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Amor & Psiquismo

  AMOR E PSIQUISMO

Texto de Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento  

Eros e Psique, mármore de Antonio Canova (1757-1822) - detalhe         

Pergunto a meu leitor: fosse convidado a falar sobre o amor num jantar, o que faria? O que diria aos presentes? Afinal, o que vem a ser, em essência, o amor? Mesma pergunta fazia-se Sócrates, sábio grego, durante um banquete, há 2500 anos. Claro, estamos longe de resolver a questão e, talvez, definir o amor seja impossível.

O fato é que, dotados de razão, temos plena consciência de como nossa existência é breve, e do quanto a solidão pode fazer parte dela. Talvez, por isso, a natureza humana tenha inventado o amor, numa tentativa de dar aos outros aquilo de que mais temos necessidade, a preencher magicamente essa nossa falta essencial. Ou talvez seja a amor quem nos tenha criado, e por capricho emprestado à nossa alma a chance de experimentá-lo. 

Cupido e Psyque; Antonio Canova, marmore.det. (1757-1822)Eros e Psique, respectivamente, são entidades mitológicas que personificam o amor e a alma. No idioma grego éros provém do verbo érasthai, que significa “desejar ardentemente”, e alma forma-se a partir de psýkhein, cujo sentido é o de “sopro de vida”.

Curiosamente, o deus do amor não toma parte das epopéias de Homero (Ilíada e Odisséia), mas faz-se presente dali a algumas décadas na Teogonia, escrita nos fins do séc. VIII a.C. por Hesíodo, poeta camponês beócio. Até então, Eros era cultuado na Beócia apenas como agente fecundador dos animais e propiciador dos matrimônios, mas o poeta o transformará num deus primordial, a conferir com as cosmogonias mais arcaicas oriundas de outras regiões da Magna Grécia.

“No princípio era o Caos”, diz o poeta; “de onde surgiu Gaia, a Terra, de largos flancos, base segura para todos os seres, e Eros, o mais belo dentre os imortais, capaz de desequilibrar os membros e de subjugar no peito de todos os homens e deuses o coração e a sábia vontade.” (…) “A Terra, então, engendrou Urano, o Céu Estrelado, capaz de cobri-la por inteiro e de oferecer aos deuses sua base para sempre.” Nos versos seguintes, a Teogonia nos revela que devido à presença de Eros, o amor universal, Gaia apaixona-se por Urano, e o abraça até ser fecundada, gerando muitos filhos e povoando toda a Terra.

Genealogia tríplice de Eros.0.32

Em sua concepção, Hesíodo não só enriquece as antigas versões da Criação, esparsas pela tradição grega, como sistematiza toda a genealogia dos deuses em torno do Amor, força primordial de atração, capaz por si só de justificar a união entre os seres e suas gerações.

Numa variante órfica, por exemplo, Caos e Nix (a Noite) é que estão na fonte cósmica; Nix põe então um ovo do qual nasce Eros; este, ao romper a casca em duas metades, faz nascer Gaia e Urano. Embora assuma distintas genealogias, quase invariavelmente Eros traz esse aspecto de potência vital do cosmos e transmite a toda e qualquer união sexual o padrão da primeira hierogamia (casamento divino), o enlace entre Céu e Terra, de onde derivam todas as formas viventes.

Eros e Psique - I Ching

O I Ching, livro milenar de sabedoria taoísta, nos diz que “quando essa penetração recíproca se opera, Céu e Terra se harmonizam e todas as dez mil coisas se produzem”. É o signo da conjunção dos opostos, da união entre pares que se completam, yin e yang que se fecundam mutuamente.

No Brahmanismo encontramos o mesmo dinamismo na representação de Shiva-Shákti, divindade hermafrodita cujo aspecto masculino (Shiva) está perenemente se fundindo ao de sua consorte. Shiva, conforme dança, transforma-se em Shákti ao mesmo tempo que esta volta a ser Shiva, buscando reencontrar a unidade original por detrás da androginia.  

Hesíodo influenciou Parmênides de Eléia, séc. VI a.C., o primeiro racionalista da filosofia ocidental. Em Sobre a Natureza, Parmênides traça dois caminhos: o do Ser, ou da Verdade, a única realidade que existe, e o da Opinião, centrado nos sentidos e aparências. Sua segunda via está constituída por dois princípios: Luz e Trevas, de onde todas as formas aparentes se originam, sempre mescladas pela única força capaz de unir os princípios opostos fundamentais: o amor.

