Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.
(Fernando Pessoa – Os Outros Eus)
Somos heróis da própria jornada. Habita em cada um de nós um herói mitológico capaz de dar conta de nossa missão pessoal e de cumprir, com grandeza e arte, a humana parte que nos cabe na realização da Grande Obra divina.
E todo herói traz consigo uma missão. Por isso, somos todos missionários nesta vida. Atrelada à nossa particular missão, encontra-se nossa mitologia pessoal, a ser visceranimicamente experimentada pelo herói.

Mitalma - óleo sobre tela do renomado artista plástico Eduardo Vilela
A mitologia pessoal é, pois, a fonte de nossas potenciais capacidades, manancial de vida onde a alma pode recolher-se ou banhar-se, ou mergulhar mais profundamente no intuito de reconhecer a natureza de seus essenciais valores, a fim de que possa trazê-los à tona, em prol de um verdadeiro e luminoso despertar da consciência.
Nesse sentido, a mitologia pessoal é depositária do grande drama da existência, e seu desdobramento traduz um genuíno roteiro a ser seguido, repleto de personagens, cenas e situações arquetípicas com os quais a alma deve relacionar-se, de modo a orientar-se em sua travessia pelo grande labirinto do mundo inconsciente. E o cumprimento deste fabuloso drama tem iminente caráter iniciático, a pressupor inúmeras mortes e renascimentos simbólicos.
Explorar a mitologia pessoal à luz da Alquimia traduz, em suma, toda a prática da Psicoterapia do Encantamento. Nada há de mais curativo que percorrer esse caminho; diante dele e disposto a abraçá-lo, cada peregrinerói se lança a enfrentar os seus mais íntimos temores, a conhecer as suas mais secretas salas e a encontrar o seu pessoal tesouro, aquele que, silente e nobre, desde há muito nos espera guardado no relicário de nossos corações.
MITALMA
Minha alma quando explode cria mitos;
constela-se entre estrelas a brilhar,
contempla a imensidão em seu olhar
e traz ao Caos seus cosmos inauditos.
Tomada pela insônia em perguntar,
minha alma se projeta em som de aflitos
no mais fundo silêncio em prece e ritos,
na fé de um não sei quê devo encontrar.
Minha alma cruza o espelho das mandalas,
liberta em seu perfume as mil samsaras
e chega enfim à fonte das moneras.
E vendo as mãos de Deus, sem crer tocá-las,
compreende a dor do mundo em cinco escaras
e sangra em mito o amor que cria as Eras!
Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo