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Nostradamus Alquimista

 

NOSTRADAMUS ALQUIMISTA 

Texto de PAULO URBAN, publicado na Revista Planeta, edição nº 333, junho/2000

(Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

Pouca gente sabe que o sábio médico e astrólogo Michel de Nostredame (mais conhecido por seu nome latinizado Nostradamus), considerado um dos maiores profetas da humanidade, levava particularmente uma vida secreta regrada pela excelsa Tradição dos alquimistas. Seguiu à risca todos os seus preceitos, exceto aquele que pede a preservação do anonimato em suas vidas. Mas desculpa-lhe o fato de ter sido um dos principais médicos a se envolver no combate à terrível Peste Negra que assolava a Europa, mais precisamente o sul da França, na primeira metade do século XVI.

Nostradamus nasceu em Saint-Rémy de Provence em 14 de dezembro de 1503, e veio a falecer na cidade de Salon, onde escreveu suas Centúrias, em 2 de julho de 1566, exercitando com ousadia, na região da Provença, o seu ofício de salvar vidas. Por meio de métodos próprios, valendo-se de receitas originais inventadas por ele mesmo, e sempre contestando a ortodoxia do pensamento médico ensinado nas Universidades, ainda muito jovem Michel atrairia sobre si uma fama desmedida. Afinal, seus pacientes pareciam sobreviver em maior número do que os demais, quando infectados pela Peste. Antes desenganados, agora impressionados com suas curas, seus pacientes faziam dele maior propaganda do que aquela que seria obtida décadas mais tarde com a publicação das Profecias de Michel Nostradamus, reunidas em dez Centúrias. Fruto inequívoco do alarde feito por seus pacientes, Nostradamus logo passaria a ser visto como alguém especial, a trazer algo misterioso em seu caráter, atributo misto entre o encanto e o poder, a denotar que guardasse consigo estranhos segredos.

Casa em que nasceu Nostradamus; Saint Rémy de Provence

De fato, a vida oculta do profeta assume um novo fascínio se observada pelos meandros obscuros da alquimia. Escritas em linguagem simbólica, as Profecias de Nostradamus prestam-se, antes de tudo, a uma análise de seu conteúdo alquímico. Se as lermos do começo ao fim, resta impossível não tentarmos imaginar quais mistérios suas linhas guardam, quais segredos se acham ali ocultos, entremeados pelo palavreado difícil de um profeta que se revela um autêntico mestre do hermetismo. Encontramos já na mais antiga edição das Profecias, quando estas surgiram em 4 de maio de 1555, inicialmente compostas apenas pelas três primeiras Centúrias e 53 quadras da IV Centúria, ainda inacabada, várias alusões claras ou indiretas à “Ciência dos Filósofos” (isto é, à alquimia), havendo dezenas de quadras onde ela se esconde por detrás de alegorias, propriamente o estilo de velar as verdades praticado pelos alquimistas.

Visitemos brevemente algumas dessas quadras. Exemplo taxativo da importância do tema encontramos na IV Centúria, quadras 28, 29, 30, 31 e 33, raro ponto do extenso livro em que as estrofes alquímicas se acham assim concentradas, muito próximas umas das outras. Outras mais se dispersam ao longo de toda a obra. Detenhamo-nos na quadra 29, acima citada:

“Le sol caché eclipse par Mercure,
Ne sera mis que pour le ciel seconde:
De Vulcan Hermes sera faicte pasture,
Sol sera veu pur, rutilant e blond”.

“O Sol estará eclipsado por Mercúrio,
Não estará posto senão em céu segundo:
De Vulcão Hermes será feito pastor (ou pasto),
Sol será visto puro, rutilante e dourado”.

Em seu velho estilo de velar e revelar, Nostradamus aqui mais nos dá uma lição de vida do que indicações para o futuro. Oculta por detrás de sua inspirada alegoria alquímica, mas ao mesmo tempo cruamente clara aos olhos de todo iniciado, está sua advertência: valem muito mais na vida nossas vivências diárias do que a tão esperada iluminação que porventura possa ocorrer em seu transcurso. Afinal, todo alquimista deve estar sempre sereno, ser paciente e perseverante em sua busca pela transformação pessoal.