Cupido, Mercúrio e Vênus; Correggio (1489-1534)

Cupido, Mercúrio e Vênus; Correggio (1489-1534)

Outro filósofo, Empédocles de Agrigento, séc. V a.C., ao retornar da Sicília envolto por idéias da Escola pitagórica, tentou unir num único sistema a “filosofia do Ser” de Parmênides com a “do devir” de Heráclito, que lhe fazia direta oposição. Para este último, o conflito é o pai de todas as mudanças, e a vida, numa alegoria, nada mais é que o resultado da tensão entre o arco e sua corda. Empédocles imaginou então o cosmos como uma esfera absoluta e fechada, homenagem ao Ser de Parmênides, mas pôs nela o conflito de Heráclito, fazendo de Philia, outro nome para o amor, e neikos, o ódio, as forças opostas e complementares inerentes aos quatro elementos (água, fogo, terra e ar) que, misturados entre si, geram todas as coisas mutáveis da vida.      

Mas dentre os antigos, foi Platão (428–347 a.C.), sem dúvida, quem mais se dedicou a discutir o amor, tornando-o um dos pontos fulcrais de seu sistema filosófico. Toda a sua Obra procura estabelecer a via de relação entre o mundo incorpóreo e perfeito das idéias e o plano material das coisas sensíveis, ao qual estamos presos, em meio às meras imitações das formas puras. Se, por um lado, Platão revela ser a dialética o exercício capaz de nos alçar deste mundo denso das opiniões ao sublime mundo das idéias, em seu diálogo O Banquete, o filósofo nos oferece uma nova perspectiva para este salto evolutivo. Propõe que pela ascese erótica cheguemos a essa contemplação, pois a alma, quando quer que se deixe levar pelo amor, vislumbra a própria divindade. Eros é, pois, o mediador entre as vicissitudes da realidade imediata e as verdades transcendentes.

Sócrates - busto em mármore, c.150 a.C.

Sócrates - busto em mármore, c.150 a.C.

Em 416 a.C., numa festa na casa de Agaton, que comemorava um prêmio recebido por uma de suas Tragédias, os convidados se propõem a competir discursando sobre o amor. Fedro de Mirrinote, primeiro a falar, mostra o amor como o mais bondoso dos deuses; Pausânias, em seguida, distingue o amor sexual do espiritual; e o médico Erixímaco trata o amor como uma força organizadora do cosmos. O comediante Aristófanes narra então um mito acerca dos andróginos e a separação dos sexos, e é seguido pelo anfitrião, que se põe a louvar deus Eros, enaltecendo sua beleza, vendo-o como fonte de inspiração. Convidado especial do banquete, cabe a Sócrates falar por último. “Não poderei fazê-lo”, ele diz, argumentando não reunir talento para tanto diante de tudo que já fora exposto. Mas os presentes, inconformados, cobram dele uma opinião. Ponderando, o sábio diz que falará então à sua maneira, sem fazer elogios e sem querer competir. Aplica então a maiêutica aos discursos apresentados, pergunta a todos sobre a verdadeira essência do amor e, evidentemente, ninguém sabe defini-la.

Sócrates introduz então um mito que diz ter ouvido da sacerdotisa Diotima de Mantinéia: quando nasceu Afrodite, os deuses banqueteavam no Olimpo; mas haviam se esquecido de convidar Penúria, deusa da pobreza, que, após a festa, miserável e faminta, veio à caça dos restos enquanto todos dormiam. Nisso encontrou Poros, deus dos recursos, embriagado e prostrado no jardim dos deuses. Deitou-se com ele, e concebeu Eros. “Eis porque o Amor se tornou amante do belo e servo de Afrodite, pois foi gerado em seu dia natalício”, explica Sócrates. Assim como sua mãe, o amor vive faminto e sedento, deseja preencher-se; como o pai, encontra sempre expediente para alcançar o que deseja. 

O mito revela uma grande lição: amar é desejar o que nos completa, é a possibilidade de preenchimento pleno, uma busca pela perfeição. O amor se vale de todos os recursos para aplacar a dor da falta, e procura pela forma pura e perfeita. Amar é desejar o belo em sua essência, para além do mundo das ilusões. Mas onde se encontra a beleza no mundo das formas corpóreas? O que de fato amamos quando amamos as coisas belas? São perguntas que decorrem do discurso socrático. Ora, nos corpos físicos, a união do amor gera a imortalidade dos pais nos rostos de seus filhos, e nas almas belas o amor floresce em pensamentos e atitudes com sua beleza compatíveis.

