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Augusto
dos Anjos
O Poeta da Espiritualidade
Por Paulo Urban
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Publicado
na Revista Planeta nº 337 / outubro 2000
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Referendado
como o Poeta da Morte, dos cemitérios,
dos ossos e da carne em putrefação,
Augusto dos Anjos, ao contrário do que muitos imaginam,
segreda em sua obra poética uma filosofia esotérica
libertária,
capaz
de nos guiar pela senda da mais pura transcendência.
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Vês!
Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão, esta pantera,
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu
cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a
tua chaga,
Apedreja essa mão que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Estes
são seus "Versos Íntimos", escritos em 1906
pelo poeta Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, a compor um dos
mais declamados trabalhos deste enigmático discípulo de
Baudelaire, cuja breve vida esteve marcada por um intenso questionamento
filosófico, disseminado por toda a sua obra.
"Versos Íntimos" expõem, de modo formal
e cruel, a nossa efêmera condição, fadados que estamos
a nos prostrar na lama sepulcral não sem antes experimentarmos
toda a sorte de sofrimentos advindos do relacionamento humano.
Só mesmo a perfeição faria toda a filosofia
Hobbeana, a considerar o homem lobo do próprio homem, caber
assim metrificada nos catorze versos (geralmente dois quartetos e dois
tercetos) decassílabos heróicos - 6a e 10a sílabas
são tônicas - de um único soneto. O poeta observa
laconicamente o definhar de nossos sonhos, lembra-nos a todos de que
a ingratidão é o natural presente que nossas mãos
estão acostumadas a receber por toda a vida, e nos adverte acerca
das traições a que estamos sempre sujeitos, considerando
por isso inútil qualquer espécie de remorso que possamos
sentir esboçar-se em nosso peito. São versos realistas,
eivados de um pessimismo desconcertante, a reproduzir o comportamento
da sociedade hipócrita à qual estamos condenados desde
o nascimento.
Por dizer verdades como estas, Augusto dos Anjos pagou seu preço.
Sua poesia, considerada por muitos impressionista, não agrada
à maioria, posto que seus versos rasgam as principais feridas
da natureza humana, não acostumada a falar da morte sem estremecer,
pouco disposta a observar os erros de sua maneira absurdamente competitiva
de viver.
Entretanto, se nos detivermos mais serenamente sobre sua obra,
encontraremos não obstante os termos difíceis por onde
esbanja o cientificismo, toda uma mística que lhe serve de arcabouço,
inequívoca função compensatória para o pessimismo
declarado do poeta, sempre a questionar severamente o sentido de nossas
vidas. Em alguns de seus sonetos e outras partes não tão
popularizadas de seus versos, deparamo-nos com um caráter filosófico
ocultista absolutamente singular em toda a literatura brasileira, com
genuínas reflexões à moda esotérica, em
versos sublimados por uma religiosidade espiritualista, voltados para
a libertação e transcendência desta nossa alma,
a mesma que, no mais das vezes, vive atormentada.
Augusto dos Anjos nasceu aos 20 de abril de 1884 no engenho do
Pau-dArco, na Paraíba do Norte. Criado no seio de um austero
regime patriarcal, o poeta veio ao mundo em época tumultuada,
quando a sociedade assistia ao crescimento dos movimentos abolicionista
e republicano que se contrapunham à decadente monarquia de fim
de século. Filho do advogado Alexandre Rodrigues dos Anjos e
de D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, Sinhá Mocinha
para os íntimos, foi alimentado na primeira infância pelo
leite da escrava Guilhermina, a quem dedicaria anos mais tarde o soneto
"Ricordanza della mia Giuventú"
Augusto, terceiro filho de uma prole de seis, não cursou
escola alguma até seus 16 anos, quando iniciou sua produção
literária. Recebeu do próprio pai, junto de seus irmãos,
todas as lições de humanidades. Somente o caçula
não pôde ser educado pelo "Dr. Alexandre", vitimado
que fora o genitor pela paralisia geral em 1905, ano em que faleceu;
e foi o próprio Augusto quem se encarregou de ensinar o irmão
menor. Ao pai, dedicou três sonetos na ocasião: "A
meu pai doente", "A meu pai morto", e "Ao sétimo
dia de seu falecimento". A família reunida, tomava lições
às sombras do tamarindo, árvore que marcou a vida de Augusto,
considerada membro da família, sob a qual o jovem se sentava
para ler, estudar, e compor seus versos. A "árvore de amplos
agasalhos" acha-se homenageada nos sonetos "Debaixo do Tamarindo"
e "Vozes da Morte" entre outros, peças de elevada sensibilidade.
Dr.
