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Memento Mori

MEMENTO MORI *

Na madrugada da última terça-feira deixei São Paulo rumo ao interior de Minas, viagem rodoviária de umas 13 horas, hábito meu de tempos em tempos procurar a roça onde estou agora, a fim de melhor possa me recolher, fazer umas trilhas pelas manhãs e admirar as maravilhas do estrelado céu em noites de vigília regadas a vinho e telescópio. A conjunção de Marte e Vênus a 21º de Leão junto à lua nova-crescente desta vez foi o convite.

Por volta das 10 da manhã, após cumprir quase meia distância de meu pretendido itinerário, deixei a determinada altura da rodovia Vital Brazil por uma estradinha de terra e estacionei mais adiante, já entranhado em meio à mata, bem de frente para o pico do Papagaio, exuberante montanha do vale do Matutu. Puxei a lunetinha de bolso para melhor admirar a paisagem e ali mesmo, elevado pelas belezas naturais à minha volta, preparei a solitária cerimônia do rapé.

Toda vez que me valho de sua medicina, o rapé, esse grande conselheiro, dele recebo quase que exclusivamente lições mortais.

Pois, uma vez aplicado o curipe em ambas as narinas, não há uma única vez que seu efeito de limpeza esse mestre não me ponha assim, ao nível desse húmus de que somos feito, mais entregue à percepção do barro e dos ossos que compõem o barco de nossa efêmera condição humana, com o qual atravessamos pelo rio que é nossa existência. E não foram precisos mais que alguns minutos, ainda sob efeito do rapé, para que se acendesse lá do limbo de onde vêm as inspirações inesperadas a voz do rapé a me assolar uma vez mais sua mortal lição, desta vez em 14 versos concebida:

MEMENTO MORI

Somos aqueles já que vos deixamos,
os que partiram e foram, nós os somos;
nas lápides, nos túmulos, nos domos
do cemitério e às tumbas nós restamos…

Dentre os que não são vistos nós nos pomos,
e aceites à saudade assim ficamos,
por vezes na memória dos que amamos,
fantasmas esquecidos de quem fomos.

Memento mori! Olhai e lede a inscrição
do mausoléu, gravada em seus umbrais:
“De vós só restarão duzentos ossos,

um nome, duas datas, nada mais!
Nossos ossos só esperam pelos vossos;
aproveitai a vida, esta é a lição”!

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo
Aiuruoca (MG), 13 de julho, MMXXI
decassílabos heroicos

(*) Memento mori : expressão latina que se traduz por: ‘Lembra-te da morte’.

crédito da imagem: Capela Franciscana dos Ossos, em Évora – foto de autoria do amigo literato Flávio Ricardo Vassoler, feita por ocasião de sua mais recente viagem a Portugal.

2 Comments

  1. RITA DE CASSIA CELENTANO disse:

    Esse é o momento! Ahô!

  2. Katiucia disse:

    Adoro essas retiradas estratégicas. Sempre nos trazem reflexões incríveis.
    Aproveite esse momento e nos presenteie com suas reflexões. Aho!

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