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Sobre os Dias e a Velhice

 

SOBRE OS DIAS E A VELHICE

 Texto de Paulo Urban 

Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento

 

Muito importante que aproveitemos o tempo que nos é dado em nossas vidas. Às vezes, amarrados ao passado, ora ansiosos com o porvir, corremos o risco de nos deixar levar por preocupações que nos descentralizam do único instante que nos prende à roda da vida: o presente. Por isso se chama presente: é uma graça que nos é ofertada, uma chance a ser aproveitada com sabedoria.

Retrato de uma Anciã, óleo sobre bronze de Balthasar Denner (1685-1749)

Retrato de uma Anciã, óleo sobre bronze de Balthasar Denner (1685-1749)

“Carpe Diem quam minima credula postero“, é a expressão usada por Horácio (65 – 8a.C.), poeta latino (Oda I; 11,8) que nos convoca a “aproveitar os dias, posto não ser prudente confiar no amanhã”. Afinal, somos seres temporâneos, centelhas de brasa a arder na fogueira da existência; somos como velas luminosas, queimando individualmente, ao longo dos anos, a justa quantidade de cera que nos cabe.

Iludidos quanto à natureza das coisas, chegamos a crer que vivemos enraizados sobre o solo seguro de um planeta que, à primeira vista, parece estar parado. Percebemos mais claramente seu movimento quando vemos o dia transformar-se em noite, para em seguida a noite dar lugar a um novo dia. Assim é o tempo em nossas vidas; infelizmente, costumamos dar conta de sua passagem apenas ao alcançarmos a velhice, quando então, via de regra, lamentamos o tanto de chances e oportunidades que desperdiçamos ao longo dos anos vividos, esbanjados numa juventude que não volta mais.

Felizes os que atingem a idade longeva mantendo nos olhos o brilho dos enxergam o presente como amigo, próprio dos que não se ressentem pelo passado nem temem o que possa trazer o futuro, dos que aprenderam ao longo dos anos a aproveitar a vida sem culpa ou arrependimentos. A velhice, nesse sentido, torna-se uma das estações mais lindas, tempo de colheita interior. Mas para alcançarmos com lucidez e mestria esse campo de benesses, é preciso semear desde o início. Essa semeadura começa na tenra ingenuidade da infância, de onde seguimos oferecendo préstimos à vida por toda entusiasmante juventude, também ao longo das severas épocas de estiagem que nos fazem percorrer a maturidade dos anos.

Por isso tudo é que vale a pena o compromisso com o presente. Só ele nos oferece a chance de fazermos a coisa certa: exige que escolhamos bem nossos passos ao longo do caminho para estarmos sempre à altura do destino que nos chama, pede ainda que nos desculpemos pelos erros cometidos, e que nos comprometamos com nossa missão terrena, a fim de exercê-la com disciplina. E será assim que, enfrentando os percalços da vida, cada alma peregrina se aprimora e evolui, refletindo sempre em si o brilho da luz divina de que somos essencialmente dotados.

A luz d’alma, entretanto, nunca envelhece. Renova-se em sua jovial beleza a cada sorriso dado ou conquistado, a cada sentimento puro que saiba conceber, aspirando à benção divina por meio da ascese rumo a transcendência, estado esse em que a alma se permite vislumbrar seu traço de imortalidade. Quando aprendemos a contemplar a impermanência da vida terrena, reconhecemos o sagrado movimento da roda de samsara em sua singularidade; quando permitimos ao mago dervixe interior girar sobre si mesmo dançando em liberdade, nem o tempo nem a velhice nos serão mais obstáculos. Nesse momento, aprendemos a sorrir de coração aberto para a experiência transformadora do amor e nos deixamos tocar pela sabedoria que nos ensina a aproveitar sem paixões nem sofrimento a Luz Maior da consciência que, naturalmente, nos é ofertada a cada dia. Carpe lucem!

2 Comments

  1. Olá, Paulo; encaminhei está matéria a alguns amigos através de link.
    Espero que venham fazer-lhe uma visita e conhecer melhor este seu excelente espaço.
    Um abraço, Eloísa.

  2. Lúcia Zenite disse:

    “A velhice não é razão para lástima;
    lastima aquele que é velho, tendo vivido em vão.
    A morte não é causa de tristeza;
    triste é que alguém morra sem proveito para o mundo”.

    (epigramas chineses, anônimo, manuscrito séc. XVII, “Conversa de uma Noite”).

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