Foto de Rodolfo Bonamigo

Genericamente falando, a simbologia alquímica nos leva à imagem do chumbo, metal denso e pesado, associado aos aspectos mais brutos de nosso psiquismo, sendo transformado em ouro pela ação parcimoniosa do alquimista. Ora et Labora, ou seja, “oração e trabalho”, é uma das principais máximas dos iniciados em seus mistérios. Daí vem o termo laboratório (labor, trabalho; oratório, lugar de orações), a designar para os alquimistas tanto o local de pesquisas e estudo da natureza, como também o sentido de suas buscas. Nessa temática, o elemento ouro, metal nobre e incorruptível, representa o ideal de perfeição almejado. Puro e reluzente, acha-se simbolicamente ligado a tudo aquilo que brilha dentro de nós. Representaria assim nossos melhores aspectos, ou mesmo a divindade, essencialmente presente em toda e qualquer parte do Universo, inclusive em nosso mundo interior, em cujos níveis mais profundos, entretanto, se ocultam outros inúmeros aspectos terríveis e grotescos que esperam por sua lapidação, isto é, pela transmutação capaz de lhes (nos) aprimorar o espírito.

Laboratório Alquímico – séc. XV – XVI

Os alquimistas dedicavam-se exclusivamente à edificação da Opus Magna, ou Grande Obra, na linguagem esotérica. Isto nada mais significa do que a responsabilidade a cada um atribuída de edificar a própria vida, que deveria estar dedicada ao aprimoramento pessoal. Daí ser fundamental a procura pela Pedra Filosofal, espécie de catalisador espiritual de todo o processo alquímico, capaz de acelerar a transmutação do chumbo em ouro. Deter o segredo da Pedra equivaleria a vencer rapidamente as etapas de um interminável caminho que, em termos pessoais, se traduziria por uma transformação radical e profunda, muitas vezes decorrente de um estado de comunhão cósmica ou iluminação.

 A imagem da Pedra está associada ao deus grego Hermes (Mercúrio para os romanos), personagem mitológico que se comporta como “mensageiro de Zeus”, a servir de elo entre nós, seres humanos, e a suprema divindade. A Pedra Filosofal viabilizaria, portanto, a descoberta do elemento áureo ou divino que trazemos em nosso âmago, cujo poder é o de nos transformar para algo melhor, sutil e valioso.

‘A Forja de Vulcano’ – óleo sobre tela do espanhol Diego Velásquez (1599-1660)

Vejamos que na quadra destacada Nostradamus nos revela que Mercúrio, isto é, a Pedra, que estabelece a ligação entre nosso mundo e o plano divino, está eclipsando o astro-rei, dando-nos assim a idéia de que por detrás de sua natureza esconde-se a iluminação áurea. Como para a obtenção da Pedra requer-se um trabalho paciente e constante, Nostradamus valoriza as mais corriqueiras atitudes da vida como sendo o verdadeiro caminho para a iluminação, revelando que sem nosso perene esforço e compromisso frente à vida, não há transformação possível. Quando diz que Hermes “de Vulcano será feito seu pastor”, deixa inequívoco tratar-se de uma quadra especial, dessas que, se nada anunciam sobre o futuro, ao menos muito revelam dos segredos da Tradição esotérica, na qual o Profeta foi um dos grandes iniciados. Ocorre que Vulcano (Hefesto para os gregos) é o deus ferreiro, aquele que forja os metais operando nas entranhas da Terra. Vulcano fabrica as ferramentas do trabalho. É, portanto, a divindade detentora dos segredos alquímicos mais profundos, já que como deus ferramenteiro é capaz de instrumentalizá-los. A Pedra Filosofal é seu mais puro artesanato. Pouco a pouco, estes segredos vão sendo confiados a Hermes, de quem vive próximo, no Olimpo. Hermes mensageiro, astuto e versátil, acaba por repassá-los aos homens (aos alquimistas) sob a forma de revelação.

Há uma corruptela no termo escrito em francês arcaico pasture, que não deixa claro se Nostradamus escreveu aqui pasteur (pastor), trocando a ordem das vogais, como era seu hábito fazer com palavras-chave; ou se ele quer dizer pasto, que em francês se escreve pâture. De qualquer modo, nada se altera em sua leitura simbólica, a dubiedade do termo até a amplia, já que Hermes seria feito pastor de Vulcano justamente porque cuida de seu rebanho composto pelos iniciados na alquimia, ou se comporta feito pasto do deus artesão, onde os buscadores da Pedra Filosofal se resguardam amparados pelo alimento espiritual em que se traduz seu conhecimento, a “Ciência dos Filósofos”. Estando Hermes a cumprir seu duplo papel, de pasto e de pastor, permite, por uma forma ou por outra, que os homens vislumbrem detrás de si o verdadeiro Sol, rutilante e dourado, em alusão ao ouro da iluminação.

Outras provas de que Nostradamus praticava a alquimia estão nas cartas que o profeta trocou durante anos de sua vida com outros iniciados franceses, italianos e alemães. Na Biblioteca Nacional de Paris e na Biblioteca Méjanes de Aix-en-Provence estão guardadas 51 cartas, entre enviadas e recebidas, datadas entre 1557 e 1565, nas quais Nostradamus se declara alquimista, ainda que de modo reservado, somente entre seus pares, para não despertar maiores problemas do que os que já tinha tido com a Santa Inquisição.

Jean Aimes Chavigny

Centralizemo-nos numa destas epístolas que Nostradamus escreveu a um certo Dr. François Bérard, de Avignon, aos 6 de setembro de 1562. Quando da morte do profeta, tal carta passou às mãos de seu discípulo Jean Aimes Chavigny. Este, anos depois, entregou-a a Cesar de Notredame, filho de Nostradamus, de quem foi preceptor. Com a fama alcançada por Nostradamus, que aumentou ainda mais após sua morte, Cesar de Notredame repassa a carta, em 1629, como forma de contribuição à História, a um certo Sr. Fabri de Peiresc, conselheiro de Aix. Na ocasião, adverte para que o documento não fosse publicado, apenas guardado. Razão disso? Várias passagens a ligar seu pai com procedimentos considerados espúrios tais como ritos mágicos, demonologia e alquimia.

Dr. Bérard havia escrito a Nostradamus por duas vezes em 1558; na primeira pedia-lhe informações a respeito da alquimia e também acerca de um anel considerado mágico que tinha adquirido, por meio do qual seria possível fazer predições. A segunda carta solicitava ao astrólogo que lhe enviasse os estudos de seu mapa natal, o qual lhe foi mandado. Não há novos contatos até 13 de agosto de 1562, quando escreve a Nostradamus pedindo-lhe que confiasse a seu emissário, o portador da carta, “seu astrolábio, o Livro de Hermes com todos os seus acessórios inerentes, e ainda a medida de um peso de âmbar cinza”. De que falavam? Em linguagem velada faziam alusão à Pedra Filosofal?

Nostradamus, desculpando-se pela demora em responder, explica na referida carta: “Entenda que por nove noites consecutivas estive entretido, oculto e solitário, da meia-noite às quatro da manhã, com a cabeça coroada pela folha do loureiro e acima de mim tendo a Pedra,(…) e obtive com a força uma parte do que desejava saber, por meio do vosso anel, do mesmo modo com que emprego meu tripé”. Diga-se de passagem, o loureiro é planta associada milenarmente aos vaticínios; os antigos sacerdotes gregos a usavam no Oráculo de Delfos para produzir algum estado alterado de consciência nas pitonisas por meio de beberagens feitas com elas.

Nostradamus em sua casa – Salon de Provence

Mais adiante, na mesma carta, confessaria ao invocar as hostes divinas: “Ó mensageiro de Deus, que é meu protetor! Com tua bondade dirige-me (…) vejo a transformação do corpo que se encontra na natureza, do mesmo modo que com o tripé de bronze predigo a verdade segundo o curso dos astros”! Poucas linhas abaixo escreveria em tom de oração: “Sobretudo, faze no mundo que, através de Ti que comanda a natureza, eu produza abundância e riqueza; que com ajuda de Mercúrio eu transforme os metais comuns tornando-os semelhantes a partículas de ouro de verdadeiro aspecto solar”. E produzirei o ouro propriamente bom de se beber e potável (franca alusão ao Elixir da Longa Vida), capaz de prolongar a vida dos imperadores, reis e grandes personagens”.

