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Para Ser Igual aos Anjos

Mosteiro situado no Estado Monástico Autônomo da Montanha Sagrada, ‘Monte Athos’, Grécia).

Naquela manhã monge Niseias acordou diferente. Sentia-se estranho. ‘Preciso ser igual aos anjos’, foi seu primeiro estranho pensamento. Estranho mesmo, muito estranho, o pensamento estendeu-se… ‘pois os anjos nada fazem senão louvar a Deus, só para isso é que vivem; não há meta maior para um ser humano que não seja transformar-se em anjo’, concluiu.

Logo após o desjejum comunitário, solicitando entrevista com o Superior de sua ordem, comunicou-lhe que queria deixar o mosteiro, iria viver na floresta a fim de se tornar anjo. O Superior ainda tentou argumentar, mas Niseias estava resoluto.

– Se após vinte anos convivendo entre nós, é este teu entendimento, nada posso fazer senão abrir-te a porta – disse-lhe o monge Superior, cujo olhar fez-se triste e piedoso.

E foi assim que Niseias, dizendo que jamais voltaria, abandonou seus pares. Embrenhou-se pela floresta, buscou uma caverna, sentou-se sobre uma pedra e ali ficou entregue a orações, na certeza mística, assim lhe dizia seu coração, de que estava prestes a transformar-se em anjo.

* * * * * * * * * * * *

Três dias depois, era madrugada, alguns monges que oravam em vigília ouvem bater à porta do mosteiro. O próprio Superior, que estava entre os vigilantes aquela noite, foi à porta e interpelou:

– Quem bate a essa hora?
– Sou eu, monge Niseias; por favor, abre a porta.
– Impossível. Niseias foi-se embora daqui; disse ainda que não voltaria.
– Mas voltei, Senhor – disse Niseias, reconhecendo a voz do Superior – Por favor, abre a porta; tenho frio e passo fome.
– Mas como podes ter frio e passar fome, Niseias? A estas horas já não te tornaste um anjo?
– Arrogância minha, Senhor. Pura tolice de meu ego besta. Perdoa-me, sim? Os anjos, em verdade, vivem a guiar os homens; por isso glorificam a Deus e contemplam as maravilhas. Eu, imperfeito, em minha pobre condição humana, só poderei um dia aproximar-me deles e contemplar as divinas maravilhas se estiver absorto e entregue ao meu trabalho diário, vivendo minha pessoal missão.

E vendo que era o velho Niseias quem realmente havia voltado, mais humilde agora do que quando estranhamente partira, o monge Superior abriu-lhe a porta, com um olhar misto de alegria e de bondade.

(História de autor desconhecido, recontada livremente por Paulo Urban)

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