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Augusto dos Anjos
O Poeta da Espiritualidade

Por Paulo Urban - Continuação (2)


  

Mas antes de falarmos dele, convém ainda citar outro nome, não muito importante, mas que exerceu certo fascínio sobre a juventude de Augusto. Foi seu tio Generino dos Santos, que não vivia no engenho. Ao visitá-lo provocava-o com os ideais libertários que, como maçon convicto e republicano extremado, professava. Era também defensor ferrenho do positivismo que, embora presente na obra augustiana, não absorveu toda a inquietação do poeta. Augusto fora buscar suas verdades mais além; transpondo o cabedal de toda a literatura clássica, leu Darwin, Leibnitz, também os alemães Spencer e Haeckel, e abraçou-se ao filósofo Schopenhauer, precursor da noção de inconsciente, que o conduziu às portas do brahamanismo e do budismo, temas centrais de Augusto, a denotar a espiritualizada busca de sua mente efervescente, acusada pelos incautos de ter sido meramente pessimista e mórbida.

Exemplo disso é o "Monólogo de uma Sombra"; são 31 sextilhas que abrem seu único livro intitulado "Eu". A primeira edição data de 1912; trazia 58 poemas em 131 páginas impressas pela Princeps da Guanabara, dois anos antes da morte do poeta. Foi custeado por seu irmão Odilon dos Anjos, e não vendeu o suficiente para ressarcir o investimento de 550 mil réis. Só a foto de Augusto, a figurar no livro, custou 50 mil.

O que a princípio possa parecer egolatria, em verdade revela um Eu em amplo sentido de expressão, repleto de conflitos, tomado por densas questões existenciais e uma preocupação permanente com a transcendência da alma. O Eu de Augusto mais parece ser um Eu profundo, distante do ego, e substancializado como essência. Por ele Augusto se apresenta aos leitores em pleno exercício de reflexão cosmogônica, à moda dos antigos pré-socráticos, que se perguntavam acerca do cósmico segredo, a respeito da substância de todas as substâncias. Perpassa por toda sua poética uma noção monista e panteísta do universo, isto é, uma idéia defendida também pelos gnósticos e alquimistas, cuja raiz se encontra no orfismo, de que tudo na natureza é vivo, mesmo a matéria inanimada, e de que cada uma de suas partes representa o todo. À moda schopenhaueriana, Augusto acreditava na expiação como forma de solucionar a perene luta entre as vontades, e aguardava pelo advento de uma humanidade redimida e pura, quando os homens valorizariam o sentido universal da vida em detrimento das questões egóicas e particulares da alma. Isto está bem claro em seu título "Os Doentes", onde encara a morte como mera etapa do processo ininterrupto da vida, a assinalar não o fim, mas uma continuidade ou recomeço de seu perene ciclo.

Augusto dos Anjos bateu também às portas do ocultismo e da teosofia,
galgando a mesma senda de Fernando Pessoa, de quem era leitor. Pessoa tornar-se-ia divulgador da doutrina de Mme. Blavatsky em Portugal, tradutor que fora das obras teosóficas de Annie Beasant. A doutrina esotérica ocupava a mente do poeta paraibano, que também se interessou pela astrologia, mas sua breve existência não lhe deu o tempo para que se iniciasse formalmente nas Escolas de Mistério.

Esta sua mística, espécie de filosofia em forma de poesia inclassificável, destoante de qualquer escola literária, transborda por seus intrincados versos, científicos sim, mas sobretudo herméticos. Exemplos tácitos de sua espiritualidade poética, dentre tantos outros, são "O Lamento das Cousas", soneto schopenhaueriano que bem sintetiza os paradoxos atualmente pesquisados pela mecânica quântica; "O Meu Nirvana"; "Caput Immortale"; "Louvor à Unidade", soneto que privilegia a mônada de Leibnitz (ou pitagórica, se preferirem); "Supreme Convulsion"; "Natureza Íntima", verdadeira máxima alquimista, a de que a natureza evolui per si e também em decorrência do aprimoramento pessoal de cada um; "Ao Luar", soneto em que descreve aquilo que bem pode ter sido uma experiência sua fora do corpo, fenômeno este com que se preocupam hoje os parapsicólogos; e "Ultima Visio", no qual é a alquimia gnóstica quem se pronuncia.

Vejamos um dos melhores exemplos desta sua visão budista-panteísta, essencialmente presente em seu diálogo interno "Solilóquio de um Visionário", publicado na citada edição do "Eu":

"Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue, transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncola etéreo.

Vestido de Hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!"

O poeta, evidentemente, está aqui às voltas com o eterno mistério da morte, ao qual classifica como "velho e metafísico". Caberia uma tese inteira somente sobre este soneto, mas indiquemos o essencial. Suas metáforas tratam mesmo de um corpo que, uma vez enterrado, libertaria sua alma. O poeta diz comer seus olhos crus avidamente, ou seja, imagina transpor seu olhar superficial sobre as coisas, seu entendimento comum da vida. Uma vez liberto dos limites impostos pela carne, ao completar sua "digestão", isto é, ao metabolizar suas reflexões sobre o labiríntico tema, o poeta tem suas impressões visuais (algo próprio dos sentidos físicos) substituídas por visões divinas, recurso dos que se elevam em suas orações, e que permitem perceber as coisas pela ótica superior de um habitante das alturas (íncola etéreo). Esta é a condição da alma "desprendida", que se veste de Hidrogênio incandescente (a maiúscula é alegorizante, sugere não o elemento químico, mas algo extraordinário), original metáfora para o estado anímico incorpóreo. Passa assim o poeta a vagar pelas monotonias siderais, talvez uma alusão ao interregno entre duas existências para todo aquele que, como Augusto dos Anjos, acredite na reencarnação. Mas ele vaga improficuamente, e o sem sentido de seu vagar se explica justamente por causa de sua atual condição, a de se achar encarnado, com a alma às escuras, pois é necessário que nesta existência a alma ainda aprenda mais!

Augusto dos Anjos,
que nunca ficara doente em sua vida, foi tomado por uma pneumonia dupla de funesta proporção. Morreu assim, precocemente, aos 30 anos, em Leopoldina, aos 12 de novembro de 1914. Seu livro foi reeditado por seu amigo Órris Soares, acrescido de todas as suas outras poesias dispersas, em 1920. Desde então vem sendo o poeta nordestino mais lido, também o menos compreendido. Poeta não da morte, nem da carne em putrefação, mas sim da vida, capaz que foi de ver o mundo num grão de areia e de ouvir verdades ditas pelas pedras mortas.


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento e acupunturista.

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