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As Profecias de São Malaquias

AS PROFECIAS DE SÃO MALAQUIAS

Texto de Paulo Urban, concluído em 16 de abril de 2005, no interregno entre o falecimento do Papa João Paulo II e a eleição de seu sucessor, Papa Bento XVI.  

Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento

Basilica S. Pedro2.abobada.0.27

Mais antigas, menos famosas e muito mais precisas que as profecias de Nostradamus, são as profecias de São Malaquias (1094–1148), monge irlandês que predisse numa hermética e contundente seqüência, em acurada ordem cronológica, a identidade dos 112 papas que se seguiriam no cetro de Roma desde seu contemporâneo Celestino II (1143-1144) até nossos dias e além. Não muito além, entretanto, posto que restam apenas dois nomes a partir de João Paulo II que nos separam do sinistro fim de sua lista.

Malaquias, cujo nome provém do hebraico Malak-Javeh, a significar “mensageiro de Deus”, atribui a cada um dos nomes de sua listagem uma epígrafe latina composta por duas, três ou quatro palavras, pelas quais revela, quase sempre com incrível precisão, detalhes acerca dos nomes, das origens, do local de nascimento, da heráldica ou das principais características que marcam cada um dos Sumos Pontífices da Igreja.

Basilica S.Pedro1.0.4

Particularmente, uma descrição mais extensa acompanha o derradeiro nome de seu rol, Petrus Romanus, a quem Malaquias dedica estas preocupantes e enigmáticas linhas:

“In persecutione extrema sacrae romanae ecclesiae sadebit Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulationibus; quibus transactis, civitas septis-collis diruetur, et judez tremendus judicabit populum suum. Amen”. (Na perseguição final à Santa Igreja Romana reinará Pedro Romano, que apaziguará seu rebanho em meio a tantas tribulações; e seguinte às mudanças a cidade das sete colinas será destruída, e o Juízo terrível julgará todas as gentes. Amém).

Malaquias O’Morgain nasceu em berço abastado na cidade de Armagh. Pouco se conhece acerca de sua infância e juventude; sabemos, porém, que suas raízes sorveram uma primorosa educação que recebeu de seu pai, erudito em línguas, e de Santo Imar, monge alquimista de quem foi aprendiz e que muito o influenciou para que abraçasse a vida eclesiástica.

Papa Inocencio II.0.4Por volta dos vinte anos foi instalado como pároco de Armagh. Durante os anos seguintes dedicou-se à construção do mosteiro de Ibrach e era tido por sua gente como um homem humilde e devotado, especialmente dotado da Palavra. Em 1124 assumiu o bispado de Connor para ser, pouco adiante, em 1132, promovido ao arcebispado de Armagh. Renunciou, outrossim, em 1138, expressando seu desejo de voltar a ser um simples monge. No ano seguinte fez sua primeira peregrinação à Santa Sé, quando foi recebido com honras pelo papa Inocêncio II (1130–1143) que, após conversa reservada, convenceu-o a assumir o Legado Papal da Irlanda.  É deste ano, 1139, que possivelmente datam as suas profecias.

Papa Eugenio III.0.4

Malaquias ainda peregrinaria em suas missões religiosas por várias partes da Europa, até empreender uma segunda e derradeira viagem a Roma, em 1148, ano para o qual previra há mais de uma década sua própria morte, que segundo ele ocorreria em Clairvaux, num dia de finados. Deveras, retornando de sua entrevista com o papa Eugênio III (1145-1153), dirigiu-se à abadia dessa importante cidade francesa para entregar seu corpo ora débil aos braços de São Bernardo, fundador da Ordem dos Cistercienses e patrono dos Templários, que além de recolher com sobriedade seu último suspiro em 2 de novembro, teria recebido também de suas mãos, oficiosamente, seu manuscrito visionário. Fortemente impressionado, São Bernardo chegou a escrever um prolixo texto a respeito da vida de Malaquias, homem que seria dali a alguns anos, em 1190, o primeiro irlandês formalmente canonizado por ato do papa Clemente III (1187-1191). Papa Clemente III.0.4