Vênus e Cupido; de Bronzino, The National Gallery of London

Vênus e Cupido; de Bronzino, The National Gallery of London

Por esse mito fica evidente o quanto Platão procurava romper com a tendência de se enxergar Eros como um deus primordial todo poderoso. Uma das conquistas de sua Academia foi “baixá-lo” no Olimpo, trazendo o amor para uma realidade bem mais próxima dos humanos. O leitor, portanto, sinta-se convidado ao banquete de Platão. Ainda que não saiba definir o amor, que sorva cada gota de seu néctar, experimente de todos os seus pratos e participe da alegria dos presentes. Talvez por isso os gregos reservem um mesmo termo, ágape, para designar tanto os banquetes como o amor fraternal.   

Com o passar dos séculos, novas genealogias para o Amor surgiram. Umas têm Eros como filho de Hermes e Ártemis, outras lhe emprestam a paternidade do casal Ares e Afrodite; noutras fontes ele tem ainda um irmão que é seu contrário, chamado Anteros.

Mas foi o poeta latino Lúcio Apuleio (125-170 d.C.) quem compôs pela primeira vez a estória de amor entre Eros e Psique. Seu relato busca raízes na mitologia e (re)vela o cerne da doutrina platônica, ensinando-nos que a alma só pode ser feliz quando transformada pelo amor. Amplamente difundida, a versão de Apuleio tem servido pelos séculos como fonte de inspiração a escultores, pintores, literatos e músicos que imortalizam Eros e Psique em suas obras.

Passemos juntos brevemente por algumas cenas do mito, na impossibilidade de tratarmos aqui de todas as suas nuances.

Eros; detalhe de óleo sobre tela de Parmigiano (1503-1540)

Eros; detalhe de óleo sobre tela de Parmigiano (1503-1540)

Um rei e uma rainha tinham três filhas. As duas mais velhas, embora bonitas, não despertavam nos homens a paixão arrebatadora que lhes causava Psique, a princesa mais jovem, dotada de descomunal beleza. Julgando-se incapazes de pedi-la em casamento, por considerá-la divina, os homens passaram a fazer-lhe oferendas, com o que se esvaziaram os templos consagrados a Afrodite. Menosprezada, a deusa em sua cólera resolve castigar a pobre mortal e ordena a seu filho Eros que a atinja com uma de suas flechas, de modo a fazer com que sua rival se apaixonasse por algum monstro.

Psique levada por Zefiro; John Gibson.0.3

Psique levada por seres alados de Zéfiro, escultura em mármore de John Gibson

Temeroso da ira divina, o casal se antecipara consultando o Oráculo de Apolo em Mileto. O vaticínio fora claro: deviam abandonar a princesa à beira de certo penhasco, de onde ela seria levada por uma terrível criatura. Resignados, os reis cumprem sua pena. Mas Eros, que havia se apaixonado por Psique à primeira vista, dera ordens a Zéfiro, o vento, para que este arrebatasse a moça e a deixasse salva em seu palácio secreto, sem luzes, todo feito de ouro, prata, cedro e marfim. Naquela mesma noite Eros se apresenta à princesa, faz dela sua mulher, mas a proíbe terminantemente de ver sua face, e promete voltar visitá-la todas as noites, sempre coberto pela escuridão. Psique passa a viver seus dias sozinha, cercada apenas por uma multidão de Vozes que lhe atendiam todos os desejos.

Mas a deusa Fama, cujo nome grego significa “divulgar”, revela às irmãs de Psique onde ela se encontra, e ambas resolvem visitá-la. Eros, em seu pressentimento adverte Psique de que alguma desgraça adviria por intermédio de suas irmãs, mas a esposa, saudosa demais, consegue convencê-lo a recebê-las no palácio. Eros cede, mas exige que Psique renove a promessa de nunca desejar ver seu rosto, mesmo que as irmãs a convençam do contrário.

