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A Grande Conjunção

 Mestre Nicolau pusera-se em vigília desde a meia-noite do último dia 12 de janeiro, e já me advertira na véspera para que passasse vê-lo em seu sítio em Piedade (SP) ao final da tarde do domingo. Fazia tempo não nos encontrávamos. Última tertúlia nossa fora sobre Netuno; desde então, nas poucas vezes em que ocasionalmente nos cruzamos, Alan e eu cobrávamos dele a prometida explanação a respeito de Plutão, ao que o mestre sempre declinava, respondendo que tal encontro nosso somente se daria após a Quádrupla Conjunção.

‘E qual Conjunção seria esta?’, perguntamos, ao que ele, nomeando a efeméride de 12 de janeiro de 2020, lembrava que Saturno, precisamente nesta data alcançaria Plutão em Capricórnio; mais que isso, curiosamente, tanto o Sol quanto Mercúrio estariam igualmente juntos a celebrar o encontro.

O mestre acendera a fogueira na madrugada, após a chuva noturna que, por sorte, fora amena e passageira. De qualquer modo, a lenha ele mantinha armazenada em local seco e protegido. E atravessara a noite em meditação, ‘a trabalhar suas entranhas diante do fogo sagrado’, assim me disse, queimando sua lenha bem além da manhã raiada, num trabalho de vigília e introspecção que se estendeu até às três da tarde. Quando estacionei à entrada de sua casa, os portões ele já me os deixara abertos, encontrei-o sentado junto à pira. Já eram quase cinco da tarde, e as brasas do fogo que se extinguira ainda ardiam acesas.

– Precisamente às 13h58min! – exclamou ao me ver chegando – o exato instante em que se conflagrou a Grande Conjunção.

Quis saber, pedi que me explicasse. Nicolau, porém, ainda colhendo entendimentos, estava reticente. Mas tendo me intimado a ter com ele, não iria deixar-me no vácuo, sem me dizer alguma coisa:

– Saturno simplesmente está onde mais prefere estar – começou – embora seja também regente de Aquário, é em Capricórnio que reina absoluto, não divide aí seu trono com ninguém. Solitude e densidade são os temas deste reino, notável por suas boas estruturas. A imagem da Cabra no alto da montanha, apartada das aflições mundanas e senhora de si, a vasculhar intimamente seu mundo psico-emocional, haja vista ser Capricórnio um híbrido, cuja metade inferior se resolve em forma de peixe, é tanto um ícone como um convite à introspecção. Ademais, em sua austeridade, Saturno cobra-nos disciplina tanto quanto sabe uma Cabra perseverar em seus propósitos. Daí ser Capricórnio o signo das realizações; ainda que estas possam ser galgadas com certa demora, dado à perseverança do capricorniano, suas metas acabam sempre sendo conquistadas.

– Compreendo, então – respondi – daí a razão de teres optado por manter-te assim, sozinho e em vigília a madrugada toda, buscando sintonia com o desenho astrológico.

– E no intuito de tirar o mais benéfico proveito deste encontro entre os dois grandes maléficos.

– Maléficos?

– Pois – lembrou-me – é como são comumente chamados, equivocadamente a meu ver, estes dois nobres senhores: o Mestre do Tempo e o Rei dos Mortos. Planetas maléficos.

– E que tipo de mal fazem eles?

– Convenhamos, a imagem de ambos não soa mesmo agradável: nosso contato com Saturno costuma ser doloroso; foice a mão, é ele quem nos poda, é quem nos tira à revelia o que temos de mais valioso até, caso não aceitemos dar a ele de bom grado o que nos cobra em termos de aprendizado e disciplina. E não é justamente a foice o instrumento classicamente associado à figura da morte, essa arma fatal que, queiramos ou não, um dia irá nos podar desse mundo para atirar-nos ao reino dos mortos? Também não é o tempo, atributo de Saturno, um limite em nossas vidas? Pois, via de regra não sabemos desde sempre que temos apenas algumas décadas a dar conta da existência ela toda?