Mas as Profecias de São Malaquias tiveram de aguardar pacientemente por mais de três séculos, até o advento da imprensa de tipos móveis, para que se tornassem públicas pela primeira vez, incluídas que foram pelo beneditino francês Arnoldo Wion, ao longo de sete páginas, em sua obra Lignum Vitae (Linha da Vida), impressa em Veneza no ano de 1505. Em outubro de 1590, as epígrafes, ainda inéditas para quase toda a Igreja, sofrem repúdio formal pelo Conclave que elegeu papa Gregório XIV (1590-1591), visto terem sido objeto de manobra política do cardeal Simoncelli que, junto de seus partidários e com base em seu obscuro texto, pressionava seus pares para ser ele próprio o escolhido.

Papa Gregorio XIV.0.4Ainda que as asserções malaquianas dêem margens a metáforas, já que encerram curiosos jogos de palavras em seu emaranhado, incluindo trocadilhos, elas se revelam na maioria das vezes de uma especificidade desconcertante. Ademais, por anunciarem em estrita ordem temporal os Sumo-Pontífices que se sucedem no trono de Roma desde quando escritas, resta-nos mesmo muito difícil duvidar quanto à sua evidente alusão à identidade dos papas a que se referem. Vejamos uma pequena amostra, cerca de 10% do conjunto, escolhida a dedo, suficientemente forte para nos levar a uma instigante reflexão quanto à possibilidade humana de vislumbrar o porvir. Papa Anastacio IV.0.2

Papa Adriano IV.1.0.2

Comecemos por aquele que subiu ao trono imediatamente após a morte de São Malaquias, Anastácio IV (1153-1154), um papa inexpressivo segundo os historiadores.  O santo o denomina pela alcunha latina de Abbas Suburranus (Abade Suburrano). Pois bem, Anastácio, que antes do papado era um simples abade, trazia por nome de batismo Corrado Suburri.  Depois dele veio Adriano IV (1154-1159), apontado como De Rure Albo, isto é, “Do país branco”, ou ainda, “Do país de Albion”, numa alusão à Inglaterra. Mas a profecia aqui parece ser trina, visto que pode ser desdobrada: de fato, Adriano não somente era inglês como havia nascido em Langley, na comarca da Abadia de Santo Albano; além disso, antes de eleito, servira como Legado Papal na Dinamarca, Noruega e Suécia, países nórdicos caracterizados pela permanência de neve em suas paisagens.

Papa Urbano III.0.2

Malaquias contempla em seu elenco também os antipapas, eleitos por trâmites não canônicos, ou aqueles que acabaram por romper com a Cúria, dando origem aos cismas da Igreja, e que mantiveram seus governos espúrios paralelos, reabrindo conseqüentemente a vacuidade do trono de Roma. Alexandre III, por exemplo, que esteve no papado de 1159 a 1181, vem seguido por Lúcio III (1181-1185). Entre os dois, porém, houve nada menos que quatro antipapas: Vítor V (1159-1164), Pascoal III (1164-1168), Calisto III (1168-1177) e Inocêncio III (1179-1180), nomes estes que se encontram alijados do reconhecimento oficial pelo Vaticano. São Malaquias cita-os todos, entretanto, e na seqüência em que vieram; a Calisto III, por exemplo, atribui o estranho cognome De Pannonia Tusciae. Giovanni era o nome leigo de Calisto, natural de Arezzo, mas descendente direto de família húngara natural da Panônia; além disso, havia sido cardeal de Túsculo antes de ser papa. Papa Gregorio IX.1.0.4          

Papa Celestino IV.0.4 A heráldica dos papas, de rica simbologia, é outra das fontes de sincronicidades incrivelmente precisas. Urbano III (1185-1187), sucessor de Lúcio III, é chamado de Sus in Cribo. Uberto Crivelli (nome leigo) trazia em seu brasão a incomum figura de um porco, que se diz sus em latim. Avis Ostiensis é a expressão aplicada a Gregório IX (1227-1241); Ugolino, seu nome antes de eleito, fora cardeal em Ostia e o relevo de seu escudo nobiliárquico ostentava uma ave de rapina. Celestino IV (1241), o papa seguinte, reinou apenas 13 dias de sua eleição até sua morte, e está referendado como Leo Sabinus. Goffredo Castiglioni (nome leigo) era Bispo de Sabina e um leão rampante figurava em seu brasão. 

