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Arqueiro Zen

Gensha Shibi (835 – 908d.C.)

“Um jovem monge, certa vez, foi ter com mestre Gensha a fim de descobrir onde era a entrada do caminho que leva à Verdade. Ao saber de sua intenção, Gensha, que meditava profundamente, abriu os olhos, sorriu e perguntou a seu visitante:

‘Estás a ouvir o murmúrio do regato?’
‘Sim, mestre, ouço-o bem’, respondeu o novato, em clara expectativa.
‘Pois bem, eis aí a entrada’, instrui-lhe o sábio que, cerrando os olhos, nada mais lhe disse”.

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Assim como é o caminho e não a meta o que mais importa ao peregrino, será a flecha, e não o alvo, aquilo pelo que mais deve prezar o bom arqueiro. Aos que têm por objetivo caminhar cem quilômetros, que considerem, pois, noventa como a metade disso. Aos que pretendem atirar mil flechas, que se demorem 999 vezes no aprimoramento do único tiro que justifica a arte toda. Só assim o nobre compreende que seus passos, tal e qual os tiros de seu arco, vencerão maiores distâncias e desafios quando, sem pressa alguma ou intenção, saibam desvendar a secreta via das pegadas mais sutis, somente perceptíveis ao coração sereno.

Semelhante arte executa o arqueiro zen que faz de sua mente um lago calmo e beneplácito e que, erguendo os braços, sustenta em seu arco os seus desejos todos enquanto mantém presa na retesada corda a não-intenção de sua flecha.

Em seu contemplativo respirar, no imaginário rasgo da parábola absoluta, na imponderabilidade de seu sustenido ato, confunde-se o mirador ao seu (ad)mirado alvo… e aponta o mestre-arqueiro para o infinito ponto até que, centrado, se deixe atravessar pela estirada corda de seu arco como se o universo inteiro o traspassasse… até que ‘algo’ que lhe é externo e superior à sua vontade lhe dispare a flecha, sem que ele próprio tenha sido para o tiro nada mais que um coração ritmado em seu pulsar, despido de qualquer preocupação.

Nesse momento, inspirando com naturalidade a presença dos dias, expirando com suavidade a frescura das noites, o sábio arqueiro peregrino se esquece de tudo e se converte no bambu de seu arco, deixa de ser ele próprio para imiscuir-se na sacralidade dos passos sem conta, misturando-se ao vir a ser dos mil tiros do caminho, e assim, sem pensar em nada, vazio de si mesmo, descobre-se pleno do cosmos sem que seu eu lhe seja empecilho para ser e estar presente em seu real constantinstante.

ARQUEIRO ZEN

Na arte cavalheiresca do arco e flecha,
arqueiro zen respira em pontaria,
seu alvo não é meta da arqueria,
senão que o meditar transcenda a brecha.

Seu arco o Cosmos círculo seria
e a flecha um raio seu, acesa a mecha,
ser livre de intenção que ao céu desfecha
um rasgo de resgate união-mestria.

… e o braço que sustenta o arco se estende
enquanto o outro retesa a corda e a estira,
e a flecha à luz dos olhos se faz mira…

… e quando o tiro é dado o arqueiro entende
que as águas fluem sem meta em leito e rio,
que o Todo é o seu murmúrio, em si Vazio.

Paulo Urban
7 de agosto, MMXIV

Nota 1: Gensha Shibi (835-908 d.C.), corruptela do nome Hsüan-sha Shih-pei, patriarca chinês, um simples pescador.

Nota 2: Arqueiro da foto: o atleta é Fernando Interlandi, campeão em muitas frentes: pai, ator, dentista, poeta sonetista, arqueiro e peregrino –  já percorreu por duas vezes o Caminho (francês) de Santiago da Compostela. Dentre meus amigos todos, face à pertinência do tema deste sonetexto, não haveria quem melhor representasse, com foto e tudo, essa nossa diária e decantada busca pela serenidade de espírito.

Nota 3: “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, editora Pensamento –  Monumental opúsculo acerca do Zen, escrito com desprendimento e elegância pelo filósofo alemão Eugen Herrigel (1885-1955) que, durante os seis anos em que lecionou na Universidade Tohoku, Japão, conseguiu ser admitido depois de incansável determinação sua, como discípulo de Kenzo Awa (1880-1939), mestre arqueiro Zen, homem sábio que lhe transmitiu os segredos desta arte de alcançar, por meio do tiro com arco, a ‘consciência do cotidiano’, pedra de toque da ‘Doutrina Magna’.

2 Comments

  1. Denise Ranieri disse:

    Belo texto, belo soneto, Dom Paulo Urban.

  2. Eduard Maldus disse:

    Ofereço aqui minha mão para o irmão mais distante da luz pois assim dela serei mais proximo .

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