Meneei a cabeça, concordando num sabor amargo de ‘fazer o quê?’ Nicolau prosseguia:

– Não à toa que o soberano Senhor do Hades se chama Plutão, cujo nome quer em grego dizer ‘o rico’, posto ser o deus que sem descanso tempo todo recebe, e recebe abundantemente, enriquecendo-se a cada dia mais com as almas dos recém-chegados que descem a habitar os seus domínios.

– De fato, não são imagens muito convidativas – concordei – confesso não tenha inclinação alguma para morrer nem um pouquinho. O tema que ambos inspiram não por acaso se constitui no maior dos dois grandes tabus de nossa sociedade, sendo que o segundo é o sexo.

– Por outro lado, verdade seja dita, não há nada de realmente maléfico ou benéfico nos planetas que povoam nossos mapas, tudo depende do que fazemos com os talentos e bênçãos e aflições de que nascemos dotados, e tudo varia ainda de como melhor aproveitamos ou não os trânsitos dos planetas que dançam sobre nossas cabeças, razão pela qual vejo seja chance das mais raras a que se oferece a todos nós neste crucial momento, por conta desta singular composição: Sol, Mercúrio, Saturno e Plutão, os quatro se abraçando e trocando confidências sob as estelares luzes zodiacais de Capricórnio.

– E o que devemos esperar desta complexa interação?

– Mais do que esperar, creia seja a hora exata para agir.

– Como assim?

Vencida a aparente inércia inicial, Nicolau agora se empolgava em sua fala:

– Hades, bem sabemos, constitui-se num reino por óbvio interdito. Nem mesmo a Júpiter, senhor do Olimpo, é permitido entrar ali. Entretanto, em algumas situações sui generis vemos Orfeu, Hércules, Ulisses e Psique, dentre outros raros eleitos, a penetrar no mundo ctônico a fim de cumprir certas missões específicas. Mas são exceções. A bem da verdade, os únicos dois franqueados a circular pelo reino dos mortos são os deuses mensageiros: Íris, sob as ordens de Juno, esposa de Júpiter, e Mercúrio, quase sempre a serviço deste último. É Mercúrio propriamente quem irá guiar Orfeu até a saída do Hades, conforme lhe ordenaram o fizesse Plutão e sua consorte Prosérpina, por ocasião de sua empreitada atrás de Eurídice, na vez em que ousadamente pretendeu resgatar das trevas sua esposa recentemente falecida.

– Uma história apaixonante, também uma das páginas mais tristes de toda mitologia.

– Nem fale! Eu mesmo já derramei sete lágrimas por Orfeu, porque chorei junto com ele toda a tristeza dos planetas! Mas voltemos à efeméride astrológica: o caso é que às 13h58min de hoje, a fim de receber Saturno para um chá, em caráter excepcional, Plutão fez adormecer seu cão e abriu sua porta. Saturno, por sua vez, severo em suas recomendações, pede neste fortuito instante cósmico que tenhamos todo método do mundo e máxima responsabilidade caso queiramos aproveitar a brecha e também baixar por lá.

– Baixar onde?

– Lá no Hades, você bem compreendeu. Mas para tanto é preciso que o façamos qual fôssemos o próprio Orfeu ou qualquer outro dos citados: no estrito senso do dever, no cumprimento de uma missão.

– Mas não me disseste ser o mundo dos mortos um reino interdito? Como fazer para entrar lá?

– Através de Mercúrio, evidentemente. Ora, não é ele ‘o fiel companheiro dos homens’?

– Assim ensina Homero.

– Pois, então, é Mercúrio mesmo quem se prontifica a estar sempre com a gente, a nos orientar neste processo, ao qual os gregos chamam katabasis. Por isso mesmo que Mercúrio, deus Hermes dos gregos, é tido tanto como um deus ‘psicopompo’, a nos guiar nesta descida, quanto um deus ‘psicagógico’, haja vista, será ele também quem nos acompanhará por todo o caminho de volta, a fim de que possamos vir a emergir deste mergulho sãos e salvos, de volta ao mundo dos vivos. Mas carece que sejamos absolutamente rápidos e cirúrgicos nesse intento.

– Qual o porquê da pressa?

– Ora, a urgência nem é minha, senão a natureza própria de Mercúrio. Tudo ele executa de maneira a mais veloz, e o faz intuitivamente, é deus por excelência da ubiquidade, dado a resolver todas as demandas de cima, mundo dos vivos, como as de baixo, mundo dos mortos, e o faz instantaneamente, num átimo, mais rápido que o pensamento, realiza tudo numa fração de insights. E a facilitar nossa entrada no mundo inferior, o caso é que desta vez, além da companhia de Mercúrio, estamos ainda astrologicamente autorizados pelo Sol que está a pino, no mesmo grau de Capricórnio, a iluminar a entrada para o mundo dos mortos qual fosse um farol ao zênite, a clarear um poço profundo.

– Incrível!

– Sim, uma efeméride planetária sem precedentes, quem souber pôr-se em sintonia com a frequência destes quatro astros em comunhão, põe-se igualmente franqueado a penetrar no Hades. É como diria o poeta da resistência, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

– Nada como saber ler os céus, ver e ouvir os planetas!

– Pois, foi lá que estive ainda há pouco, a fim de resolver umas pendengas espirituais que trago há décadas esperando serem visitadas e ‘alquimizadas’. A vigília desta madrugada foi em verdade a culminação de um processo de preparatório que faz anos venho travando, todo ele à espera do oportuno tempore, a dizer, desta singular composição celeste, por mim tão aguardada.

– E o amado mestre deu conta do serviço? Obteve sucesso em vosso intento?

– Ora, ora… e a bem realizar o que nos pede o V.I.T.R.I.O.L.

– A verdadeira alquimia!

– Que é sempre pessoal. Procedi conforme o rogo: Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem, máxima alquímica da qual tanto você quanto Alan, adeptos da arte, bem conhecem a tradução.

– Visita o Interior da Terra e Retifica-te pelo Encontro da Pedra Oculta!

Mercúrio apresenta ao casal Plutão e Prosérpina duas almas recentemente trazidas ao mundo dos mortos.

– Que não é outra senão a Filosofal, instrumento ímpar, de uso pessoal e intransferível, sempre a serviço das curas e das grandes transmutações, especialmente a de hoje que, de tão profunda e tão difícil, exigiu-me mergulhar meus abismos absconsos. Sim, estive lá e pude ver. Viajei sob a tutela de Mercúrio; ao vê-lo comigo, Caronte não se opôs em pôr-me a bordo de seu barco, e foi assim que atravessei o Estige, com o que fui levado à derradeira margem das Trevas, ao âmago do Tártaro. Lá, humildemente ajoelhei-me diante do casal e beijei os alvos pés de Prosérpina ela própria, na sorte de encontrar um deus Hades excepcionalmente generoso pela graça de estar assim, feliz e entretido em tomar chá com seu pai Saturno, ilustre visitante de momento, que só mesmo a cada 33 anos, o exato ciclo da conjunção Saturno-Plutão, baixa por lá a fim de pôr o assunto em dia. E foi com a bênçãos deles dois que me entreguei imediatamente a dar conta do que devia ser feito.

– Vosso processo de cura!

– Por certo, com o que logo pus-me a extirpar as raízes adoentadas de minh’alma, aspectos terríveis de mim mesmo dados a ocultar-se nas entranhas da Sombra; e foi daí que extraí ainda alguns metais pesados, também outros elementos alquímicos meus que jamais seriam trazidos à luz da consciência nem teriam salvação nesta vida, não fosse o solene trabalho desta madrugada que se arrastou até há pouco, neste sacro-ofício a que me entreguei sob os auspícios de conjunção tão forte e promissora.

Plutão e Prosérpina entronados no Hades

Nicolau estava visivelmente emocionado. Falava como se desperto estivesse por um olho aberto no meio da testa. E continuou:

– Desci por um caminho que se me abriu iluminado pelos raios do astro-rei e sob a protetora companhia de Mercúrio – ele é nossa intuição – que me soprava todo instante o que fazer e como proceder. Em que pese sejam por muitos tidos como ‘maléficos’, o caso é que não fosse Saturno e Plutão assim constelados, ora em parceria com o Sol e Mercúrio, eu jamais teria chegado à Pedra e, por conseguinte, não teria me retificado, a dizer, corrigido certos aspectos densos e pesados que demandavam ser curados e transmutados dentro em mim.

– Só não mais impressionado me ponho diante deste vosso relato do que honrado me sinto em ter sido chamado a ouvir tão eletrizante parlenda astrológica! – exclamei, observando o mestre em suas maneiras, que voltava a dar sinais de que se recolheria novamente em seu silêncio. Mas ele ainda me convidaria a entrar em sua casa para um chá preto. Estava sensível em seus gestos, econômico nas palavras.

E em percebendo que ele preferia de novo estar sozinho, anunciei que era hora de retornar à minha casa. Antes que me fosse, porém, Nicolau lembrou que para breve agendaria nossa próxima tertúlia, sobre Plutão, para a qual fazia questão que o confrade Alan estivesse presente. E em se despedindo de mim, entregou-me o soneto que fizera logo após ter saído de seu périplo ctônico, a retratar em versos decassílabos heroicos o que de portentoso fora sua aventurosa descida ao mundo inferior à luz da Grande Conjunção.

Plutão e Prosérpina no Mundo dos Mortos – arte de Sandara

QUÁDRUPLA CONJUNÇÃO

Saturno aos 22 de Capricórnio
alcança o deus proscrito Hades-Plutão,
Mercúrio junto ao Sol em combustão,
são 4 em conjunção: Grande Quatérnio!

Plutão abre sua porta e dorme o cão;
o Sol faz enxergar, vence o infortúnio;
Saturno está sentado ao clavicórdio,
imprime as notas graves da extração:

Mercúrio entra rasgando, é o franqueado,
penetra às profundezas, chega ao Tártaro,
recolhe todo o lixo emocional;

cirúrgico e preciso, limpa o mal,
e já saindo acorda e clama a Cérbero:
“Só quem cumpre o VITRIOL faz-se curado!”

Nicolau Nicolei de Ptolodamus
Astrólogo do Rei
Porta-Céu de onde estamos
Sol aos 21º 56’ 23’’ de Capricórnio
Mercúrio aos 23º 13’ 47’’ de Capricórnio
Saturno aos 22º 46’ 34’’ de Capricórnio
Plutão aos 22º 46’ 34’’ de Capricórnio

2 Comments

  1. Patrícia Camel disse:

    Mestre Nicolau não é nada bobo, aproveita tudo o que o Tempo de Chronos lhe oferece e ainda se diverte. Mestres são assim, grandes Olhos que podem ver, enxergar, sutilizar e alquimizar tudo num átimo, e ainda nos brindar com a poesia de sua vida totalmente artística, anímica, plástica e transcedente. Prazer em ler, no aguardo de Plutão…

  2. Alana de Matos Gama disse:

    E com grande espanto eu percebo
    como é jovem a minha mente-alma
    porque tudo o que li me tirou a calma
    e tramo uma fuga quase em desespero

    Não consigo embarcar nem na minha alma
    e quando é noite choro com o meu medo
    que me diz que não estou sozinha em minha casa
    que dentro de mim mora um mensageiro

    Deus meu, onde botei a minha espada?
    Clamo a Ti com o todo o meu apego
    mas o que ouço são os silêncios do nada

    Rogo a Deus que a confiança me seja dada
    porque grande é o meu desassossego
    tamanha a força que me faz de fumo e me traga

    (AMG)

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