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Quatrezena a Santo Antônio

“Não nos deve alegrar a vida longa. Vale a vida o quanto sabemos empregá-la a serviço de Deus. Mal havendo completado seus 36 anos de idade, Santo Antônio já amadurecera o suficiente para cruzar os portões do Grande Reino, prêmio por suas excelsas virtudes. A 13 de junho de 1231, confortado com os sacramentos, entregou Antônio sua alma bendita nas mãos do Criador; e é notório o fato de os meninos de Pádua, antes de divulgada a notícia de sua morte, saírem gritando às ruas: ‘Ai de nós, desditosos de nós; morreu o nosso Santo protetor!’. Sto. Antonio

Sua partida para a Pátria Celeste não encerrou, entretanto, seu apostolado sobre a Terra, que se perpetuou no seio da humanidade. Vale assinalar o prodígio com que Deus o galardoou: até hoje, permanece fresca e incorrupta a língua bendita do Santo (relíquia exposta na Catedral de Pádova, Itália), a mesma que jamais cessou em toda a sua vida de apontar com sabedoria as injustiças e pregar com clareza e discernimento as grandezas do Altíssimo, ensinando a louvá-las uma infinidade de almas, como as nossas. Até hoje, por toda parte, multiplicam-se os favores e as graças mediados por intercessão de Santo Antônio”.

(parte de texto biográfico extraído do opúsculo Regulamento e Devocionário de Santo Antônio, Ed. Vozes, São Paulo, 22ª edição, 1961, traduzido a partir de documentos canonicamente autorizados pela Pia União de Santo Antônio, da Igreja de Santo Antônio em Roma – Via Merulana, 124 – datados de 12 de fevereiro de 1900).

Eu, devoto de Antônio de Pádua, desde criança tendo aprendido com meus pais a realizar todo mês de junho, de 1º a 13, sua bendita Trezena, venho hoje a celebrar esta efeméride publicando aqui um Soneto em homenagem a esta luminosa alma que por séculos e séculos vem norteando todos aqueles que, cumprindo seus caminhos e percalços, buscam inspirar seus passos e seus atos conforme o exemplo do humilde taumaturgo de Pádua.

Quatrezena a Santo Antônio, em 14 versos, como são os sonetos, assim reverencia o mestre: os 13 primeiros versos respectivamente aludem aos 13 dias da Santíssima Trezena; o 14º refere-se obviamente à Graça que, desde então, a cada vez que reporto minha alma em preces ao velho Antônio, vejo-A em minha vida maravilhosamente alcançada.

QUATREZENA A SANTO ANTÔNIO

Seu hábito é grosseiro, os pés descalços,
Fernando Antônio, monge, está pisando
tábuas toscas. Às vezes, pois, sonhando
entre as pedras, o moço sabe os falsos

descaminhos. E enquanto eu sigo orando,
cumprindo meu percurso, meus percalços,
eu rogo por arcanos cadafalsos
que a forca de meu ego seja amando.

E assim, em miração, eu vejo o Santo:
o arquétipo de Antônio em Consciência
é um Anjo que se fez por castidade;

em luz, é um puro lírio da inocência,
e as lágrimas de Cristo são seu pranto
a derramar amor na humanidade!

13 de junho, MMXII

Paulo Urban
(decassílabos heroicos)

3 Comments

  1. Me emocionou! Grande beijo!

  2. Paulo Urban disse:

    Incrível relato de episódio histórico e fartamente documentado acerca de um dos muitos e reconhecidos milagres de Santo Antônio de Pádua (nascido provavelmente em 25 (?) de agosto (?) de 1190/95 – falecido em 13 de junho de 1231):

    “Aconteceu que um rapaz foi assassinado perto da casa de Martim de Bulhões e os assassinos, por malvadez, levaram o corpo para o quintal de Martim e ali o enterraram sem que o proprietário do terreno se desse conta. Mais tarde, foi descoberto pela Justiça o corpo de delito em casa do infeliz fidalgo, e este foi acusado pelo crime.

    Diante dos gravíssimos indícios de que era culpado, permaneceu quinze meses preso e, afinal, estava sendo julgado e seria com certeza condenado à morte. Deus, porém, houve por bem avisar a Frei Antônio do perigo que ameaçava seu pai terreno, e o Santo foi logo pedir ao Guardião do convento que o deixasse ausentar-se de Pádua por um tempo breve. De Pádua, na Itália, viu-se transportado num instante a Lisboa, Portugal, onde se apresentou ao tribunal. Depois de beijar a mão de seu pai em sinal de respeito, tomou sua defesa. Os juízes ficaram impressionados com o aparecimento daquele inesperado advogado, também com a segurança com que falava, mas não se convenceram da inocência do réu, tantas eram as aparências de que Martim de Bulhões fosse culpado.

