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Dramestático

DRAMESTÁTICO

Meu carro não tem som, nem mesmo um rádio. Só silêncio quando viajo dentro dele. Há vezes em que medito e outras em que entoo mantras que eu mesmo invento, desses que me ocorrem nas sessões de introspecção diante do fogo que regularmente acendo em meu quintal, quando então, morcegos me visitam e trazem ideias, e as salamandras em meio às labaredas me ordenam publicar coisas ocultas.

Da casa onde moro (vivo em meio a algumas poucas árvores e pássaros que alegram meus cafés todas as manhãs) até o consultório em que trabalho, são 22,36 km (medidos pelo GPS de um de meus pacientes que, obsessivo, quis informar-me à precisão). Formidável São Paulo! São quase duas horas, senão mais, a cumprir esse cotidiano percurso; mais demorado que viajar a Sorocaba para o reiterado prazer semanal de visitar minha mãe. E é assim que em meio à horda de motobárbaros que impunemente ultrapassam pela direita, quebrando espelhinhos e chutando a lataria dos automóveis, sob a ameaça de explosão dos encouraçados taxistas radiativos, dirijo digerindo minha diária ração de fuligem, enquanto passam por minha janela robotizados taiêres e ternos apressados, tendo ao fundo a pose ignorante dos seguranças dos bancos… respiro o inevitável monóxido de carbono e me entrego em silêncio ao diamantestado das orações que sempre faço, sem santo patronímico que as nomeie, comumente sem intenções específicas, senão a de curar indefinidamente essa profunda chaga de insânia coletiva que nos detém em suas malhas, enquanto atônito busco descobrir como escapar do Senhor Mara dos Mundos, inventor desta garrafa de vidrescuro que, mesmo sem rolha, nos mantém feito moscas aprisionadas a voar dentro dela, iludidos quanto a tudo.

Paradoxais contemplações, refrações de um visionário, enxergo além do fosco da garrafa o intangível mundo que parece haver lá fora… encrua-me a dúbia incerteza do vislumbre… essa luz fosca e inconcebível a surgir por trás das obscuras raias do crepúsculo… existe mesmo algum real lá fora? Há vida além da vida? O rufar das asas deste inseto que ora sou, preso a esta garrafa em que hoje estou saberia voar para além dos ares viciados aos quais me sei acostumado? Enquanto busco escapar do labirinto das ruas, meditando sobre o nada e o tudo como melhor me convêm, desgasto-me do tempo que, efêmero, esvai por minha ampulheta. Perplexo, procuro pela poesia que, dizem, habita os mínimos e divínimos detalhes.

Labirintando, abro os poros em torvelinhos telepáticos ao amigo Wittgenstein, desassossego-me à Bernardo, e miro através dos olhos dele, lá do quarto andar e à plenangústia o manto disforme dos telhados portugueses… nem mesmo assim, Wittengenstein, Bernardo e eu, damos juntos o passo solidário além do dramestático (ou seria nirvanextático?) do existir. À mercê desse  interlúdio, é só vazio desta cotidiana garrafa que ora importa, se é que possa haver uma porta.

E entre congestionamentos atravesso a quinta-feira sem paixão; o carro de trás impacientemente buzina. Hora de cruzar a sinapse nervosa do semáforo desprovido de todo e qualquer sentido na mantralidade neutra do embaraço coletivo:

Galatea - Dali 1958.0.36

   NIRVANEXTÁTICO

Às vezes morro em drama e sou estase
e abraço a vacuidade em seu vazio,
sou menos que um desejo, um desvario,
metrônomo das pausas, entro em fase.

Por sonhos e entre imagens me desfio,
mas antes que em vertigens me extravase,
ao centro de mim mesmo, ao menos quase,
escapo ao labirinto e viro rio.

Que só em águas que eu sei se sinto e existo,
são espelhos de meus céus a refletir…
vislumbro-me entre estrelas, não sou ego…

Teatro de ilusões, santo imprevisto!
que os sonhos têm também seu ponto cego,
qual dramas drenam o extático existir!

Paulo Urban
9 de setembro, MMX
(decassílabos heroicos – no trânsito de Sampa, a caminho do consultório)

5 Comments

  1. Maitê Luz disse:

    Paulo, muito obrigada por escreveres por mim…rsss.
    Estou sentindo EXATAMENTE o que tão poeticamente escreves.
    …pois é!!! Assim é a vida dos artistas que, em sendo fiéis a si mesmos, conseguem materializar nossos mais profundos sentimentos e sensações.
    Muito obrigada!
    Te beijo com muito carinho e respeito,
    Maitê

  2. Fernanda Andreani disse:

    Maravilhoso!

  3. Carmen Regina DIas disse:

    Paulo Urban, mago dos meus sentires e pulsares,
    Oráculo dessa alma de falcão encantado em voo cego
    por sobre a tartaruga da razão.

    Amo, beijo, adoro e para sempre louvo o teu pensamento poema.

  4. Carmen Regina DIas disse:

    Quero dizer também que ler o poema é como pingar a gota miraculosa
    da essência do seu escrito, corredor dos sábios, ao fim do qual
    se abre o portal e os deuses me recebem de braços abertos;
    mas antes pingam o seu colírio divino, e então eu entro, tartaruga caminhando no chão, falcão voando bem alto, em seu NirvanaExtático.
    E terna mente sua admiradora.

    Carmen

  5. … senão a de curar e a de curar indefinidamente a profunda chaga desta insânia coletiva que nos retém em suas malhas…Genial!

    Amei a imagem, me deixei espirolar nela mediante a vibração dos versos!

    Giselle

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