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Mestre Alberto

Desta vez, quando me sentei ao pé do fogo, agradável noite de inverno, como um ruído de chocalhos, o crepitar dos galhos e da relva seca que eu pusera a alimentá-lo dava ritmo à dança mágica das labaredas, ao espocar das chuvas de centelhas.

Ensimesmara-me a tal ponto a ver as salamandras que, sem presunção do próximo momento, foi em absoluta absorção que o vi de mim aproximar-se, nítido como um girassol, mestre Caeiro, que, mais por ter sentidos do que por ter filosofia, sentou-se ao pé do mesmo fogo. E assim, como a única inocência é não pensar, pasmo e perplexo em ver ali, bem de meu lado, em ossespírito o poeta-mestre dos pagos e das letras, foi que preferi ficar calado a perguntar-lhe qualquer coisa.

Afinal, o Mundo não se fez para pensarmos nele, mas para olharmos e estarmos de acordo… instante seguinte, ato falho de minha humana condição, vi-me ao mesmo tempo já indagando, mas a mim mesmo, o que é que eu penso do mundo. Ora…, e eu sei lá o que penso do mundo? Que ideia tenho das cousas? Não sei. Antes, são as ideias elas próprias que me têm sempre que fecho os olhos sem pensar, e correm por mim como vitrinas de minha janela sem cortinas voltadas para o mistério das cousas. E quanto ao mistério das cousas? Sei lá o que é o mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério, quando nesse haver de paisagens correm ideias que não sabem das cousas.

E misturando-me por completo à luz do fogo, também esses meus não-pensamentos à pessoa de Caeiro que ao meu lado se pusera em Pessoa, foi que me flagrei guardando os rebanhos que são meus pensamentos. E vi-me então dizendo de mim mesmo: ‘Aqui estou!, sou aquele que mesmo sem saber buscar segue buscando o sentido último das cousas que talvez só encontrem sentido quando eu deixar de pensar nelas’. E justamente vibrava este particular fractal de minha pessoal mitologia, quando me interrompeu a voz serenaberta de Mestralberto, que, olhando-me como fosse uma criança, proferiu sua sentença:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

Sereno como a Lua, desprendido de tudo, soprando as brasas, dando vida às labaredas, já a se levantar, Caeiro ainda comentou antes de ir-se: Sejamos simples e calmos, como os regatos e as árvores, “porque Deus quis que não o conhecêssemos, por isso se nos não mostrou”. “Pensar em Deus é desobedecer a Deus”.

E sorrindandando como estivesse a pastorear ovelhas, ao ir embora, o fez de modestranho: seu rosto era de um brilho sem máscaras, e havia nele todo uma luz além daquela que nosso fogo possuía, até que eu o vi repentinamente subir pelo primeiro raio que o apanhou.

Restei só em meu quintal, ao pé do fogo, de onde vejo quanto da terra se pode ver do Universo, de um Universo que, a propósito, nunca foi ideia minha…

E quanto me impressionaria se Deus entrasse por minha janela de vitrinas, ainda que talvez seja Seu dom fazê-lo sempre sem mesmo que eu perceba, de um modo muito mais discreto que o de meu bom amigalberto.

MESTRALBERTO

“O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum”.
(Alberto Caeiro, 1889-1915)

Presumo que Pessoa fosse certo
ao fazer de Caeiro o nosso mestre,
assim como as cidades têm silvestre
mãe no íntimo sentido do Universo.

Que o Universo são cousas que eu desperto
sem ver qual o sentido que elas vestem
em perceber que os nus jamais se despem,
assim como a verdade é um rostaberto.

E ao Deus que jamais vi, se um dia entrar
por minha porta aberta até onde estou
– nem sei por que haveria estar trancada –

e olhar-me como a um girassol-de-estar,
quem sabe eu me descubra em mim quem sou
à luz da metafísica do nada!

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo
decassílabos heroicos
meia-noite, 6 de setembro, MMVIII

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Leia mais a respeito de Fernando Pessoa; outros textos de autoria de Paulo Urban neste site que versam sobre o poeta e sua Obra são:

1. Pessoa Oculta em Pessoa

2. No Túmulo de Christian Rosencreutz

3. A Mensagem de Pessoa

4. O Conselho de Bernardo

 

4 Comments

  1. Um verdadeiro poema em prosa; e ao final brinda-nos com poesia em poema… Brilhante SEMPRE, meu amigo!

  2. Cristina Maria da Conceição Machado disse:

    Belíssimo. Como eu disse: É tudo tão profundo que dá medo de se afogar.

  3. Célia Abila disse:

    Me encantou e tenho afinidades com o gênero e a água da fonte dos poetas, que você bebe. Parabéns.

  4. Patricia Camel disse:

    Fui conduzida ao estado do não-ser, tornando-me NADA de uma maneira plena. E com tal clareza a narrativa penetrou meu ente, que por um momento inteiro amalgamei-me ao pensamento do narrador…vertida em versos, desapareçi por fim, e voltei a mim.

    Este é o talento do original escritor e excepcional poeta que começo a descobrir nesta pequena obra-prima!.

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