Noite serena de suavinstantes. Convido-me a fazer um promenade em meu jardim. A fogueirarmada, pronta me espera para ser acesa. Sinto o toque transparente das brumâncias, o floripôndio senhor-dama da noite forra de perfumalfombra o todo reservado do jardim. Eu chamo os meus morcegos. Comparecem em bando, tecem revoada em torno de mim, fazem dançar a capa que me cobre. Eles obedecem ao comando de meu primeirarcano, silvam em desafios pelo ar, revelam consciências que me vêem, e vejo neles as consciências que me têm.
Acendo o fogo. Fiat Lux. Subo às alturas. Clarilumino as profundezas, salas escuras que se abrem. Penetro nas criptas do silêncio, atravesso por passagens piromânticas e chego ao centro enluarado do castelo. As Gárgulas montam guarda pelas torres, andam pelos cantos, não se aproximam do fogo diante do qual eu me sento, e descalço piso o húmus do qual sou feito e deixo queimar dentro de mim o transmutável possível, a própria parte que me espera e que me pede um fogonesto de clareza e de verdade, capaz de me ensinar a ser eu mesmo, a usar as próprias mãos para dar conta da missão que busco compreender e realizar nesta existência. E para tanto, é preciso estar na posse de meu nome, na posse do segredo de mim mesmo. Por isso, segue o signo:

Humilbrasas - foto de Andréa Camargo
HUMILBRASAS
Eu chamo meus morcegos. Revoada
deles traz o mistério a decifrar,
e ousando compreender o som-ruflar,
me abismo no segredo em tudo ou nada.
Alcanço as consciências sem pensar,
nas asas dos quirópteros vejo a estrada,
mergulho no profundo céu de almada,
visito meus castelos ao luar.
Acendo então na pira da existência
a sagrada fogueira da vaidade
que varre deste meu ego as montanhas,
excessos que me cegam desdentranhas
e, ao fim, resto-me em brasas transparência,
carbono de mim mesmo na humildade!
Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo