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Amor
e Psiquismo
Por Paulo Urban
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Afinal,
o que vem a ser, em essência, o amor?
Mesma pergunta fazia-se Sócrates, sábio grego,
durante um banquete, há 2500 anos.
Claro, estamos longe de resolver a questão,
e talvez, definir o amor seja impossível.
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Pergunto
a meu leitor: fosse convidado a falar sobre o amor num jantar, o que
faria? O que diria aos presentes? Afinal, o que vem a ser, em essência,
o amor? Mesma pergunta fazia-se Sócrates, sábio grego, durante
um banquete, há 2500 anos. Claro, estamos longe de resolver a questão,
e talvez, definir o amor seja impossível.
O fato é que, dotados de razão, temos plena consciência
de como nossa existência é breve, e do quanto a solidão
pode fazer parte dela. Talvez, por isso, a natureza humana tenha inventado
o amor, numa tentativa de dar aos outros aquilo de que mais temos necessidade,
a preencher magicamente essa nossa falta essencial. Ou talvez seja a amor
quem nos tenha criado, e por capricho emprestado à nossa alma a
chance de experimentá-lo.
Eros e Psique, respectivamente, são entidades mitológicas
que personificam o amor e a alma. No idioma grego éros provém
do verbo érasthai, que significa "desejar ardentemente",
e alma forma-se a partir de psýkhein, cujo sentido é o de
"sopro de vida".
Curiosamente, o deus do amor não toma parte das epopéias
de Homero (Ilíada e Odisséia); mas faz-se presente
dali a algumas décadas na Teogonia, escrita nos fins do
séc. VIII a.C. por Hesíodo, poeta camponês beócio.
Até então, Eros era cultuado na Beócia apenas como
agente fecundador dos animais e propiciador dos matrimônios, mas
o poeta o transformará num deus primordial, a conferir com as cosmogonias
mais arcaicas oriundas de outras regiões da Magna Grécia.
"No
princípio era o Caos", diz o poeta; "de onde surgiu
Gaia, a Terra, de largos flancos, base segura para todos os seres, e Eros,
o mais belo dentre os imortais, capaz de desequilibrar os membros e de
subjugar no peito de todos os homens e deuses o coração
e a sábia vontade". (...) "A Terra, então, engendrou
Urano, o Céu Estrelado, capaz de cobri-la por inteiro e de oferecer
aos deuses sua base para sempre". Nos versos seguintes, a Teogonia
nos revela que devido à presença de Eros, o amor universal,
Gaia apaixona-se por Urano, e o abraça até ser fecundada,
gerando muitos filhos e povoando toda a Terra.
Em sua concepção, Hesíodo não só
enriquece as antigas versões da Criação, esparsas
pela tradição grega, como sistematiza toda a genealogia
dos deuses em torno do Amor, força primordial de atração,
capaz por si só de justificar a união entre os seres e suas
gerações.
Numa variante órfica, por exemplo, Caos e Nix (a Noite)
é que estão na fonte cósmica; Nix põe então
um ovo do qual nasce Eros; este, ao romper a casca em duas metades, faz
nascer Gaia e Urano. Embora assuma distintas genealogias, quase que invariavelmente
Eros traz esse aspecto de potência vital do cosmos, e transmite
a toda e qualquer união sexual o padrão da primeira hierogamia
(casamento divino), o enlace entre Céu e Terra, de onde derivam
todas as formas viventes.
O I Ching, livro milenar de sabedoria taoísta, nos
diz que "quando essa penetração recíproca se
opera, Céu e Terra se harmonizam e todas as dez mil coisas se produzem".
É o signo da conjunção dos opostos, da união
entre pares que se completam, Yin e Yang que se fecundam mutuamente.
No Brahmanismo encontramos o mesmo dinamismo na representação
de Shiva-Shákti, divindade hermafrodita cujo aspecto masculino
(Shiva) está perenemente se fundindo ao de sua consorte. Shiva,
conforme dança, transforma-se em Shákti ao mesmo tempo que
esta volta a ser Shiva, buscando reencontrar a unidade original por detrás
da androginia.
Hesíodo influenciou Parmênides de Eléia, séc.