Papa Joao XXII

Em 1328 a Igreja sofreria um novo cisma, previsto há mais de duzentos anos por São Malaquias. Durante o papado de João XXII (1316-1334), Nicolau V tornou-se protagonista do rompimento com a Igreja de Roma e manteve-se no antipapado até 1330. Pietro Rinalducci (seu nome original) era nascido em Corvaro. Malaquias lhe atribui o incômodo apelido de Corvus Schismaticus! Papa Bento XII.0.4

Bento XII (1334-1342) assumiu o cetro imediatamente após João XXII. Sua alcunha é a de Frigidus Abbas, ou, “abadia frígida”. Surpreendente constatar que Giacomo Fournier fora um simples abade de Fontanafredda, “fonte fria”, antes de ser papa.

Papa Pio II.0.4

Saltemos para Pio II (1458-1464). A este Malaquias chama De Capra et Albergo. Uma profecia com detalhamento cristalino: Enea Sílvio, antes de ser chefe de Roma, houvera secretariado dois importantes cardeais, os monsenhores Capranica e Albergatti. Outra curiosa relação associa-se a Pio III (1503), a quem Malaquias alude como De Parvo Homine, ou, “o homem curto”. Francesco Todeschini (nome de batismo), que se achava muito enfermo quando eleito, só aceitou o papado por sucumbir à pressão política. A profecia aqui também se desdobra: além de seu curtíssimo reinado, 18 dias da posse até a morte, temos que seu sobrenome por parte de mãe era Piccolomini, isto é, “pequeno homem”. Papa Pio III.0.4

Papa Adriano VI.1.0.4

Outra divisa latina que une num só dito nome e brasão do escolhido é a do papa Adriano VI (1522-1523), Leo Florentius, feito Sumo Pontífice à revelia, enquanto atuava como bispo de Tortona. Natural de Utrecht, seu nome batismal era Adriano Florent e em seu brasão havia um leão. Pio VII (1800-1823), Pontífice que coroou Napoleão em Notre Dame, é referendado como Aquila Rapax, expressão que prenuncia com mais de seis séculos de antecedência o rapto do papa, mantido sob custódia até 1814 em Fontainebleau pelo general Radet. O exército de Bonaparte marchava sob o símbolo de uma Águia.

Papa Pio VII.2.0.36                    Papa Pio VII.1

Papa Bento XV.2.0.6

Papa Bento XV

 Mais próximo de nosso tempo, a Bento XV (1914-1922) foi aplicada a admoestadora sentença Religio Depopulata, ou “religião devastada”. Deveras, já no primeiro ano de seu papado, estourou a I Grande Guerra, que provocaria a morte de centenas de milhares de fiéis.

Os treze exemplos apresentados são cabais para que coloquemos São Malaquias entre os maiores profetas da humanidade, tal a precisão cirúrgica da maior parte de suas epígrafes. Não obstante, acerquemo-nos, pois, dos últimos quatro papas, cujas lembranças ainda estão bastante vivas em nossa geração.

Papa Joao XXIII.3.0.36

Papa João XXIII

Ângelo Roncalli, que assumiu como João XXIII (1958-1963), é chamado por Malaquias de Pastor et Nauta, “Pastor e marinheiro”.  Antes de ser escolhido pelo Conclave, vivia em Veneza, cidade marítima, da qual era seu Patriarca e protetor. Considerado um progressista, convocou o 21º Concílio Ecumênico Vaticano II em 1962. Seu tema foi “Vida Litúrgica e Relações Sociais – a Igreja no Mundo Moderno”, e João XXIII escolheu para representá-lo um distintivo que trazia uma cruz e um navio.

A Paulo VI (1963-1978), a quem coube encerrar o Concílio, está relacionada a expressão Flors Florum, ou “flor das flores”. Curiosamente, seu brasão trazia três flores-de-lis.

