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Um Deus Oculto em Cada Coisa

UM DEUS OCULTO EM CADA COISA

Texto de Paulo Urban, publicado na Revista Planeta, edição nº 378, março/2004

Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento

Os alquimistas, herdeiros do modo de pensar gnóstico, sempre encararam a natureza como a própria divindade, e viam em suas múltiplas manifestações uma espécie de escrita cifrada, algo como um incomensurável criptograma, por trás do qual o Criador pode sempre se ocultar e, ao mesmo tempo, revelar-se de modo sábio e discreto.

ilustração do italiano Gasperi e Uggeri

ilustração do italiano Gasperi e Uggeri

Paracelso (1493-1541), médico suíço, em um de seus inúmeros tratados alquímicos, Paraminum, discorre acerca de sua teoria dos sinais ou das “assinaturas”, segundo a qual cada coisa da natureza, ser vivente ou não, guarda em si traços visíveis e invisíveis de similitude, de modo que tudo no Universo acha-se intimamente relacionado entre si, posto que cada uma de suas partes, desde as mais diminutas células às grandes estruturas, desde o átomo até as estrelas, permeia-se de uma única e mesma essência, perceptível apenas aos olhos argutos dos iniciados, treinados a “ler” esta escrita divina.

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Uma das principais técnicas destinadas a esse propósito era a fisiognomonia (gnomos = conhecimento + phísis = natureza), muito explorada por Paracelso e outros alquimistas de sua época, que consistia em observar as muitas faces da natureza para daí depreender um entendimento das intenções de Deus potencialmente guardadas em cada coisa que se nos apresenta.

Fisiognomonia1.0.39Tal leitura tanto se fazia por meio dos rostos (fisionomia) das pessoas, verdadeiros mapas a estampar nosso caráter, como podia ser abstraída por analogia, de modo mais discreto, a partir das outras infinitas formas segundo as quais a natureza se revela. Com base nisso, Paracelso desenvolveu a tese de que determinadas plantas, dado ao aspecto externo de suas folhas, serviriam preferencialmente ao tratamento de afecções de determinados órgãos, por assemelharem-se ao formato anatômico destes, já que a saúde nada mais é que uma condição de respeito pela harmonia inerente ao Universo, em razão do que todo médico deveria regrar-se em sua terapêutica pelo grande princípio Simila Similibus Curantur, ou seja, “Semelhante cura o semelhante”. Receitar nozes, por exemplo, faria bem ao sistema nervoso, por sua semelhança com o cérebro; feijões preferencialmente seriam protetores de nossos rins, e assim por diante.              

Influenciado amplamente pela Obra paracélsica, o sapateiro filósofo Jacob Boehme (1575-1624), natural de Görlitz, Alemanha, enunciaria em 1622, em sua De Signatura Rerum: “Não existe nenhuma coisa na natureza, criada ou dada à luz, que não revele exteriormente a sua forma interior, porque tudo o que é íntimo tende sempre a manifestar-se (…) como podemos observar e constatar com as estrelas e os elementos, com as criaturas, e com as árvores e as plantas (…). É por isso que a assinatura constitui uma fonte de compreensão, através da qual o homem não só se conhece a si próprio, mas pode reconhecer a quintessência de todos os seres”. 

Jacob Boehme - Coletânea, ed. Madras

Jacob Boehme - Coletânea, ed. Madras

Importa dizer que a cosmologia de Jacob Boehme apresenta esta recorrente idéia ao longo de toda sua Obra, hoje aceita pela física contemporânea, de que a natureza não é um acidente, mas existe para que a partir de nossa interação com ela possamos aprender algo sobre os mistérios da vida e, antes de tudo, sobre nós mesmos.

Consoante isso, conciliando os conceitos a priori antagônicos de unidade e diversidade, escreve o sábio em sua A Aurora Nascente: “O Sol é engendrado e produzido a partir de todas as outras estrelas; ele é a luz extraída da natureza universal e, por sua vez, brilha na natureza deste mundo; está ligado às outras estrelas, de modo a constituir com elas um só astro”. Ora, chega-se a ter a impressão, não soubéssemos a secularidade dos tratados alquímico-filosóficos de Boehme, que estamos diante das teorias quânticas ultramodernas que, diante da imponderabilidade dos fenômenos observados no mundo subatômico, atestam cada vez mais o revolucionário conceito de unicidade da matéria, procurando descrever a natureza como um todo holográfico, no qual todos os fenômenos e forças existentes interagem entre si, desde as infinitésimas partículas até as titânicas entidades cósmicas (por exemplo, os buracos negros) em sua transformação sempiterna.

