incerteza que afirma ser "impossível precisar a posição e o momentum (massa X velocidade) das partículas subatômicas; quanto mais conheçamos seu momentum, menos saberemos qual a sua posição e vice-versa". Momentum e posição só se revelam dentro de uma relação necessária de incertezas.

E o mundo atômico nos surge imponderável, repleto de fenômenos dos quais só podemos imaginar as probabilidades de ocorrência. São identificados os léptons, os mésons e os bárions, com suas subclasses e respectivas antipartículas, e até o final do século XX mais de 200 entidades subatômicas estão catalogadas. Penetrar no santuário atômico obrigou-nos a repensar a natureza; trouxe à ciência indagações cosmogônicas semelhantes às dos filósofos pré-socráticos, e desembocou inevitavelmente na cascata de perguntas que leva o homem a conhecer mais profundamente sua atribulada existência.

Exatamente isso é o que faz André Carneiro, ao longo de sua extensa produção, tomada por dilemas quânticos, atenta às possibilidades parapsicológicas desde a publicação de seu primeiro livro de poesias Ângulo e Face, 1949, editado por Cassiano Ricardo.

Em "Ondas Quânticas", expressa:

"O Universo só existe quando observo.
(...)Penso, algo atravessa
e molda um fato.
O espelho me inventa,
a ruga não sou eu quem traço".

Comprimo o corpo de átomos,
entro nos túneis do mundo
e passo.
Você sorri,
não acredita no inseto dourado
quando eu pouso na face.

Energias quânticas modelam seios e braços."


André teve inicialmente seu nome incluído na terceira geração modernista de 1945. Desconhecida do grande público brasileiro, ainda que traduzida em dezenas de línguas, sua obra, prosa ou poesia, tem sido objeto de algumas teses acadêmicas, uma das quais foi defendida em Tucson, Arizona, em 1976. Privilégio meu, tive a oportunidade de assistir à defesa de O Estilo de André Carneiro, em 1996, na Unesp, campus de Assis (SP). "Fazer arte contensa, eis a ambição de Carneiro, cuja obra estabelece a continuidade modelar do modernismo, das influências de 22 e 30, passando pela Geração de 45 até atingir plena autonomia entre os anos 60 e 90 como uma das mais inventivas da modernidade brasileira", explica-nos o professor de literatura Oswaldo Copertino Duarte, autor da tese.

Também uma biografia de André vem sendo diligentemente pesquisada pelo psicanalista e jornalista Marcial Oliveira, que exclama: "O que crescentemente me surpreendeu, à medida que avançava na leitura e na vivência com a pessoa de André Carneiro, é como um homem de tão vasta obra e talento possa ser um quase desconhecido mesmo nas camadas que se dizem cultas. Que estranho país é o Brasil!"

André iniciou-se como crítico político em 1943 nos jornais da região de Atibaia (SP), sua cidade natal. Seus textos despertaram o interesse do poeta Domingos Carvalho Silva, que foi visitá-lo. Cumprimentando o jovem escritor, advertiu-o para que tomasse cuidado com a ditadura Vargas que acabara de entregar aos nazistas e à morte a mulher judia de Luís Carlos Prestes. E pediu-lhe artigos sobre arte que, publicados no Correio Paulistano, repercutiram entre os intelectuais.

Em abril de 1948, promoveu-se o 1º Congresso Paulista de Poesia, que cunharia o termo Geração de 45 para aquela classe reunida de escritores e críticos: Sérgio Milliet, Antônio Cândido, Péricles da Silva Ramos, José Geraldo Vieira e outros. Patrícia Galvão, a Pagu, que já fora casada com Oswald, e ele próprio, faziam-se presentes. André Carneiro estava à mesa como representante do Interior. A ausência de Mário de Andrade, recentemente falecido, honrosamente foi lembrada. Não pretendiam criar polêmica com o movimento de 22, isto é mito; estavam sim reunidos para dar continuidade e firmar os passos da nova tendência literária. André mantinha-se calado diante daquelas "vacas sagradas", ele conta. Após o último dos grandes ter falado, pôs-se a defender sua tese, ao fim da qual Oswald pediu palavra. Imaginou que por suas ironias de agudo senso seria escorraçado. Poucos ousavam enfrentar Oswald, cuja elegante verve transformava em verdade tudo quanto dissesse ou quisesse. "Se a burrice pode ter sua assembléia, porque não podem os homens inteligentes aqui se reunir?", começou assim, e lançou sobre Carneiro uma carrada de elogios. Tornaram-se grandes amigos. Oswald passou a visitá-lo regularmente. André frisa que o nome se pronuncia oswálde, e não ôswald como querem perfumar os literatos. A todos que o chamavam na pronúncia americana, Oswald corrigia veementemente. Suas oito ex-mulheres, seus filhos, todos o chamavam de oswálde.

 

   

   

 

 

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