Papa Paulo VI.3.0.27

Papa Paulo VI

Profecia dupla das mais intrigantes vem associada a João Paulo I, encontrado misteriosamente morto em seu leito, após 33 dias de sua eleição, em 1978. Malaquias o chama De Medietate Lunae, isto é, “a lua intermédia”, ou “média lua”. Ora, a alcunha tanto se aplica ao nome de batismo desse papa, Albino Luciani, uma “alba luz”, como alude ao tempo de seu governo que, da coroação até a morte durou 28 dias, exatamente o tempo médio de uma lunação!

Papa joão Paulo I

Papa João Paulo I

Chegamos a João Paulo II (1978-2005), cujo nome de pia é Karol Wojtyla, primeiro papa não italiano eleito em 456 anos, nascido em Wadowice, Polônia. Em 1938, aos 18 anos, muda-se com seu pai para a Cracóvia. Matricula-se inicialmente no curso de filosofia, mas a ocupação nazista fecha a Universidade e Karol é obrigado a trabalhar como operário numa pedreira. Amante do teatro, prega uma “resistência cultural” por meio da encenação de peças nacionais. Em 1942, percebendo sua vocação para o sacerdócio, ingressa num seminário clandestino. Em 1946, com seu país libertado da Alemanha, mas ora entregue ao regime soviético, é ordenado padre e reza sua primeira missa na Cripta de São Leonardo de Wavel. Em 1958 torna-se bispo auxiliar da Cracóvia; em 1963 alcança o arcebispado da mesma cidade e, no ano seguinte, é nomeado cardeal.

Malaquias reservou a ele o impressionante dístico De Laboris Solis, “do labor do Sol”.  Fácil associar ao dito sua tez muito branca, seu semblante loiro, bem como sua descomunal vontade de irradiar para o mundo todo o brilho das verdades nas quais acreditava piamente. Desde seu alvorecer, quando assumiu o papado (outubro de 1978) aos 58 anos de idade, até seu ocaso, em abril de 2005, João Paulo II percorreu um caminho excelso, determinado e resoluto. Nem mesmo o atentado de 1981, no qual foi alvejado por três tiros disparados pelo turco Mehmet Ali Agca, interrompeu sua marcha em prol do entendimento humano. Foram 104 viagens internacionais e quase mil encontros com os grandes dirigentes, em nome da união dos povos e da tolerância entre as religiões. João Paulo II assistiu durante seus quase 27 anos como “servo de Deus” (o segundo papado mais longo da história) aos maiores impasses da humanidade; havendo sofrido na pele a experiência das guerras, teve alma magnânima para lutar com consciência pela paz sem fronteiras. O zênite de seu caminho real acha-se inequivocamente marcado por seu decisivo papel nas transformações políticas que culminaram por libertar a Polônia e o leste europeu do jugo soviético, e que, num fenômeno em cascata, derrubaram o sinistro muro de Berlim, ícone de um regime comunista opressor, mantenedor na prática das piores misérias sociais. Por outro lado, João Paulo II também é tido como um dos maiores críticos do capitalismo, que em sua volúpia explora o homem universalmente e promove uma canibal devastação neste ferido Planeta, nunca tão ameaçado de auto-extinção como em nossa época.

Papa João Paulo II.8.0.25

Não bastasse a clara imagem de Homem-Sol deste papa, convém lembrar que a Cracóvia, cidade em que a vida religiosa de João Paulo II se fundamentou, é berço também do sistema heliocêntrico, formulado no século XVI pelo monge Nicolau Copérnico, cujo “trabalho sobre o sol e os planetas” substituiu o ultrapassado modelo cosmológico de Ptolomeu. Outra dupla profecia!

Diante de tão inusitadas associações, o que poderíamos conjeturar a respeito dos próximos dois nomes que nos separam das graves linhas de São Malaquias? Ao próximo eleito reserva-se a epígrafe Gloria Olivae. Como vimos, o profeta costuma referir-se ao nome leigo do escolhido, ao brasão, às ascendências familiares, ou busca traduzir algo nitidamente associado à história eclesiástica pregressa do Pontífice. Por vezes, somente o transcorrer do papado é que nos habilita a compreender melhor o sentido de seus vaticínios. 