Jacob Boehme - Escritos Completos Teosóficos

Jacob Boehme - Escritos Completos Teosóficos, 1682

Observemos aqui a palavra universo, cuja terminologia latina se expressa pela aglutinação de unus, que quer dizer “todo, inteiro, pleno” + versus, que se traduz por “voltado para ”, ou “inclinado a”, a nos dar o nítido sentido de que o Universo seja algo cuja natureza esteja propensa a abarcar o todo absoluto, o que reforça, até etimologicamente, a idéia de que a divindade oculta por detrás de tudo seja mesmo um grande e incognoscível holograma, passível de ser essencialmente encontrado em cada uma das infinitas partículas que o compõem; mais que isto, de ser experimentado por todo aquele que em sua ascese espiritual saiba despir-se da barreira egóica e alcançar estados de êxtase místico e transcendência.     

Também o filósofo brasileiro Huberto Rohden (1894-1981)preocupou-se em tratar esta questão. Diz Rohden: “O absoluto só pode ser conhecido pelo relativo em sua relatividade; o infinito só pode ser atingido pelo finito em sua finitude. É inútil discutir este problema. Cada homem deve conhecer e amar o absoluto e o infinito do melhor modo possível. O Uno se reflete necessariamente no Verso como verso, diverso e diversificado, porque a realidade se manifesta sempre como facticidades diversas. E esta é a natureza do Universo Integral, ser Uno no seu ser e Verso no seu existir. Se o Uno fosse apenas unitário, seria monotonia; se o Verso fosse apenas diversitário, seria caos – mas como o Uno é diversitário e o Verso unitário, o Universo é perfeita harmonia. Sendo o homem um universo feito à imagem do macrocosmo, deve a perfeição do homem consistir em perfeita unidade e perfeita diversidade, a revelar a unidade do Eu central na diversidade dos egos periféricos – o Homem Cósmico”.

Baruch Spinoza

Baruch Spinoza

Semelhante pensamento proferiu o filósofo Baruch Spinoza (1632-1677) ao dizer que “Deus é alma do Universo, e o mundo o corpo de Deus”. De fato, curiosamente, o Universo parece ser a grande charada de Deus, que em sua serena magnitude permanece insondável, não obstante as diversas proposições religiosas que julgam a seus respectivos modos explicá-lo, paralelamente aos esforços da física e da filosofia, dentre outros olhares, que se entretêm na imponderável tarefa de decifrá-lo.

Grande verdade, aceita por muitas e milenares culturas, é que Deus, mais do que escrever certo por linhas tortas, conforme roga o ditado, prima sobretudo por deixar-se revelar pelas entrelinhas de tudo quanto escreve. Está na sutileza do Verbo sua força criadora, e não seria profícuo buscá-la senão na realidade transcendente, a mesma que dá suporte a todos os fenômenos que se manifestam em nossa realidade comum, que, em última análise, são sempre derivados de uma única potencialidade divina que se esconde atrás do véu cotidiano. Exemplo disso encontramos na Bhagavad Gita, nome sânscrito que se traduz por “Sublime Canção”, trecho essencial da literatura védica e néctar do Mahabharata, uma das mais longas epopéias já escritas, composta por mais de 90 mil versos e datada cerca de 3.000 anos.

Mahabharata1.0.2

No início do épico Bhagavad Gita, encontramos o jovem príncipe Arjuna, personagem histórico-lendário, da família dos pandavas, atirado ao desconsolo após ter sido destituído de seu trono, traído por seus próprios parentes, os karuavas. Crendo-se incapaz reconquistar seu cetro, chega a considerar que melhor seria sucumbir às mãos de Bhisma e Drohna, respectivamente chefes dos dois exércitos inimigos, do que lançar suas flechas contra eles, ambos homens sábios, merecedores de sua reverência e simpatia. É nesse panorama crítico que surge diante do príncipe humilhado, disfarçado como seu cocheiro, Krishna, entidade divina a lhe ordenar que se anime e se levante a fim de derrotar os usurpadores de seu trono, posto que nenhum valor de afeto deveria pesar mais do que a justiça. Krishna exige de Arjuna que resgate sua coragem a fim de matar seus inimigos. Krishna lembra a Arjuna que o caminho para a moshka (iluminação) é a ação desinteressada, propondo ao príncipe que domine seus sentimentos para que, sem raiva e com coragem e justiça cumpra sua missão, no caso seu dever terreno de guerreiro.

Mahabharata3.0.45

Intérpretes e exegetas mais eruditos deste texto sagrado, entre eles Huberto Rohden, expõem o profundo sentido alegórico deste mito: Krishna representa o Eu plenamente realizado e totalmente consciente de si, a incitar Arjuna, o eu humano cujo reino foi dominado pelo ego, a resgatar seu brilho e sua essência divina. Para isso, entretanto, faz-se necessário vencer seus inimigos clássicos, a compreender os sentidos, o intelecto e as emoções, todos eles aparentados do Eu e ao mesmo tempo usurpadores de nossa serenidade espiritual, visto que comumente nos iludem quanto aos verdadeiros valores da vida, sabendo esconder por trás de suas atuações a natureza divina de que somos originalmente dotados.