Alexandre era um misantropo. Por nada trocava a quietude de sua
vida doméstica, e passava seus dias lendo, sempre alienado
das questões administrativas do engenho, que ficavam a cargo
de seu primo, Dr. Aprígio, monarquista de índole racista
e reacionária. Alexandre era homem ilustrado, dono de vasta
biblioteca. Títulos de todos os gêneros incluíam
os hinos sagrados do "Rig Veda", cujo nome sânscrito
significa "saber", e o "Phtah-Hotep", livro egípcio
de sabedoria reputado à V dinastia, cerca de 2400 a.C. Augusto
os menciona em seu soneto "Agonia de um Filósofo".
O acervo abrangia obras filosóficas, poesia, literatura clássica,
códigos do Direito, livros nacionais e obras importadas da
Europa que chegavam por navio, escritas em todas as línguas
latinas, inglês e alemão, além dos dicionários
e das gramáticas de grego e latim. Todos liam de tudo naquela
casa, até faziam circular internamente três jornais escritos
à mão pelos próprios membros da família,
"O Miserável", "O Espinho", e "O Ourinol
da Tarde", este último temido pelo tanto de pilhérias
que trazia, dirigido com bom humor pelo conservador Dr. Aprígio.
Neles, semanalmente, "publicavam-se" crônicas, comentários
políticos, opiniões, receitas, enigmas e charadas, além
de verdadeiras disputas literárias. Lamentavelmente, deles
nada resta; nenhum exemplar desta "imprensa sui generis"
sobrou.
A família também se divertia promovendo sessões
espíritas. Embora todos ali se intitulassem católicos
fervorosos, a virada do século trazia em seu bojo a febre das
sessões espíritas, muito praticadas na Europa em torno
de manifestações curiosas que alimentavam a crença
nos espíritos desencarnados, capazes de interferir em nosso
mundo e nos trazer mensagens do além. Augusto dos Anjos não
perdeu tempo e resolveu investigar o outro mundo por si mesmo. Passou
a promover as sessões na sala de jantar de sua casa, para o
desespero de sua mãe que, nestas horas, se agarrava ao terço
ou recitava o responso de Santo Antônio, temendo o sobrenatural.
Conta-se que Augusto logo passou a ser visto como médium qualificado.
Certa feita teria recebido o espírito de Gonçalves Dias
que poetou na melhor da verve maranhense. Não houve quem duvidasse
da autoria dos poemas psicografados.
Mas convém lembrar que Augusto bem conhecia o estilo dos
grandes poetas, ele próprio era repentista nato, capaz
de fazer sonetos de cabeça em questão de dois ou três
minutos, para só depois transcrevê-los num papel. Porém,
nessa época, o Pau-dArco foi assolado por medos de assombração
de toda gente. A família presenciara fenômenos no estilo
Poltergeist na casa grande, eram batidas que à noite assustavam.
Na capela do Pau-dArco (também cemitério), pegada
à casa, surgiram manchas de gordura em seus ladrilhos, às
quais o poeta chamou de "óleo malsão". A família
estava atarantada. À noite não havia quem abrisse as
janelas com medo dos espíritos, e os empregados se apavoraram
por conseguinte, julgando que a gordura que escorria na capela era
dos espíritos perturbados que haviam acordado com as sessões
praticadas por Augusto. Dona Mocinha tomou atitude enérgica
e proibiu as tais sessões. Nas "Cismas do Destino",
o implicado perpetraria as pancadas que os atemorizavam:
"Todas
as divindades malfazejas,
Siva e Ahriman, os duendes, o Yn e os trasgos,
Imitando o barulho dos engasgos,
Davam pancadas no adro das igrejas".
No
ano de 1900 matricula-se no Liceu Paraibano, e após rápida
passagem pelos bancos escolares presta exames para a Faculdade de
Direito de Recife, sendo facilmente aprovado em 1903. Fez o chamado
curso vago, estudava no Pau-dArco e ia a Pernambuco apenas cumprir
as provas que, em seu caso, eram mais severas e incluíam todos
os pontos do início ao fim do curso. Nesta época é
influenciado pelo positivismo de Comte, propalado aos quatro cantos
por seu professor, Tobias Barreto.
O poeta formou-se em 1907, mas, igual ao pai, não exerceu
a profissão. Em 1908 é nomeado professor de literatura
do Liceu Paraibano. Também passa a dar aulas particulares que
serão seu ganha pão, uma vez que a família, por
conta das crises econômicas e da vertiginosa baixa do açúcar
no mercado internacional, viu-se obrigada a hipotecar seus dois engenhos,
para os perder definitivamente em 1910. Neste mesmo ano, aos 4 de
julho, casa-se com Ester Fialho, de quem haverá três
filhos. O primeiro deles foi um natimorto de sete meses a quem o poeta
escreveu seu soneto "Agregado infeliz de sangue e cal...".
Em 1912 mudar-se-ia para o Rio de Janeiro, vivendo sempre em pensões
baratas e ministrando aulas. Nasce sua filha Glória nesse ano,
e no seguinte, Guilherme. Mas sua permanência no Rio seria curta,
só serviria mesmo para empreender a publicação
de seu livro.
Continua...
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