Voltemos à descrição atribuída àquele que presumivelmente se chamará Pedro II, ou que de algum modo específico, geralmente surpreendente, terá seu papel ligado à figura de São Pedro, primeiro chefe e fundador da Igreja. Roma, chamada de “a cidade das sete colinas”, ao que parece, será destruída. Muitos intérpretes que viveram o período da guerra fria chegaram a crer que seria a Rússia o algoz de Roma, e que o catolicismo sucumbiria diante das forças militares do totalitarismo soviético. Fosse esta a profecia, João Paulo II já teria mudado às avessas o trágico futuro, a propósito, um contra-senso se levarmos em conta que o cristianismo primitivo se fortaleceu justamente devido à perseguição romana.

Papa Pio X

Papa Pio X

É sabido também que Pio X (1903-1914), numa de suas audiências, foi tomado por uma espécie de transe; cerrou os olhos por uns momentos e, ao abri-los, exclamou: “Serei eu ou meu sucessor? O que vejo é terrível! O papa saindo de Roma e caminhando sobre cadáveres de seus sacerdotes!” Tal versão oficiosa confere de certo modo com o tão alardeado 3º segredo de Fátima, que, por sua vez, revelou-nos o próprio Vaticano em junho de 2000, referia-se ao atentado que sofreu o papa, em 1981.

Pensemos ainda que a visão final de São Malaquias possa referir-se não propriamente ao fim do mundo, mas ao término de um ciclo da Igreja romana, tal qual hoje ela se encontra constituída, e que Pedro II venha a reinar durante um crítico processo de transformações radicais, instituindo novos conceitos em detrimento dos dogmas ancestrais católicos. Afinal, duro paradoxo constatar que João Paulo II, com toda a sua generosidade de alma, tenha sido uma luz cega diante da questão do aborto e de sua realidade no panorama da miséria social, e que tenha se mantido retrógrado em relação ao simples uso de um preservativo diante das epidemias sexualmente transmissíveis, como a SIDA.

Papa João Paulo II.2.0.35Por um lado, o papa Sol teve a hombridade de se desculpar publicamente pela mácula histórica da Santa Inquisição bem como pela omissão quase absoluta dos católicos durante o holocausto dos judeus dizimados por Hitler. Foi ainda o único Pontífice a entrar numa mesquita (Damasco, Síria, maio/2001), e o fez descalço, segundo roga a tradição; também o primeiro a depositar, um ano antes, sua oração no Muro das Lamentações em Jerusalém. Por outro lado, João Paulo II é autor do Lexicon, obra lapidar de 900 páginas que retrata o pensamento da Igreja a respeito da contracepção, do aborto, da sexualidade e que, sobretudo, enaltece a família. O Lexicon recomenda a abstinência sexual para evitar a SIDA e coloca os homossexuais como desajustados psíquicos e pecadores diante de Deus. Ironia do destino, João Paulo II viu-se obrigado a lidar já no final de seu governo com a pior das saias justas: a pedofilia no âmbito eclesiástico, denunciada primeiramente na depravada sociedade estadunidense, algo que depois se revelou presente na Igreja de vários países.

Sinto-me, por conta disto tudo, tentado a interpretar (não sem o direito de errar) o que seja a expressão Gloria Olivae a designar nosso próximo Pontífice. A primeira imagem que me sobrevêm é a do Horto das Oliveiras, local onde Jesus rezou e anteviu que o sagrado propósito de sua missão só seria perpetuado por seu próprio sacrifício. Quem sabe não esteja aí uma das chaves: vejo o penúltimo papa de Malaquias sobressaltado por dúvidas existenciais terríveis, tendo de decidir acerca de desígnios cósmicos que fogem por completo à sua humana vontade.  Qual o sacrifício que dele se espera, proporcionalmente tão profundo quanto aquele a que se entregou o mestre Jesus? Quais orações poderíamos conceber para um homem colocado no lugar de um santo, atirado ao Horto de sua noite dolorosa enquanto sente o inevitável aproximar do calvário e da ressurreição? Será Pedro II o derradeiro chefe da Igreja ou o arauto missionário de uma Nova Era em que a consciência planetária, transpondo os limites dos dogmas, possa verdadeiramente banhar-se plena na Glória de Deus?

Uma coisa é certa: há muitas estátuas de bronze com pés de barro, erguidas pelo mundo ao longo da história da humanidade. O muro de Berlim caiu num só dia, quando ninguém até a véspera imaginava que isso aconteceria de modo tão abrupto. A Igreja católica, melhor dizendo, todas as demais religiões estanques e dogmáticas como o judaísmo, ou mais fundamentalistas como o islamismo, também as mais desprovidas de espiritualidade, cujos ritos são vazios, como o são sem exceção os movimentos evangélicos e protestantes, tudo pode ruir a um só tempo.

A Libertação

A Libertação - óleo sobre tela de Eduardo Vilela (expressando a transformação e a superação de todos os dogmas em prol de uma Nova Consciência)

Qual será o simples golpe capaz de derrubar tudo de uma vez? Não o sei. Os mais entusiasmados são igualmente os mais ridicularizados quando crêem que um contato ufológico possa encarregar-se disso. Muitos advogam que tal contato já ocorreu muitas vezes, em que pese a contumaz negativa das autoridades quanto a isto. De fato, uma experiência humana de contato com seres de outros mundos e galáxias arruinaria as bases das religiões tradicionalmente dogmáticas, dessas que reúnem milhões de ovelhas prestando culto a um Deus personalizado. Mas o ego humano segue a determinação de, sempre que possível, enganar-se a si próprio. Lembremos que faz só 500 anos que o homem descobriu que seu mundo não era plano e que havia gente inteligente do outro lado do planeta. Esses, entretanto, a Igreja soube conquistar e chacinar em nome de Cristo. Também somente há 500 anos aceitamos que a Terra não fosse o centro do universo, bem depois da Inquisição ter queimado os hereges que nisso acreditavam. Há 100 anos somente, Freud nos mostrou que o ego está longe de ser o dono do teatro da alma. Mas a prepotência egóica continua carente de luz e vive temerosa na culpa fomentada pelas religiões institucionais. 

Isto posto, pergunto-me se a ruína da Igreja romana de que nos fala Malaquias não seria símbolo da formidável transformação que a consciência humana, em sua verdadeira religiosidade, absolutamente livre de preconceitos, preconiza. Afinal, o caminho trilhado por Cristo é o mesmo de Buda, de Krishna e de outros iluminados. Suponho que esteja dentro de nós a pedra sobre a qual podemos edificar uma Igreja mais legítima, centrada sobre a paz universal sem divisas, em torno de uma espiritualidade sem donos. Quem sabe não sejamos todos nós, coletivamente, e cada qual dentro de si, mais profundamente, os Petrus Romanos em busca da real experiência divina de libertação da alma. É chegada a hora de pôr fim às ilusões e entendermos melhor o sentido daquilo que Jesus disse a Lázaro: “Levanta-te e anda!”. A assertiva nunca serviu tanto para o planeta inteiro, que segue adoentado, machucado em sua auto-estima, desconhecedor de seus potenciais, sentado numa cadeira de rodas, esperando por sinais apocalípticos que venham dos céus, enquanto não enxerga que o fim dos tempos vem sendo dia a dia decretado por sua própria e cega estupidez, principalmente devido à sua omissão diante dos funestos acontecimentos cotidianos, próprios de uma sociedade humana psiquicamente equivocada.

Só caminharemos de fato para o necessário vórtice de mutação psico-social se nos apropriarmos com justiça de nossas duas pernas. Só alcançaremos a catedral da alma se peregrinarmos pela verdadeira senda da individuação. Isto porque toda consciência que busque a transcendência jamais deveria deixar-se prender por qualquer dogma. A experiência do divino só é real quando arquetípica, só transforma se é sentida numa instância “visceranímica”, e corresponde a uma função evolutiva e libertária, inalcançável até mesmo pelos mais honestos catecismos.