Está provado: Nostradamus era um alquimista. Mas qual tripé de bronze é este de que fala duas vezes em sua carta ao Dr. Berard? As primeiras duas quadras da I Centúria trazem a resposta:

I

Estant assis de nuit secret estude,
Seul reposé sur la selle d’aerain:
Flambe exigue sortant de solitude,
Fait prosperer qui n’est à croire vain.

II

La verge en main mise au milieu de Branches
De l’onde il moulle le limb et le pied
Un peur et voix fremissent par les manches:
Splendeur divine. Le divin pre s’assied.

I

Estando sentado à noite em secreto estudo,
Só, repousado sobre o tripé de cobre:
Chama exígua surge na solidão,
Faz prosperar aquele que não está a crer em vão.

II

A vara à mão é posta em meio a Branches,
De suas ondas ele umedece o limbo e o pé (o céu e a terra)
Um medo e voz fremente para as ordens:
Esplendor divino. A divindade assenta-se bem perto.

Michel de Notredame – médico, astrólogo e alquimista

A estranha expressão “Selle d’arein”, segundo Anatole le Pelletier, um dos comentaristas clássicos do profeta, e conforme consenso entre os analistas das Centúrias, faz alusão ao “Tripé Sagrado de Apolo”, do alto do qual as pitonisas do Templo de Delfos profetizavam. Imagina-se que Nostradamus praticasse a hidromancia, isto é, a adivinhação pela água, que era colocada numa cuba, apoiada no tal tripé. Na superfície da água, Nostradamus enxergava o firmamento refletido, já que o sábio adorava passar horas a fio a céu aberto, meditando em cima do telhado de sua casa em Salon, buscando atingir o transe concentrando-se nas imagens que via se formarem dentro da cuba.

Além disso, ao que parece, vez por outra Nostradamus remexia a água com sua baqueta (o verso inicial da segunda quadra é claro) e, das ondas que se faziam, conseguia abstrair imagens. Em francês, “l’onde” pode também significar certa vibração que se propaga, como se proviesse dos espíritos, do além. Branches, assim destacado com inicial maiúscula, é alusão a outro importante oráculo da Antigüidade pagã, o de Branchus. Cita-o como que para tornar explícito, e o verso seguinte o garante, que por esse método se estabelecia sua ligação com o mundo superior ou divino. Nostradamus está com seus sentidos transcendidos, ele ouve vozes, e é honesto quando diz que sente medo ao presenciar que algo extraordinário dele se aproxima, como se sentasse ao seu lado.

A primeira quadra, não por acaso nos fala de seus estudos secretos e noturnos; Nostradamus não a teria escolhido à toa para começar seu livro de Profecias. Ele está obviamente falando aos demais alquimistas, e para tantos quantos sendo sensíveis saibam percebê-lo, de seu sistema de perscrutação do infinito e do porvir. Como roga a Tradição da alquimia, ele está a sós em sua busca, e uma chama (o fogo de Vulcano) o ilumina em sua solidão, fazendo-o prosperar em seu ofício, revelando-lhe os segredos da natureza. Adverte-nos de imediato que aquele que nos fala é um iniciado nos mais profundos mistérios e, por isso, suas lições não podem ser desprezadas, afinal, nem ele está a crer em vão, nem nós deveríamos ignorar suas palavras.

Dragão Alquímico de Ripley – ‘Theatrum Chemicum Britannicum’, 1652

De fato, poucos até hoje se deram conta de que Nostradamus era um mago. O sábio cumpriu bem o seu papel de velar os seus segredos dos profanos, deixando-os, entretanto, bem claros aos olhos dos verdadeiros iniciados, capazes que são de enxergá-los nos mais inusitados lugares, mesmo em meio às metáforas das quadras escritas pela pena mágica de um médico alquimista.

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