A guerra se expande por 18 dias, ao fim dos quais os pandavas vencem seus aparentados, os karuavas. Dezoito também são os capítulos do Bhagavad Gita, que se propõem a nos indicar o árduo caminho de lutas internas que devem ser travadas para que o Eu divino que habita em nosso âmago possa driblar os artifícios do ego e alcançar a plena transcendência, resgatando para si a coroa de sabedoria e espiritualidade que lhe é própria por natureza. Um dos momentos mais sublimes do poema é sem dúvida o décimo capítulo, Das manifestações de Brahman no Universo, quando Arjuna, duvidando daquele que lhe fala, pergunta ao cocheiro com quem é que em verdade está dialogando, ao que Krishna se revela por metáforas, dizendo ser impossível ter-se dele uma percepção exata, senão uma noção aproximada, e depõe-se aos olhos de Arjuna por meio de sutis analogias: “Eu sou a essência espiritual que habita nas profundezas da alma; sou o princípio, o meio e o fim de todas as coisas; eu sou Vishnu (segunda pessoa da trindade brahmânica; Krishna é uma das dez encarnações de Vishnu) entre as forças criadoras; eu sou o Sol dentre as estrelas; a tempestade entre os fenômenos atmosféricos; a lua entre as luminárias da noite; eu sou o sama (o mais belo dos cânticos vedas) entre os livros védicos; entre os destruidores eu sou aquele que transforma; entre os grandes eu sou o gigante; dos elementos eu sou o fogo; entre as montanhas eu sou o Meru (cujo cume, para os hindus, é símbolo de transcendência cósmica); entre as águas eu sou o oceano; sou a harmonia das vozes sinfônicas; sou o néctar da imortalidade; sou o A de cada alfabeto; sou a magia das forças ocultas; sou o pensamento dos pensadores; a liberdade dos pássaros; a vitória dos guerreiros; o amor dos amantes; o arcabouço de tudo o que existe; sou o nascer e o morrer; sou a primavera dentre as estações; sou a astúcia dos astutos; o imponderável que mora na dualidade; a poesia dos poetas; a beleza dos belos; sou o silêncio onde habita o mistério de Deus”.

Mahabharata2.0.42

Nem é preciso dizer, está aí a fonte de inspiração do letrista Paulo Coelho ao escrever os versos de Gita, imortalizada na voz do roqueiro iniciado nos mistérios, Raul Seixas.

Carl G. Jung21.0.5

Um dos maiores sábios contemporâneos que nos ensina a perceber a assinatura de Deus em todas as coisas é Carl G. Jung (1875-1961), por meio de seu conceito de sincronicidade, enunciado em 1951. Jung chama de sincronicidade toda coincidência significativa de eventos extraordinários, que, uma vez por nós presenciada, induz nossa consciência a abstrair desses fenômenos espontâneos e incomuns algum tipo de significado que nos sirva intimamente, sugerindo-nos que algo existe entre nós e o meio em que vivemos, cuja essência resta sempre incapturável pelo olhar estrito da razão, forçando-nos a um entendimento analógico ou mesmo intuitivo das circunstâncias envolvidas. Parece às vezes que Deus se diverte em nos pregar algumas peças, muito oportunas a propósito para nosso aprendizado, e que os anjos todos nos observam com cumplicidade e alegria quando quer que nossas consciências tornam-se aguçadas pela experiência sincronística, que nos sintoniza a alma com uma dimensão superior à da realidade corriqueira.

Entretanto, mesmo a lide cotidiana, as vicissitudes do dia a dia; enfim, toda e qualquer situação por qual passamos, toda dificuldade que se nos interpõe, independentemente das sincronicidades de Jung, encerra Deus de alguma forma em seu bojo; são sempre expressões da divindade disfarçadas em dias e noites, em horas de alegria ou de tristeza, em momentos de paz ou provação.

Walt Whiman

Walt Whiman

O poeta Walt Whitman (1819-1892) soube dizer isso: “Eu vejo alguma coisa de Deus em cada hora das vinte e quatro, e em cada momento. No rosto dos homens e das mulheres eu vejo Deus, e no meu próprio rosto no espelho. Eu encontro cartas de Deus caídas na rua, e cada uma delas assinada com o nome de Deus. Eu as deixo onde estão, pois sei que não importa aonde eu vá, outras virão… infalivelmente… eternamente!”.

O leitor esteja atento às cartas de Deus, e perceberá a divindade não só nas cenas claras, mas também nas mais incompreensíveis provas da vida; encontrará Deus no próximo e em si mesmo, em cada traço e entrelinha, agradável ou não aos olhos, em cada passo do caminho, simples ou difícil, embaixo de cada pedra que resolva levantar, em cada sentimento que visite o coração, no sorriso das crianças, na dor dos enfermos, na fartura e na escassez, em cada lado da moeda, no meio da rua pedindo ajuda, nas descobertas científicas, na oração dos justos, nas notícias do jornal, na simplicidade dos humildes, na esperança que nos move…

Há um Deus esperando por nós em cada uma das coisas, brincando de esconde-esconde na relva, desejando ser visto; descobri-lo é questão de humilde coragem e espontânea sutileza. 

Criação2; Gasperi e Uggeri  

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