Papa João Paulo II.6.0.28

Não devemos ter medo das profecias. Se elas são mais ou menos precisas pouco importa; São Malaquias à sua maneira nos oferece uma contribuição preciosa para que reflitamos mais profundamente acerca da sobrevivência da espécie humana num planeta que precisa urgentemente voltar a ser ecologicamente saudável.

Uma coisa, entretanto, posso dizer sem o mínimo receio de errar: o Armagedon já começou. Faz tempo! A “batalha final” entre a Luz e as Trevas já vem sendo travada sob nosso nariz. Somente os cegos de espírito ainda não se aperceberam dela. Estamos sendo conclamados a salvar nosso planeta; cabe a nós, seres humanos, uma responsabilidade tão vital quanto a experiência de Jesus na cruz: é preciso que cheguemos ao “Pai” pelo genuíno resgate da Consciência Crística; fácil notar, infelizmente, que nenhuma religião dogmática até hoje entendeu o que é isso!

O emocionante funeral de João Paulo II, que levou mais de um milhão de fiéis à Praça de São Pedro, para mim é a culminância social de um arquétipo de potencial extremo. Não à toa a multidão consternada gritava “Santo subito”. No inconsciente coletivo se constela a certeza de que a Era de Aquário traz valores revolucionários no âmbito da espiritualidade humana. O rosto de martírio de João Paulo II, mostrado ao mundo todo através da janela de seu quarto no Vaticano, agonizando seus últimos momentos, é símbolo claro dos valores que devem ser com toda honra e dignidade enterrados. Não é somente um papa que está morto, mas toda uma Era de patriarcado islâmico e judaico-cristão, que sobreviveu à custa do medo infringido aos fiéis, inspirado na idéia de um Deus irascível, capaz até de castigar. Cristianismo, judaísmo e islamismo têm algo de muito triste em comum: seguem há milênios equilibrando-se sobre a sagrada trípode da culpa, dor e sofrimento; além disso, adoram a um Deus sempre incompleto, posto que renegam milenarmente a essência feminina igualmente presente na divindade, e projetam nas mulheres, vistas como subalternas, esta própria imperfeição espiritual. 

Papa João Paulo II.5.0.27

 A grande profecia da Era de Aquário já bate à nossa porta e anuncia a integração entre o humano e o divino, entre a matéria e o espírito, do sagrado com o profano, e vem para fazer justiça a uma divindade impessoal e plena, que encerre em si a conjunção dos opostos, capaz de assimilar o mal e transformá-lo sem a hipocrisia de negá-lo, capaz de assimilar também seu complemento feminino, como sempre propuseram os alquimistas.

Basilica S. Pedro3.0.4

O Reino dos Céus espera pelo sublime momento de dar seu beijo de núpcias sobre a Terra; a propósito, foi por meio deste gesto que João Paulo II nos ensinou a reverenciar o outro e a aceitar as suas diferenças. Oriente e Ocidente têm pela primeira vez chances reais de entendimento e de enriquecimento mútuo, desde que derrubem os seus velhos preconceitos dogmáticos e aceitem a anunciação da Nova Consciência: a de um só Deus universal, pronto para ressuscitar bem vivo em nossos corações! Não sei, entretanto, se chegaremos a esse dia; de qualquer modo, as tribulações previstas por São Malaquias já são presentes em Roma e tocam suas trombetas Urbi et orbi! (Da cidade – Roma – para o mundo).

(São Paulo, 16 de abril de 2005). 

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San Paolo Fuori Le Mura2.0.28

Curiosidade: A Basílica de “San Paolo Fuori le Mura”, maior Igreja de Roma excetuando-se a Basílica de San Pietro, e que recebe este nome por estar situada do lado externo da muralha cujo perímetro delimita Roma antiga, traz ao longo de sua nave, no alto e de ambos os lados, acima dos arcos e colunas e abaixo dos vitrais, a seqüência completa dos “medalhões”; retratos de todos os papas desde São Pedro, feitos em mosaicos cujos diâmetros têm 1,90m.  Curiosamente, após o medalhão de João Paulo II, só há espaço para a colocação de outros dois retratos. Santa sincronicidade!

One Comment

  1. gloria leonilda furtado pereira disse:

    adorei

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