Psique no Palácio de Eros.0.35

O encontro a princípio foi só deslumbramento, mas aos poucos a inveja das irmãs preteridas pelo destino se transforma em desejo de vingança. Numa segunda visita, estando Psique grávida, as irmãs passam a envenená-la dizendo que seu marido não poderia nunca ser um homem, senão uma serpente de mil anéis que apenas esperava pelo oportuno momento para devorá-la junto com a criança concebida em seu ventre. Dão a ela uma lâmpada a óleo e uma adaga, e insistem para que à noite, depois de se amarem, tão logo o marido dormisse, ela iluminasse sua face e o matasse caso constatasse estar deitando com um monstro. Eros e Psique.0.35

Angustiada, Psique segue à risca os terríveis conselhos. Com a adaga numa das mãos e a lâmpada na outra, aproxima-se e ilumina o rosto de seu amo. Hipnotizada diante de divina beleza, treme e cai de joelhos, ferindo-se numa flecha do marido guardada ao lado do leito, ao mesmo tempo que derrama óleo quente sobre o ombro do amado. Com um grito de dor, Eros acorda e seu semblante se entristece; sem dizer palavra, sobe e desaparece nas nuvens, separando-se de Psique, agora mais do que nunca ferida pela paixão eterna. Mas não tema o leitor; em nome do amor, nosso mito acabará bem.

Psique levada por Zefiro; detalhe - John Gibson.0.45

Psique de John Gibson, aqui em detalhe

Eros retorna para junto de Afrodite, para que esta lhe curasse sua ferida. A deusa descobre então que vinha sendo traída pelo filho e se enfurece. Psique, por sua vez, procurando resgatar o amor perdido, oferece-se como escrava de Afrodite. A deusa, disposta a humilhá-la, promete-lhe seu filho em troca de quatro tarefas impossíveis. Primeiramente pede-lhe que separe por espécie numa só noite uma enorme quantidade de grãos de trigo, cevada, milho, lentilhas, favas etc… Ajudada por um batalhão de formigas, Psique consegue o feito. Irritada, Afrodite pede então a Psique que lhe traga flocos de lã de ouro de ovelhas selvagens venenosas. Um caniço verde lhe sopra o que fazer, ensinando-a colher a lã ao entardecer, quando as ovelhas se amansavam num regato em meio aos arbustos, momento em que Psique poderia recolher os flocos presos em seus galhos. Terceira tarefa: buscar água da nascente do Estige, no alto de um rochedo guardado por terríveis dragões. Desta vez será uma águia quem virá em sua ajuda, oferecendo-lhe uma jarra cheia d’água dessa fonte. Afrodite quase enlouquece, e cobra-lhe um último castigo. Exige que entre no Hades, reino dos mortos, para que fosse buscar com Perséfone uma caixinha com o pó da juventude. Uma torre aconselha Psique quanto às armadilhas do percurso, e Psique cumpre bem sua perigosa viagem. Recebe em suas mãos a encomenda, mas já no caminho de volta, não resistindo à idéia de experimentar o pó mágico com o qual ficaria eternamente bela para Eros, abre a caixa, aspira seu conteúdo vazio e… desmaia para sempre num sono profundo.

Ora, e para onde foi o anunciado final feliz?, pergunta-se o leitor. Calma lá, entendamos primeiramente alguns aspectos psicológicos do mito.

Cupidon Pechant; G.Frederick Watts, sepia, 1890.0.5

Cupido Pescando, gravura sépia de G. Frederick Watts, 1890

Interessante notar que conquanto o amor seja divino, a alma, ainda que de nobre estirpe, é humana e mortal. Sua condição especial, entretanto, atrai a ira de Afrodite, deusa do prazer e da beleza, que, distinta de Psique por sua função estanque na ordem do cosmos, não pode evoluir; a ela não foi dada essa chance. Por isso quer banir de sua frente a princesa, representante da beleza anímica capaz de evoluir e transformar-se. Erro primário da deusa, a revelar também a sua imperfeição, foi ter enviado logo o Amor para destruir a vida, algo impossível por acepção natural da virtude.

Eros não só protege Psique como se apaixona por ela, e a prende em seu paraíso idílico, onde a alma passa a viver indiferenciada. O palácio de ouro, prata, cedro e marfim, revela a preciosidade do estado puro da alma que, inconsciente de si mesma, está sozinha. Ela não conhece a fonte de seus prazeres nem aquilo que, oculto pela sombra da noite, lhe faz bem e lhe basta. Ora, são suas irmãs, ícones das forças matriarcais reprimidas, que assumem relevante papel, sem o qual a alma nunca acordaria nem deixaria o Éden da inocência. Elas a forçam a romper os tabus e levam-na à verdadeira experiência da sedução, dirigindo-lhe seus passos. A alma segue à risca sua natural tendência e caminha em direção ao abismo da consciência. A queda nessa nova realidade ocorre quando Psique quebra sua promessa e enxerga o rosto proibido. Em verdade, o que ela vê é sua própria face desconhecida, pois, apesar da falta cometida, ela descobre a beleza em seu ideal e perfeição, enxerga a realidade de que nos fala Sócrates no Banquete. Semelhante situação enfrenta o casal adâmico no Velho Testamento da tradição judaico-cristã, que, por seu pecado, é expulso do Éden. Notemos ainda que Psique se deixou levar por seu temor e sua submissão à imagem de uma serpente de mil anéis, correlata da serpente bíblica.

Psique Recebe o 1º Beijo de Amor; François Girard, tela, 1798

Psique Recebe o 1º Beijo de Amor; François Girard, tela, 1798

À luz da lâmpada, Psique entende que Eros sintetiza a união de seus mundos inferior e superior. Ao vê-lo partir, lança-se na dor do abismo na esperança de recolher-se a si mesma através da viagem que empreenderá ao mundo dos mortos. Auxiliada por sua própria consciência, ela se entregará à grande iniciação, ao processo de morte e renascimento pelo qual sofrerá sua metamorfose. A evolução da consciência acha-se aqui bem demarcada por quatro de seus aspectos que serão assimilados ao longo da jornada: as formigas (instintos primitivos), o caniço (sistema límbico-emocional ou neurovegetativo), a águia (aspecto masculino profundo ou o animus) e a Torre (o feminino oculto ou a anima).

Mas por que fracassa Psique quando tem nas mãos a caixa da imortalidade, estando prestes a vencer o jogo? Ora, ela decide não entregar à Afrodite aquilo que conquistou por meio de seu absoluto e pleno sacrifício. A alma mortal, em conflito com a deusa, inconscientemente aceita atrair para si a maior das desgraças na tentativa extrema de alcançar ela própria a imortalidade, igualando assim sua condição a de seu amado divino. Psique tudo sacrifica pelo Amor, até a própria vida, e por isso é que vence e se transforma.

Eros e Psique; Sir Edward Burne-Jones (1833-1898)

Eros e Psique; Sir Edward Burne-Jones (1833-1898)

Aliviemos a tensão. Eros se aproxima de sua bela adormecida, guarda o sono de novo na caixa, e desperta Psique para levá-la consigo ao Olimpo. Também ele está amadurecido; curado pelo sacrifício da princesa, nada mais precisa fazer às escusas de sua mãe. E o herói vai pedir autorização a Zeus para celebrar seu casamento. A divindade suprema reconhece o esforço da alma evoluída e transformada, e mostra a Afrodite o descabido de seu ciúme, pois Psique agora é transcendente, imortalizou-se em sua grande iniciação, tornando-se digna do banquete dos deuses.

Eros, como todo herói, não foge à sua sina; sempre traz consigo uma alma apaixonada. Fernando Pessoa nos revela essa verdade em sua poesia Eros e Psique: 

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega em sono onde ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
  

Eros e Psique; Antonio Canova, mármore (1757-1822)

Eros e Psique; Antonio Canova, mármore (1757-1822)

4 Comments

  1. Pat Maria Lobo disse:

    Beeeeeelo! Bárbaro. Meu Mito das tripas. Psique é a heroína do Amor. Ralação pesada é conjunção abençoada, né? Não tem o Orixá de cabeça? Pois é…. tem Mito das tripinhas. O Casamento Sagrados dos Belos Amantes é o meu Mito fulcral – de Base. O Mito que zonzeia e lastreia. :-)
    Gratidão,
    Pat Maria

  2. Náo me canso mesmo, Paulo, de vir aqui ler e re sentir de novo. Novo. Toda vez cai de um jeito diferente em minha compreensão. Sempre indico este link para os amigos.
    Um dia quero te conhecer e sentir essa energia maravilhosa da qual recebo
    o impacto toda vez que te leio.

    Abraços.

  3. Parabéns, Paulo Urban, pelo excelente artigo. Uma caminhada profunda e bem fundamentada para se poder conhecer o mito de Eros e Psique e também se pensar sobre o amor.
    Obrigada. abraço

  4. Carmen Regina disse:

    Salve, Poeta!
    Olha eu aqui de novo…
    Falou em amor… corro sempre para este pequeno resort do Eden.

    Gratidão e grande abraço,

    Carmen.,

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