VI a.C., o primeiro racionalista da filosofia ocidental. Em Sobre a
Natureza, Parmênides traça dois caminhos: o do Ser, ou
da Verdade, a única realidade que existe, e o da Opinião,
centrado nos sentidos e aparências. Sua segunda via está
constituída por dois princípios: Luz e Trevas, de onde todas
as formas aparentes se originam, mescladas por uma única força
capaz de unir os princípios opostos fundamentais, o amor.
Outro filósofo, Empédocles de Agrigento, séc.
V a.C., ao retornar da Sicília envolto por idéias da Escola
pitagórica, tentou unir num único sistema a "filosofia
do Ser" de Parmênides com a "do devir" de Heráclito,
que lhe fazia direta oposição. Para este último,
o conflito é o pai de todas as mudanças, e a vida, numa
alegoria, nada mais é que o resultado da tensão entre o
arco e sua corda. Empédocles imaginou então o cosmos como
uma esfera absoluta e fechada, homenagem ao Ser de Parmênides, mas
pôs nela o conflito de Heráclito, fazendo de Philia,
outro nome para o amor, e neikos, o ódio, as forças opostas
e complementares inerentes aos quatro elementos (água, fogo, terra
e ar) que, misturados entre si, geram todas as coisas mutáveis
da vida.
Mas dentre os antigos, foi Platão (428-347a.C.), sem dúvida,
quem mais se dedicou a discutir o amor, tornando-o um dos pontos fulcrais
de seu sistema filosófico. Toda a sua Obra procura estabelecer
a via de relação entre o mundo incorpóreo e perfeito
das idéias e o plano material das coisas sensíveis, ao qual
estamos presos, em meio às meras imitações das formas
puras. Se, por um lado, Platão revela ser a dialética
o exercício capaz de nos alçar deste mundo denso das opiniões
ao sublime mundo das idéias, em seu diálogo O Banquete,
o filósofo nos oferece uma nova perspectiva para este salto evolutivo.
Propõe que pela ascese erótica cheguemos a essa contemplação,
pois a alma, quando quer que se deixe levar pelo amor, vislumbra a própria
divindade. Eros é, pois, o mediador entre as vicissitudes da realidade
imediata e as verdades transcendentes.
Em 416 a.C., numa festa na casa de Agaton, que comemorava um prêmio
recebido por uma de suas Tragédias, os convidados se propõem
a competir discursando sobre o amor. Fedro de Mirrinote, primeiro a falar,
mostra o amor como o mais bondoso dos deuses; Pausânias, em seguida,
distingue o amor sexual do espiritual; e o médico Erixímaco
trata o amor como uma força organizadora do cosmos. O comediante
Aristófanes narra então um mito acerca dos andróginos
e a separação dos sexos, e é seguido pelo anfitrião,
que se põe a louvar deus Eros, enaltecendo sua beleza, vendo-o
como fonte de inspiração. Convidado especial do banquete,
cabe a Sócrates falar por último. "Não poderei
fazê-lo", ele diz, argumentando não reunir talento para
tanto diante de tudo que já fora exposto. Mas os presentes, inconformados,
cobram dele uma opinião.Ponderando, o sábio diz que falará
então à sua maneira, sem fazer elogios e sem querer competir.
Aplica então a maiêutica aos discursos apresentados, pergunta
a todos sobre a verdadeira essência do amor e, evidentemente, ninguém
sabe defini-la.
Sócrates introduz então um mito que diz ter ouvido
da sacerdotisa Diotima de Mantinéia: quando nasceu Afrodite, os
deuses banqueteavam no Olimpo; mas haviam se esquecido de convidar Penúria,
deusa da pobreza, que, após a festa, miserável e faminta,
veio à caça dos restos enquanto todos dormiam. Nisso encontrou
Poros, deus dos recursos, embriagado e prostrado no jardim dos deuses.
Deitou-se com ele, e concebeu Eros. "Eis porque o Amor se tornou
amante do belo e servo de Afrodite, pois foi gerado em seu dia natalício",
explica Sócrates. Assim como sua mãe, o amor vive faminto
e sedento, deseja preencher-se; como o pai, encontra sempre expediente
para alcançar o que deseja.
Continua...
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