    Faltando testemunhas de defesa, Santo Antônio apelou para o depoimento do assassinado! Os assistentes, surpresos com a estranha proposta, já se dispunham a rir. Mas Frei Antônio insistiu e os juízes, levados pela curiosidade, consentiram que ele chamasse o morto como testemunha da defesa. Chegados à sepultura do falecido, o Santo ordenou que a abrissem, e chamou o frio cadáver em voz alta, ordenando-lhe em nome de Deus que dissesse aos juízes se era verdade que Martim de Bulhões o assassinara. Levantou-se logo o morto e, como se estivesse vivo, respondeu com voz sonora e ouvida por todos que Martim de Bulhões era inocente e não se havia manchado no seu sangue. Em seguida, novamente se deitou na sepultura, e o Santo, depois de se despedir do pai, desapareceu.

    Ficaram os juízes e a assistência assombrados com o milagre portentoso que acabavam de presenciar, e o nobre Martim de Bulhões, graças ao seu santo filho, teve salva a sua vida e conservou seu nome sem desonra”.

  3. Márcia Terlizzi disse:

    SANTO ANTÔNIO
    Fernando Pessoa

    Nasci exactamente no teu dia —
    Treze de Junho, quente de alegria,
    Citadino, bucólico e humano,
    Onde até esses cravos de papel
    Que têm uma bandeira em pé quebrado
    Sabem rir…
    Santo dia profano
    Cuja luz sabe a mel
    Sobre o chão de bom vinho derramado!

    Santo António, és portanto
    O meu santo,
    Se bem que nunca me pegasses
    Teu franciscano sentir,
    Católico, apostólico e romano.

    (Reflecti.
    Os cravos de papel creio que são
    Mais propriamente, aqui,
    Do dia de S. João…
    Mas não vou escangalhar o que escrevi.
    Que tem um poeta com a precisão?)

    Adiante … Ia eu dizendo, Santo António,
    Que tu és o meu santo sem o ser.
    Por isso o és a valer,
    Que é essa a santidade boa,
    A que fugiu deveras ao demónio.
    És o santo das raparigas,
    És o santo de Lisboa,
    És o santo do povo.
    Tens uma auréola de cantigas,
    E então
    Quanto ao teu coração —
    Está sempre aberto lá o vinho novo.

    Dizem que foste um pregador insigne,
    Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
    Etcetera…
    Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
    Que de hoje em diante quem o diz se digne
    Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

    Qual santo! Olham a árvore a olho nu
    E não a vêem, de olhar só os ramos.
    Chama-se a isto ser doutor
    Ou investigador.

    Qual Santo António! Tu és tu.
    Tu és tu como nós te figuramos.

    Valem mais que os sermões que deveras pregaste
    As bilhas que talvez não concertaste.
    Mais que a tua longínqua santidade
    Que até já o Diabo perdoou,
    Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
    No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
    Vale este sol das gerações antigas
    Que acorda em nós ainda as semelhanças
    Com quando a vida era só vida e instinto,
    As cantigas,
    Os rapazes e as raparigas,
    As danças
    E o vinho tinto.

    Nós somos todos quem nos faz a história.
    Nós somos todos quem nos quer o povo.
    O verdadeiro título de glória,
    Que nada em nossa vida dá ou traz
    É haver sido tais quando aqui andámos,
    Bons, justos, naturais em singeleza,
    Que os descendentes dos que nós amámos
    Nos promovem a outros, como faz
    Com a imaginação que há na certeza,
    O amante a quem ama,
    E o faz um velho amante sempre novo.
    Assim o povo fez contigo
    Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
    Ó eterno rapaz.

    (Qual santo nem santeza!
    Deita-te noutra cama!)
    Santos, bem santos, nunca têm beleza.
    Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …
    Tira lá essa capa!
    Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
    Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

    És o que és para nós. O que tu foste
    Em tua vida real, por mal ou bem,
    Que coisas, ou não coisas se te devem
    Com isso a estéril multidão arraste
    Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
    Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
    Que foste tu, ou foi alguém,
    Só Deus o sabe, e mais ninguém.

    És pois quem nós queremos, és tal qual
    O teu retrato, como está aqui,
    Neste bilhete postal.
    E parece-me até que já te vi.

    És este, e este és tu, e o povo é teu —
    O povo que não sabe onde é o céu,
    E nesta hora em que vai alta a lua
    Num plácido e legítimo recorte,
    Atira risos naturais à morte,
    E cheio de um prazer que mal é seu,
    Em canteiros que andam enche a rua.

    Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
    Sê sempre assim!
    Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
    Esquece a doutrina e os sermões.
    De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
    Foste Fernando de Bulhões,
    Foste Frei António —
    Isso sim.
    Porque demónio
    É que foram pregar contigo em santo?

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